Pe. Edvaldo Celestino de Melo - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Fri, 27 Sep 2024 03:42:20 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Pe. Edvaldo Celestino de Melo - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 Qual é o papel do bispo perante os desafios atuais sendo ele, além de um sujeito religioso, também um expoente moral da ordem social? https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/qual-e-o-papel-do-bispo-perante-os-desafios-atuais-sendo-ele-alem-de-um-sujeito-religioso-tambem-um-expoente-moral-da-ordem-social/ Fri, 28 Aug 2020 13:42:41 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=58977 Chegamos, enfim, ao nosso último artigo sobre a figura do bispo em uma diocese. Essas catequeses puderam abrir a nossa inteligência para compreender quem ele é, qual é a sua missão, que espiritualidade deve ter e, agora, qual a sua importância e papel em um âmbito mais geral, ou seja, a sociedade, para além das fronteiras de sua jurisdição territorial. Em forma de escada pudemos subir, degrau em degrau, até o ápice dos nossos objetivos: familiarizarmos com o perfil e o encargo do “servo Monsenhor Giovani, bispo eleito para a nossa Diocese…” segundo a oração em preparação à sua posse como temos rezado em nossas comunidades desde a sua eleição.

Antes de tudo gostaríamos de fazer uma síntese do percurso. Receber em uma diocese um bispo eleito pela Igreja e para a Igreja é algo que talvez já estejamos acostumados, pois a lógica da sucessão apostólica é fazer valer com que a “cátedra” (o centro espiritual concreto de unidade e comunhão para o presbitério diocesano e para todo o povo santo de Deus) não esteja vacante. E quando falamos em “acostumados” é no sentido de que tal costume nos faça perder de vista a beleza de se ter presente uma personalidade tão cara quanto o bispo. Por isso mesmo que a pergunta Quem é o bispo? lançou-nos não somente a uma curiosidade súbita em querer saber despreocupadamente quem era o “próximo da lista”, mas em aprofundar no mistério da eleição e identidade daquele que viria nos pastorear e liderar. De igual modo, a sua práxis missionária (ou sua tarefa) fez-nos perguntar Qual é a missão do bispo em uma diocese? Como doutor legítimo e sábio pedagogo para ensinar, homem zeloso das coisas santas que lhe foram confiadas para santificar, e servidor humilde da Igreja e ao mesmo tempo pastor das ovelhas para governar, não nos restou nenhuma dúvida sobre o seu notável múnus a desempenhar, qual dever insubstituível, na Igreja Particular à qual fora envidado. A sua difícil e nobre tarefa de ensinar, santificar e governar o povo de Deus está entrelaçada à sua vida espiritual propriamente dita. Por isso que ao perguntar Que tipo de espiritualidade tem que ter o bispo? respondemos simplesmente que precisa ele alimentar uma espiritualidade eclesial (ter o sentimento familiar de convivência entre ele e sua diocese), uma espiritualidade mariana (ver e ter em Maria Santíssima o seu exemplo de humildade e disponibilidade), e uma espiritualidade orante (render-se aos colóquios com Deus visando o crescimento nas virtudes).

As três perguntas iniciais deságuam qual rio no mar de outra que vem corroborar todas elas: Qual é o papel do bispo perante os desafios atuais sendo ele, além de um sujeito religioso, também um expoente moral da ordem social? As três primeiras visam o bispo em sua vocação, dentro da diocese, sentado em sua cátedra, lidando com o seu povo (primeira missão). A última projeta o bispo, estando dentro da diocese e ocupando seu posto, para um espaço maior geográfico, moral, político e socialmente falando (segunda missão). E essa missão nos faz pensar nas novas “formas especiais de apostolado” que nos indicaram o Decreto Christus Dominus – sobre o múnus pastoral dos bispos na Igreja, 17: “As formas de apostolado acomodam-se perfeitamente às necessidades dos dias de hoje, tendo em vista as novas exigências dos homens: não só espirituais e morais, mas também sociais, demográficas, e econômicas”. Diante disso, a dimensão missionária do ministério episcopal é larga, pois a sua consagração não é somente em benefício à sua diocese, mas extrapola para a salvação de todos os homens e mulheres que não fazem parte do seu rebanho, isto é, aquela porção social que compõe outras camadas importantes da vida civil que podemos chamar de seculares (que não são religiosas essencialmente). Daqui já podemos pensar o seguinte: o bispo é uma personalidade eclesial que possui competências religiosas, por um lado, e também uma figura diplomática ou política que cumpre um papel importante no âmbito moral e social enquanto é livre para dirigir-se a toda à sociedade com o fim dialético e pedagógico, por outro lado. Nesse particular, as palavras de Cristo sobre si mesmo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (Mt 28,18), unidas ao mandato a seus discípulos: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a todas as criaturas” (Mc 16,15) fazem todo o sentido na vida do bispo enquanto mensageiro do Evangelho nos dias atuais, pois ele é envidado portando o cajado da autoridade como doutor autêntico para falar em nome de Cristo e da Igreja. Portanto, para responder à pergunta desse artigo, vamos recorrer tanto ao seu múnus de ensinar, quanto aos aspectos da sua espiritualidade no que tange às suas virtudes humanas e, também, à sua formação permanente. Realidades que estão intimamente conectadas umas às outras.

Já sabemos que “ensinar” é um verbo que o bispo tem de conjugar constantemente em seu ministério para poder cumprir diligentemente com a sua função docente perante sua diocese e a sociedade que a abarca. O anúncio do Evangelho não se resume aos limites da Igreja, mas alcança mentes e corações inimagináveis pela sua sabedoria e poder. Todo bispo é consciente que não é somente a fé que deve ser transmitida, mas também o conteúdo moral e ético que norteiam a vida humana enquanto costumes e normas para a construção de uma sociedade mais justa e desejosa de paz perene. Por isso mesmo que o bispo, por ser um educador de valores e promotor dos princípios fundamentais que unem a caridade e a verdade, a justiça e a paz, a liberdade e a solidariedade, os direitos e as obrigações, a família e a sociedade, enfim, está em alerta sobre tudo o que acontece no mundo ao seu redor, principalmente quando as forças contrárias (políticas, ideológicas e conspirações de toda natureza) à justiça e ao bem comum começam a esvaziar o sentido e a consciência das pessoas a respeito da sua responsabilidade social em construir uma civilização mais humana. De sua cátedra o bispo desempenha o papel de doutor da Doutrina Social da Igreja para a sociedade inteira, pois essa doutrina possui um “valor de instrumento de evangelização, porque põe a pessoa humana e a sociedade em relação à luz do Evangelho” (como nos diz as primeiras linhas deste documento). O seu magistério ainda o faz recordar da exortação feita pela Constituição Dogmática Lumen Gentium: “As presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja, a fim de que todos os homens, hoje mais intimamente ligados por vínculos sociais, técnicos e culturais, alcancem unidade total em Cristo”.

Dentro do seu munus docendi (missão de educar), está o núcleo daquilo que consideramos ser o bispo um “expoente moral da ordem social” (conforme o Diretório para a o Ministério Pastoral dos Bispos, 120), confirmando o fato de que ele é uma imagem público-social para além de uma imagem apenas religiosa, pois a sua presença na sociedade e a condição de ser um homem que ocupa um lugar privilegiado em que dele se origina decisões importantes na vida de muitos cidadãos dão a ele a oportunidade de estar presente em determinados lugares ou reuniões sociais das mais diversas (como nos ensina a Exortação Apostólica Pastores Gregis, 41), colaborando, assim, “por meio de conselhos, persuasões e exemplos” ao contexto em que está inserido (segundo a Constituição Dogmática Lumen Gentium). Evidentemente que o bispo, antes de tudo, tem a obrigação de pregar aquilo que os fieis tem de acreditar, ou seja, a fé, e em tudo levar o seu povo a glorificar a Deus para a salvação eterna de suas almas, no entanto, ele também, por causa de que o objeto de seu anúncio contém elementos que incluem princípios éticos para organizar a dimensão social, se dirige sábio e prudentemente a todos os demais proclamando a autêntica libertação que vem de Cristo pelo fato de que evangelizar é também humanizar. Por isso ser ele um “expoente moral da ordem social”, um sujeito visto como representante de uma causa essencialmente benéfica para “o bem de todos os homens e do homem todo” na sociedade e não apenas para um grupo seleto de pessoas. Isso justifica a verdade de que ele é o defensor do que chamamos “bem comum”, isto é, “o conjunto daquelas condições da vida social que permitem aos grupos e a cada um dos seus membros atingirem de maneira completa e desembaraçadamente a própria perfeição” (Doutrina Social da Igreja, 164). Educar o mundo social naquilo que é mais concreto da vida humana, a saber: o valor da vida desde o nascimento até o seu termo natural, a liberdade das pessoas, a família em sua unidade e estabilidade (incluindo a geração e educação da prole), a dignidade do trabalho, o significado da tecnologia e da ciência e seus favores em prol da raça humana e da natureza, a ecologia e a utilização dos bens materiais, a convivência pacífica entre os povos e, hoje em dia, a situação sanitária crítica em que passa o mundo por causa da pandemia da COVID-19, o bispo é chamado a emitir um juízo não somente para a Igreja, mas igualmente à sociedade como um todo, pois ele é também um cidadão e beneficiário direto dos bens sociais.

Como dissemos acima, da espiritualidade que o bispo deve nutrir originam-se as suas virtudes humanas propriamente ditas. No artigo anterior vimos que ele possui um tripé espiritual que sustenta a sua vida mística e virtuosa enquanto legítimo sucessor dos apóstolos à frente de sua diocese. E aludimos também, dentro dessa conjuntura do tema que estamos trabalhando, ou seja, o bispo como uma personalidade importante na/para a sociedade pelo fato de ser um sujeito moral, que ele pode servir de ponte (pontífice) entre a Igreja e a vida social. O Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, 37, nos diz claramente que “é evidente que a santidade à qual o bispo é chamado exige a prática das virtudes (espirituais)”. Dentre elas se destacam as virtudes teologais (fé, esperança e caridade), os conselhos evangélicos (pobreza, castidade e obediência), a caridade pastoral (seu amor ao ofício), a prudência pastoral (que é a sabedoria prática e a arte do bem governar), a fortaleza e a humildade (ser paciente no suportar as adversidades pelo Reino de Deus), o exemplo de santidade e muitas outras virtudes espirituais que o ajudarão na senda da sua missão. No entanto, aqui daremos destaque àquelas virtudes episcopais que a Igreja dá o nome de “dotes humanos”, pois, aqui, à nossa maneira de ver o bispo como expoente moral e social, combinará melhor com os nossos fins.

Quando falamos em “dotes humanos”, enfatizamos que o bispo deve revelar-se cheio de humanidade. Teologicamente falando, Jesus fez-se homem, fez-se “carne” (Jo 1,14) e permanece “verdadeiramente homem”, como professamos em nossa “Profissão de Fé” (Credo). O bispo como um homem chamado por Deus ao episcopado e exercendo a sua missão na Igreja, por um lado, poderia muito bem ser nomeado de “homem teológico” (pelo mistério que o envolve), mas, por outro lado, poderíamos chamá-lo de “homem sociológico” tendo em vista a sua missão junto à sociedade. Caso ele se dirija à comunidade humana apenas como bispo e revestido de suas virtudes espirituais, correria o risco de não ser bem interpretado ou aceito, pois já dissemos que a sociedade, pelo menos uma boa parte dela, não é religiosa ou simplesmente considera os assuntos religiosos como algo secundário, priorizando, assim, fatores de ordem seculares ou, como se diz hoje, laicais. Diante desse fato, podemos indicar, já, um enorme desafio para a Igreja que é se dirigir, em plena contemporaneidade, a uma sociedade “pós-cristã” (alguns já arriscam um “pós-Deus”), ateia, destradicionalizada e distanciada da religião, globalizada e relativista, enfim, um novo “areópago” diversificado e repleto de posturas e mentalidades avessas ao catolicismo. Dificultando o diálogo ou a travessia da “ponte”. Então perguntaríamos: diante desse cenário social o bispo se apresentaria apenas como um sujeito religioso? A resposta seria: “sim” (por não ter que negar o seu chamado de ser um homem de Deus, mesmo em meio a tudo isso) e “não” (pelo fato de que ele é um ser humano e possuir uma natureza social e poder se dirigir a ela humana e moralmente). Pensando nisso que a Igreja, ao se referir a essa ação e presença do bispo na sociedade como um todo e não somente em sua diocese, enfatiza que “no seu comportamento devem brilhar aquelas virtudes e os dotes humanos que brotam da caridade e que são justamente apreciados na sociedade” (Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, 47). Se em Cristo o eterno entra no tempo, no bispo (como homem de Deus) a Igreja entra na sociedade e na história. Aqui temos a passagem de sua dimensão teológica para a dimensão sociológica. Aqui ele de fato é um legítimo “pontifex” (um arquiteto de pontes, um conciliador entre o espiritual e o humano, entre o eclesial e o social).

Na citação acima algo prende a nossa atenção: “virtudes e dotes humanos que são apreciados na sociedade”. Quais virtudes? Quais dotes humanos? Quando falamos em “virtude” o universo é gigante e está em expansão em seu significado, mas, em outro momento, já indicamos que se trata de um “exercício”, uma “prática” em aperfeiçoar-se nas qualidades humanas. Existem qualidades que podem ser praticadas pelo bispo que o faz próximo da sociedade, facilitando o intercâmbio. Mais uma vez o Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos nos sugere algumas: “uma humanidade profunda, um espírito bondoso e leal, um caráter constante e sincero, uma inteligência aberta e clarividente, sensível às alegrias e aos sofrimentos alheios, uma grande capacidade de autodomínio, delicadeza, tolerância e discrição, uma saudável propensão para o diálogo e a escuta, uma permanente disposição para o serviço”. Percebemos que todas essas qualidades são essenciais na vida do bispo e gostaríamos de comentar todas essas virtudes para melhor entendermos a sua natureza enquanto um expoente moral da ordem social, no entanto, vamos destacar apenas uma que vem ao encontro de alguns desafios atuais que ele, com “humanidade profunda”, lidará exercitando o “diálogo e a escuta”. E tal virtude é a “inteligência aberta e clarividente”. Enfatizamos de antemão que muitos são os desafios sociais que esperam uma participação e resposta do bispo, sejam eles pastorais (a diminuição do número de católicos, a destradicionalização dos costumes, os inúmeros sintomas da crise familiar, uma catequese que tenha um método inovador para as novas gerações, o baixo índice no número das vocações etc), sejam extra-pastorais (o aborto e os métodos anticoncepcionais, o aumento do pentecostalismo, a pouca influência nas universidades, o diálogo interreligioso, o ecumenismo, o fenômeno da migração, a diversidade cultural e religiosa, o urgente debate sobre o pluralismo religioso, a corrupção política, a crise sanitária em decorrência da Covid-19, os direitos humanos, a explosão demográfica e as políticas de natalidade, globalização, fome e miséria, o desemprego, a violência, a cultura da morte e os contra-valores, conflitos entre as nações, o secularismo, o relativismo cultural e existencial, o modismo das ideologias, o tráfico de drogas e de pessoas, a devastação ambiental, as Fake News – ou desinformação – etc). E dessas últimas, escolheremos também apenas uma: a “corrupção política”. Nada mais aproxima o bispo da sociedade do que combater a corrupção política com uma inteligência aberta e clarividente. A escolha dessa virtude perante tal desafio nesse artigo se justifica por duas razões: 1) o bispo é verdadeiramente um expoente moral da ordem social, 2) é necessário uma inteligência aberta e uma formação permanente para compreender as complexidades de uma política corrupta e corruptível (e estamos em tempos de novas eleições).

Apesar de que de se trata de um tema vasto, ficaremos apenas nos detalhes mais importantes tendo em vista, sempre, a figura do bispo enquanto um homem que se dirige à sociedade como um todo. Em primeiro lugar, já está evidente que o bispo é um “homem sociológico”, ou seja, moralmente sociológico, e está na sociedade e a observa do ponto de vista da justiça, da verdade e do amor (caridade). Isso se deve ao fato de que ele não desvie o olhar da pessoa humana em sua dignidade (que é imagem e semelhança de Deus) e de sua convivência e relações políticas com os demais que compõem o tecido social. Nesse particular, o bispo assume o papel de defensor de toda uma comunidade política (pólis, do grego, fazendo derivar a palavra política), independentemente de ser ela religiosa ou não religiosa. A sua característica de ser um homem moral o coloca na condição de promover uma ordem social (real e não ideal) que leve em consideração o fim desejável (e que é a vontade de Deus) de que toda “a comunidade política consiga alcançar o crescimento e aperfeiçoamento de todos os seus membros, chamados a colaborar de modo estável para a realização do bem comum, sob o impulso da sua tensão natural para a verdade e para o bem” (Doutrina Social da Igreja, 384). Qual missionário em promoção da causa do bem comum, ou seja, a busca incansável do bem ou do sentido da verdade que se podem encontrar nas formas de vida social existentes, o bispo atua em nome da Igreja que é “perita em humanidade e solidária com os homens do nosso tempo” (Pastores Gregis, 66). Tendo em vista a inteligência do Evangelho que aprendeu sendo discípulo do Mestre Jesus, que chamou a atenção do povo para as várias formas de injustiças de seu tempo, o bispo, como expoente moral, tem o dever de desmascarar as falsas e múltiplas concepções redutivas da pessoa humana, resgatar os valores e os belos costumes humanos dos desvios funestos das ideologias que instrumentalizaram esses mesmos para projetos de caráter econômico, social, cultural e político e, ainda, discernir a verdade perante a onda relativista que faz tudo perder a força e a solidez em uma sociedade que foi batizada de “líquida” e “porosa”. Em tal cenário, o bispo assume com confiança e coragem a sua missão na sociedade e alerta que somente o exercício da vida moral poderá atestar a dignidade da pessoa humana e de toda a comunidade política.

Mas, e a corrupção política propriamente dita? O bispo pode se dirigir a tal situação? Pode e deve por quatro razões: 1) partindo do fato social de que o bem comum é descaradamente desrespeitado pelos agentes políticos em exercício (sim, aqueles que foram “democraticamente” eleitos pelos que possuem “título de eleitor”); 2) partindo da realidade em que milhares de pessoas não estão dentro do quadro de vantagens sociais como alimentação, habitação, segurança, trabalho, educação e acesso à cultura, transporte, saúde, livre circulação das informações e tutela da liberdade religiosa; 3) partindo da verdade de que o bem comum é de responsabilidade de todos e principalmente do seu responsável direto que é o Estado; 4) e partindo da premissa de que o bispo, expoente moral da ordem social, tem que ter, enquanto virtude e qualidade humana, uma inteligência aberta e uma formação sólida e permanente que lhe tragam luz a respeito das intenções perversas, maquiavélicas, ideológicas, conspiratórias, sujas, trapaceiras e psicopatas que circulam no mundo da política desonesta em nossa sociedade.

Testemunhando e participando vivamente de uma sociedade onde o bem comum é camuflado e, em muitos casos, até anulado, “o bispo é o profeta da justiça” (Pastores Gregis, 67), assumindo uma postura moral contra toda imoralidade, sendo uma voz potente a favor dos direitos e dos deveres dos homens e das mulheres, pregando a doutrina social da Igreja cujo fundamento está no Evangelho de Cristo (e não em outras muitas deformações interpretativas vindas de várias fontes sociais, filosóficas, culturais e ideológicas). Santo Agostinho, que também era bispo, já dizia que o arauto de Cristo deveria ter “inteligência ágil e perspicácia crítica” para não ser enganado pelos astutos deste mundo. Da mesma forma o bispo dos dias atuais e perante os muitos desafios, mas atento ao mais feroz e senão o maior causador dos demais males, a corrupção política, deve denunciar os indivíduos que desrespeitam os princípios morais, enganam as pessoas e tiram vantagem da fragilidade e inocência dos menos favorecidos. Uma formação intelectual que inclua leitura, aprofundamento, estudo, conhecimento interdisciplinar e uma constância na observação dos fatos podem favorecer o bispo nessa sondagem profunda da corrupção política e ajudar o seu povo enquanto diocesanos e depois a sociedade inteira a conhecer verdadeiramente as causas que bloqueiam as exigências do bem comum e sua realização. A política em si é um bem para a comunidade humana quando ordenada para o bem de todos, mas, infelizmente, os “prometedores de mentiras” desmoralizam a virtude do bem governar, fabricam escândalos de sua própria incompetência, preocupam-se mais com o cifrão do que com a vida humana e o seu destino, e com isso são responsáveis pela pandemia da descrença política e da corrupção generalizada em nossa sociedade. Ao contrário disso, está o bispo como uma autoridade eclesial e social legítima chamando a atenção das autoridades políticas convidando-as à consciência do seu dever de garantir a vida ordenada e reta da comunidade, disciplinando-a e orientando-a para a realização do bem comum. E por autoridade política não nos esqueçamos que é o próprio povo considerado na sua totalidade como detentor da soberania. Se o bispo é um sujeito moral além de um sujeito eclesial, a autoridade política também carrega esse distintivo da moralidade em sua essência.

Diante disso, qual é o papel do bispo perante os desafios atuais sendo ele, além de um sujeito religioso, também um expoente moral da ordem social? Quem nos responde é a Pastores Gregis, 67: “Como a Santa Igreja é no mundo sacramento de íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, também o bispo é defensor e pai dos pobres, é zeloso da justiça e direitos humanos, é portador de esperança”. Que virtude maravilhosa de ser defensor de uma ordem social justa! Que alegria poder ter na Igreja alguém que olha para o horizonte além das fronteiras de sua própria casa! Que felicidade da Igreja Católica em ter no bispo alguém que, com paixão de pastor, sai à procura das ovelhas, imitando Jesus que diz: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco e também tenho de as conduzir; ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16).

Portanto, chegamos ao final de nossas catequeses sobre o episcopado. Foi uma trajetória incrível estudando e aprofundando sobre a figura do bispo e sua essência, sua missão, sua espiritualidade e seu papel para além de sua diocese. Acreditamos que os objetivos propostos foram alcançados. Estamos conscientes de que existe ainda um universo de assuntos sobre essa personalidade tão especial na Igreja Católica e que, aqui, não poderíamos abarcar todos os detalhes. No entanto, temos elementos suficientes para a nossa reflexão e conhecimento. Monsenhor Giovani Carlos Caldas Barroca está às portas! Antes de chegar aqui como bispo ele acenou de longe para nós e disse em sua Carta aos diocesanos: “Ao saber para qual diocese fui designado, alegrei-me por conhecer as qualidades pastorais e da fé sólida que essa Igreja Particular transmite por meio do seu presbitério e da vida eclesial”. Em uma linha anterior, no mesmo parágrafo, Monsenhor expressou sua pequenez e “indignidade para tamanho ofício”. Sim, o ofício é grande, mas é também grande a beleza do teu chamado. Sim, é grande o encargo, mas é grande de igual modo o Deus que lhe confia tal missão. Exatamente, é grande e pesada a tarefa que irá assumir, mas é infinitamente maior a misericórdia de Deus a lhe sustentar. Terás um cajado em tuas mãos, uma mitra em tua cabeça e um anel em teu dedo. Insígnias episcopais que sinalizam a realeza de uma vocação sublime ao serviço, pois a isso te consagras, a isso te entregas e por isso hás de consumir-te. A expectativa aumenta em cada grão de areia que escorre no estreito espaço da ampulheta do tempo até que nos alegremos todos com a sua chegada. O vazio e o silêncio da cátedra durante o período de vacância são substituídos pela presença e eloqüência daquele que vem para ensinar, governar e santificar, qual sucessor dos apóstolos, a dileta Diocese de Uruaçu, porção do povo de Deus e território pastoral de nosso quarto bispo que já podemos, no coração, chamar de Dom Giovani. Seja bem-vindo!

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Pe. Edvaldo Celestino de Melo

Que tipo de espiritualidade tem que ter um bispo?

 

Qual é a missão do bispo em uma diocese?

 

Quem é o bispo?

 

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Que tipo de espiritualidade tem que ter um bispo? https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/que-tipo-de-espiritualidade-tem-que-ter-um-bispo/ Sat, 22 Aug 2020 15:49:06 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=58955 Para quem leu o artigo anterior que falava sobre a missão do bispo, ou seja, o seu dever premente de ensinar, santificar e governar uma diocese pôde perceber que na conclusão já fazíamos uma alusão ao que estudaríamos nessa terceira e penúltima catequese sobre a figura episcopal e sua importância para a Igreja Católica de maneira geral e, particularmente, para a Diocese de Uruaçu. Encerramos apontando para duas realidades essenciais na vida de quem foi chamado ao episcopado, isto é, a espiritualidade e as virtudes próprias daquele que exercerá legítima e piedosamente o seu múnus (serviço). Tanto uma quanto a outra são vastíssimas em seus significados, e ainda mais quando ligadas a uma pessoa e ao seu encargo, mas, aqui, desceremos apenas aos detalhes que nos chamar mais a atenção e, em nossa percepção, serão úteis para acompanhar gradualmente o nosso novo pastor diocesano Monsenhor Giovani Carlos Caldas Barroca que já está às portas dessa nossa estimada e histórica Diocese.

Uma introdução à “espiritualidade” nos ajudaria a compreender não somente o termo, mas também a aplicação dele na vida espiritual do bispo. A palavra “espiritualidade” é usada atualmente de uma forma muito elástica e possui vários significados, pois não é vista mais apenas dentro de um âmbito religioso propriamente dito (“divina” ou “angélica”), mas hoje muitos a entendem como “entusiasmo” ou “filosofia mística”, apesar de que o nosso conceito se fixará no território teológico e eclesiástico indicando uma existência em comunhão com Deus, uma vida que vem da fé em Jesus Cristo movida pelo Espírito Santo.

E por falar em “espírito”, a origem da palavra espiritualidade vem do grego (pneumatikós) que quer dizer “de acordo com o espírito” ou “cheio do espírito”. Que em latim ficaria spiritus. Assim, quando falamos em espiritualidade queremos dizer que é a vida que vem Deus, um dom sobrenatural que está para além da pura materialidade. Em outras palavras, é uma arte de viver espiritualmente conforme os ditames do Espírito Santo. É o caminho do deixar-se formar e mudar cada vez mais pelo Espírito de Jesus. Não é difícil notar a centralidade do “Espírito Santo” quando falamos em “espiritualidade”. Trazendo o tema para uma ambiência eclesial e cristã genuínas, em que vislumbramos uma seara vastíssima de caminhos espirituais oriundos da vida bi-milenar da Igreja Católica, podemos citar uma multiplicidade de fontes (cada uma com sua especificidade): espiritualidade de caráter beneditino (que colocava a liturgia e a vida em comunidade como centro), a espiritualidade franciscana (para qual a pobreza e a liberdade interna são os seus sustentáculos), a espiritualidade inaciana (que possuem os conhecidos “exercícios espirituais” para se conseguir ou aperfeiçoar as virtudes), a espiritualidade mística (que valoriza a união com Deus), a espiritualidade mariana (a qual tem Maria Santíssima como modelo e símbolo da confiança e fé em Deus), e muitas outras. E como falamos acima que o termo “espiritualidade” é flexível a muitas outras formas de vida no cotidiano (não somente no cristianismo), alguns teóricos ainda arriscam dizer que ela está presente também, em tons “entusiasmados” (e a palavra já aponta para uma “força mística” da pessoa), no trabalho, nos relacionamentos, nas decisões da vida, na nossa missão ou objetivos que traçamos em nossa existência histórica. Diante dessa pequena nota sobre a “espiritualidade”, enfatizamos que a vida espiritual do bispo passa necessariamente pela via teológica e eclesial do Espírito Santo como fonte de sua vocação e missão episcopal, e não pela via “filosófica” ou “entusiasmada” como centro de suas “apaixonadas cosmovisões”.

Um texto bíblico poderia nos servir de base para falarmos sobre a espiritualidade do bispo. Está nas palavras de São Paulo a Timóteo: “Exercita-te na piedade… sê modelo dos fieis na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na pureza… Não descures o dom espiritual que está em ti… Cuida de ti mesmo e da doutrina e sê perseverante” (1 Tm 4, 7.12.16). Esse fragmento do epistolário paulino poderia resumir a nossa proposta desse artigo, pois contém tanto as virtudes quanto a espiritualidade do sucessor dos apóstolos. Mas vamos aos pormenores. São Paulo fala de “um dom espiritual que está em ti”, fazendo-nos lembrar do que rezamos na Oração Eucarística IV que diz: “… o Espírito Santo, como primeiro dom aos vossos fieis…”, e ainda confirma o que nos ensina o Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos em seu capítulo II: “Com a consagração episcopal, o bispo recebe uma especial efusão do Espírito Santo”. Essas três referências afastam toda a dúvida de que o bispo não possui a “plenitude do Espírito Santo” em sua própria pessoa pelo fato de que ele todo já está configurado com Cristo (que nos prometeu e enviou o Espírito Santo a toda a Igreja – At 2, 1-4). Tal configuração ainda nos eleva ao pensamento de que o bispo é chamado a compartilhar a vida de quem o chamou, viver segundo a palavra de quem o ensinou, buscar a santidade de quem o convida a ser santo, guiar o rebanho no qual ele mesmo é ovelha antes de ser pastor. E nessa comunhão profunda com Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo, o bispo sofre uma “transformação ontológica” exclusiva em si mesmo, ou seja, o seu ser abre espaço para que o ser de Cristo esteja em evidência sem que ele mesmo perca tudo o que possui por natureza. Essa configuração plena à pessoa de Cristo pela efusão do Espírito dá ao bispo a possibilidade de nutrir uma forma de espiritualidade específica em seu ministério para desempenhar com amor e incansável dedicação a sua tarefa. E quando falamos em “espiritualidade específica” nos referimos às particularidades imprescindíveis em sua vida espiritual, ou seja, uma “espiritualidade tipicamente eclesial”, uma “espiritualidade mariana” e uma “espiritualidade orante”. E esse tripé espiritual combina, assim podemos aludir, com as formas de espiritualidade vistas acima e com o que escreveu São Paulo, pois a espiritualidade eclesial diz respeito à “doutrina”, a espiritualidade mariana faz referência ao “modelo dos fieis”, e a espiritualidade orante diz do “exercício da piedade”. Vejamos cada uma dessas “espiritualidades episcopais”.

A vida espiritual é sempre uma exigência para o cristão, imaginemos para aquele que é bispo, pois para exercer um serviço tão sublime na Igreja precisa ter força de ânimo (spiritus), coragem e confiante abandono à ação interior do Espírito Santo. Em outras palavras, precisa de espiritualidade, “ser íntimo àquele que é mais íntimo do que nossa intimidade” como dizia Santo Agostinho. Por isso mesmo que o bispo, antes de tudo, precisa alimentar uma espiritualidade eclesial. Essa diz respeito a uma qualidade que já aludimos em outro artigo que é a “comunhão” (ou sentimento colegial entre os bispos entre eles e eles com a comunidade de fieis). E tanto a colegialidade (como imagem da comunhão) e a própria comunhão nascem na Igreja e para a Igreja. E o bispo é para a Igreja. A Igreja chama de “espiritualidade de comunhão” (ou eclesial) pelo fato de que esta é uma familiar convivência do bispo com todos dos filhos de Deus em virtude do seu chamado a unir o rebanho ao redor de si e não afastá-lo de si. Quando Jesus proferiu o “Sermão da montanha”, ele sentou-se e “os seus discípulos aproximaram-se dele” (Mt 5, 1); isso mostra a essência dessa espiritualidade episcopal: o bispo está unido a todos os fieis e estes a ele no mistério de Cristo no Espírito Santo. A aproximação do bispo ao seu povo está para além de um sentimento humano, mas já se configura a uma espiritualidade no sentido mais genuíno do termo, ou seja, aquilo no qual ele se transformou é oceano vasto de mistério em que todos podem mergulhar. Essa “comunhão”, podemos assim afirmar, cria “comunidade”. E a comunidade pode ser entendida como toda a sua diocese, todos os fieis que estão nesse território confiado ao bispo. Dissemos acima que essa espiritualidade eclesial diz respeito à “doutrina”, e isso faz todo o sentido, pois nada mais é prezada na doutrina e nos ensinamentos eclesiais do que a união entre todos em virtude da graça, algo que aprendemos da intimidade de Jesus com o Pai quando rezou: “Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós” (Jô 17,21). Assim, nutrir uma espiritualidade eclesial faz do bispo um sinal forte de comunhão entre todos, sem rupturas, a ponto de ele mesmo nos dizer com voz forte como gritou o bispo Santo Inácio de Antioquia à comunidade dos magnésios: “Que não haja nada entre vós que vos possa dividir, mas uni-vos ao bispo como sinal e ensinamento de incorruptibilidade”.

Outra forma de espiritualidade do bispo é a “mariana”. Desde os primórdios da Igreja, a figura de Maria é destacada e venerada entre todos dos cristãos. Eram devotos de Maria, espiritualmente falando, desde as nossas origens. Reza a tradição que na oração mais antiga que se tem registro, direcionada à Virgem Maria, os já “marianos” suplicavam: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus! Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades…”. Se a Mãe de Jesus esteve presente em todas as etapas de sua vida e dos primeiros cristãos, por que não estaria presente na vida do bispo? A Igreja é sábia em incluir na vida espiritual do episcopado uma fonte de inspiração que tem a Mãe de Deus como guia em sua missão. O bispo São Francisco de Sales já escrevia em uma de suas obras: “Confio todos os meus serviços a Deus sob a proteção de sua Santíssima Mãe”. São João Paulo II exclamava: “Minha oração predileta é o Santo Rosário!”. Ensinando-nos, assim, o valor de Maria no crescimento espiritual dos que honram aquela que é “cheia de graça” (que rezamos em toda Ave Maria). De tudo isso podemos então perceber que a espiritualidade do bispo necessita da presença de Maria, da sua proteção, da sua luz, enfim, é uma espiritualidade com “perfil marial”. Há um vínculo indissolúvel entre Nossa Senhora e o sucessor legítimo dos apóstolos. Dissemos acima que o bispo tem uma configuração especial a Cristo pelo Espírito, e a Igreja nos ensina que “Maria apóia o bispo no seu esforço interior de conformação com Cristo e no seu serviço eclesial” (Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos). A expressão “esforço interior” nos chama muito a atenção pela razão de nos fazer pensar que não se tem uma espiritualidade fecunda sem que a Mãe de Deus esteja conosco e, de maneira particular, esteja presente e atuante na vida do bispo. Isso nos faz refletir também que, em Maria, o bispo tem inscrições abertas para se matricular e lugar garantido na “Escola de Maria”, pois ali ele aprenderá a melhor disciplina para o seu exercício ministerial eclesial: a santidade. E se é escola, e nunca um bispo deixa de aprender, Maria é Mestra que estará sempre lhe ensinando a contemplar os grandes mistérios da salvação e poder transmiti-la ao seu povo fidedignamente. De Maria o bispo poderá haurir virtudes magníficas como o silêncio interior, a obediência, a pobreza, a disponibilidade exclusiva do “Faça-se em mim”, a alegria do sofrimento por amor e, por seu “esforço interior”, ser modelo de oração e fidelidade para todos os fieis (como disse São Paulo a Timóteo). Alimentando-se da espiritualidade mariana em seu interior, o bispo se torna um mariano por excelência! Monsenhor Giovani Carlos Caldas Barroca não terá nenhuma dificuldade em ser um “modelo mariano” em nossa diocese, pois ela é totalmente dedicada ao “Imaculado Coração de Maria”. E, assim, em forma de súplica, os já “teus diocesanos” vem rezando faz algum tempo em suas paróquias em preparação à sua esperada posse: “Ó Maria, de Imaculado Coração… intercedei por nosso novo pastor eleito…”. O bispo que se confia à Maria Santíssima e à sua maternidade espiritual está sempre diante daquela que intercederá por ele e diz: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5). Isto é, “pede à Mãe que o Filho atende…”.

Por fim, a vida espiritual do bispo é também movida pela oração, que demos o nome de “espiritualidade orante”. Voltemos ao texto de São Paulo onde ele exorta a Timóteo: “Exercita-te na piedade”. E aqui queremos unir à oração aquele segundo fator importante na vida do bispo que é a “virtude” ou, como enfatizamos, “as virtudes próprias daquele que exercerá legítima e piedosamente o seu múnus (serviço)”. Veja que colocamos na mesma frase os termos “virtude” e “piedosamente” (mesma expressão usada por São Paulo: “piedade”). Antes, vamos compreender o que é a “virtude”. A palavra vem do grego (areté) e do latim (virtus) que quer dizer “prática”, “exercício” (como em São Paulo), “qualidade”, “excelência” (moral) e outros muitos significados. A prática da virtude é por sua natureza árdua e trabalhosa. Os místicos da Igreja sempre acreditaram que a virtude, efetivamente, mesmo que seja um caminho estreito, cheio de pedras pontiagudas que firam os pés (por causa da disciplina rigorosa que ela exige), torna feliz aquele que a pratica. E o valor do sacrifício que contém a virtude pode se tornar uma fonte extraordinária de espiritualidade para quem a “exercita piedosamente”. Eis aqui o elo que queremos fazer entre a oração e a virtude. Ou a oração como uma virtude que dê força para que o bispo cumpra a sua missão em uma diocese. Nesse sentido, já podemos entender que o bispo, orando, é um homem virtuoso; e quando é virtuoso, ele ora. Dentre muitas virtudes que o bispo deve ter (ou pelo menos virtuosamente buscará ter), destacamos apenas algumas: a fé, esperança e caridade (que chamamos de teologais); a caridade pastoral (é o amor pelo ofício ou pela missão confiada); prudência pastoral (é a arte do bom governo para a realização do plano divino da salvação e do bem das almas e de toda a Igreja); a fortaleza e a humildade; a obediência à vontade de Deus; o celibato e a perfeita continência; a pobreza; o exemplo de santidade; e outras virtudes que chamamos de “dotes humanos”: a sinceridade, compaixão, inteligência aberta ao conhecimento etc. Podemos nos perguntar diante de tantas virtudes que o bispo deveria ter: é possível sem a oração? Um conceito rápido de oração temos na tradição mística da Igreja que nos diz ser ela um “exercício espiritual” (ou seja, é uma virtude do espírito); ela é ainda “a predominância dos piedosos afetos pelos quais expressamos nosso amor a Deus” (ou seja, foi a virtude que São Paulo pediu a Timóteo); e ainda a oração é um “diálogo com Deus” (isto é, uma conversa íntima e habitual). Disso podemos responder à pergunta acima com toda a certeza: não é possível ser um bispo virtuoso sem a oração. Por isso mesmo que é uma espécie de “imperativo categórico” a espiritualidade orante na vida do bispo, pois sem a oração na há fecundidade espiritual, não há intensidade em sua vida de união com Deus, não terá luz, força e conforto em sua lida pastoral. Nos diz o próprio Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos: “A oração é para um bispo como o bastão a que se apóia na sua caminhada de cada dia”. E nada mais pesa na vida de qualquer homem de Deus, principalmente na vida do bispo, do que o cotidiano recheado de desafios e dificuldades de toda ordem. Por isso mesmo que a oração é essa força interior extraída dos seus exercícios espirituais, dos seus piedosos afetos e do seu demorado e frutuoso diálogo com Deus. Para cada situação grave em sua vida a resposta do bispo deve ser a sua oração diante de Deus, porque o sente ao seu lado e encontra nele refúgio, paz interior e sabedoria para cumprir o tríplice múnus de ensinar, santificar e governar (já falados no artigo anterior). A Igreja o admoesta sempre a não se esquecer que a maior forma de oração ou maneira de exercitar a sua “espiritualidade orante” é a Santa Missa, meditar a Liturgia das Horas, doar o seu tempo à adoração eucarística, rezar o Terço e colar à Sagrada Escritura a sua inteligência para compreendê-la, vivê-la e ensiná-la. Assim, o bispo encontra na oração um eficaz meio para alimentar a sua alma, exercitar-se nas virtudes e cumprir aquilo que São Paulo disse a Timóteo: “Exercita-te na piedade”, ou de outra forma, “exercita-te na oração”.

Portanto, ao chegar ao final desse artigo sobre a pergunta: Que tipo de espiritualidade tem que ter um bispo?, asseguramo-nos que ele não deve prescindir ou descuidar da sua comunhão com a Igreja, não deve jamais se esquecer de Nossa Senhora e ser assíduo na oração. O aperfeiçoamento dos fieis depende de um que esteja à altura desse chamado à perfeição que é o bispo, pois ele é mestre, promotor primeiro e exemplo de unidade em sua diocese. O bispo ao exercer a sua “paternidade” em uma diocese precisa necessariamente do auxílio materno de Nossa Senhora, sem ela a orfandade atinge não somente o pastor do rebanho, mas também o próprio rebanho. Que no coração do bispo tenha um espaço aberto e grande para os melhores afetos direcionados a Deus por meio de sua oração, pois daí brotarão virtudes excelentes que darão norte seguro ao seu povo e trará e fortificará a fidelidade à sua missão. Sem espiritualidade o bispo não suportará os desafios que lhe acobertarão quais ondas em mar bravio e agitado. E não é assim que se encontra o nosso mundo? A nossa sociedade atual não tem a característica de ser levada para todos os lados pelos ventos da secularização? A complexidade em todas as áreas da vida humana não encoraja o bispo a tomar alguma posição perante tal situação? E onde se encontra a figura do bispo nesse cenário? Todas essas perguntas nos projetam para a última pergunta dessas catequeses: Qual é o papel do bispo perante os desafios atuais sendo ele, além de um sujeito religioso, também um expoente moral da ordem social? Até o nosso último encontro.

Pe. Edvaldo Celestino de Melo

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Qual é a missão do bispo em uma diocese? https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/qual-e-a-missao-do-bispo-em-uma-diocese/ Fri, 14 Aug 2020 12:50:23 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=58908 No artigo anterior, apenas para fazer uma ligação entre o antes e o agora, falávamos sobre a identidade do bispo, ou seja, o fundamento da sua personalidade eclesial, da sua origem e constituição, pois a pergunta “Quem é o bispo?” nos remete necessariamente à outra: “O que ele faz ou qual é a sua missão?”. E nesse pequeno estudo catequético, tendo em vista a chegada de Monsenhor Giovani Carlos Caldas Barroca, bispo eleito de nossa Diocese de Uruaçu, queremos aprofundar nesse questionamento sobre o seu múnus (serviço) e missão nessa Igreja Particular.

Antes de falar sobre a missão do bispo e, para melhor contextualizarmos com o que aqui será exposto, acreditamos ser importante explicar, mesmo que sumariamente, o que a Igreja entende por uma “Diocese”, pois o novo bispo virá para exercer o seu ministério não em um lugar qualquer, mas assumirá uma responsabilidade eclesiástica dentro de um espaço particular que exigirá dele uma competência e diligência sem as quais o seu ministério episcopal não frutificaria, pois é mister que o bispo compreenda profundamente que, dentro do mistério da Igreja e da vocação a que foi chamado, a graça da consagração episcopal o colocou como mestre, sacerdote e pastor para guiar uma “porção do povo de Deus”. Em uma linguagem técnica, a origem da palavra “diocese” vem do grego (dioikésis) que significa “território”, indicando assim uma espécie de jurisdição administrativa sob a autoridade de um governador ou legislador. Assim, canonicamente falando, a “diocese” é entendida pela Igreja como uma unidade territorial administrada pelo bispo, ou seja, é um “bispado” ou sede episcopal. Nesse sentido, a diocese é a área geográfica mais importante dentro da organização territorial da Igreja Católica. Passando a um ponto de vista teológico, a “diocese é a porção do povo de Deus, que se confia aos cuidados pastorais de um bispo”; “cada bispo a quem se confia uma Igreja particular, pastoreia as suas ovelhas em nome do Senhor” (conforme o Decreto Conciliar Christus Dominus, sobre o múnus pastoral dos bispos na Igreja). Por isso que a Igreja Particular (diocese) e o seu bispo criam, juntos, uma legítima vida diocesana, manifestando, assim, a reciprocidade e a comunhão com toda a Igreja Católica (Universal). Após essa rápida explicação sobre o lugar onde o bispo exercerá o seu ofício, voltemos ao nosso tema.

Uma leitura atenta das Sagradas Escrituras, principalmente do ponto vista do envio dos apóstolos e, mais particularmente, no Evangelho de Mateus, capítulo 28 em seus versículos 18 a 20, podemos perceber nitidamente não somente a ordem de Cristo aos seus discípulos para saírem da pequena Galiléia aos limites do mundo, mas também a missão deixada pelo Ressuscitado que disse: “Fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-os a observar tudo o que vos mandei”. Além da missão de batizar em nome da Trindade que, como nos ensina a Igreja, é porta sacramental para uma graduação na santidade (vida na graça), nas virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e recepção dos demais sacramentos, o texto evangélico ainda ressalta dois verbos que nos chamam a atenção: “fazer” e “ensinar”. Por um lado, o “fazer” combina com a dimensão prática (e obediente) do apostolado, isto é, a atividade intrépida e ousada daqueles que foram instruídos antes mesmo de instruir os povos e as comunidades (At 1, 1-2). Em outras palavras, a atividade apostólica teve a sua razão de ser após o período de discipulado (a escola de vida junto ao Mestre Jesus), de ensino-aprendizagem por meio das palavras, atitudes, milagres, sinais, prescrições, exortações, enfim, todos os recursos humanos, didáticos (as parábolas, por exemplo) e espirituais utilizados por Jesus para que os discípulos pudessem compreender, assumir, transmitir e realizar em sua missão. Por outro lado, o “ensinar” faz menção àquela qualidade docente em que os apóstolos deveriam exercer com maestria e coragem, mas sempre auxiliados pelo Espírito Santo que, nas palavras de Jesus, “o Pai enviará em meu nome, e que irá ensinar-vos todas as cosias e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,26) para educar as nações em meio à missão evangelizadora. Nesse sentido, a tarefa missionária dos apóstolos se amplifica e ganha um novo significado formativo, pois se o “fazer” é um apostolado prático (ir por todo o mundo), o “ensinar” é um apostolado pedagógico (educar todo o mundo) que, nessas duas dimensões, estaria diluída a missão dos sucessores dos apóstolos, ou seja, os bispos. E juntamente ao aspecto formativo do “ensinar”, a Igreja discerniu, com o tempo, que a missão do bispo em uma diocese deveria ser também a de “santificar” e “governar”, estabelecendo o “tríplice múnus” ou a essência do seu encargo para a edificação do Corpo de Cristo (Ef 4,12).

Em que consiste então a missão (ou apostolado) do bispo em uma diocese? A resposta seria: ensinar, santificar e governar. Vejamos cada uma dessas tarefas pormenorizadamente. Mas, antes, diga-se de passagem, a essas três funções a Igreja dá o qualificativo de “dever”, indicando indubitavelmente que o bispo tem a obrigação de exercê-las em uma diocese, pois ele é o primeiro na ordem de ensinar (por ser mestre), na de santificar (por ter a plenitude do Espírito Santo) e governar (por ter sido revestido de tal poder).

Comecemos pelo múnus de ensinar. Educar alguém para as nobres coisas da vida já é uma grande missão. Imaginemos ensinar uma pessoa a respeito das “coisas do alto” (Cl 3,1). Por isso mesmo que o bispo é qualificado como “doutor autêntico da Igreja”, ou seja, o legítimo sucessor dos apóstolos deve ser também um legítimo evangelizador de seu povo, homem versado nas Sagradas Escrituras, conhecedor profundo da doutrina eclesial no tocante à fé e aos costumes, deve ter interesse irrefragável pelos estudos e uma verdadeira inclinação amorosa à sabedoria. Porém, na hierarquia dos valores do que deve ser ensinado aos fieis tem a primazia o “anúncio da Palavra de Deus”, pois foi o próprio Jesus quem disse: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15); e em outro lugar podemos ler no Evangelho de Lucas 9,6: “E, saindo eles, percorreram todas as aldeias anunciando o Evangelho”. E nesse anúncio está subentendida a virtude da coragem para enfrentar os desafios que impedem o crescimento da mensagem evangélica e, também, defender a Igreja em sua santa doutrina perante os erros (internos e externos) que a ameaçam. Um outro fator importante nesse múnus de ensinar é o que chamamos de “princípios morais da ordem social”, ou seja, o bispo tem autoridade para orientar a todos que estão na sociedade, pois as realidades concretas da vida humana fazem parte não somente de quem professa a fé católica, mas estão envolvidos de igual modo aqueles que não comungam dos mesmos princípios religiosos que nós. Assim, são de interesse essencial tanto para a Igreja quanto para todo o tecido social assuntos como o valor da vida, o significado da liberdade, a estabilidade da família (procriação e formação dos filhos), o bem comum, o trabalho, o desenvolvimento tecnológico e científico, o uso dos bens materiais, a convivência pacífica e a ordem política. E isso se justifica nas palavras emblemáticas de Santo Agostinho (detalhe: que também era bispo): “Um bom cristão também é um bom cidadão”. Em linhas gerais, o múnus de ensinar dá ao bispo a dupla honra de ser um “catequista” para o povo de Deus, e ser um “pontífice” (construtor de pontes) para ligar caminhos entre a Igreja e a sociedade. Se ensinar faz parte da sua missão, então seja a sua diocese uma grande escola de fé e que tenha um hábil mestre a ensiná-la.

É dever do bispo também santificar o povo confiado a ele. A santidade é um desejo de Deus para todos os homens e mulheres, como podemos ler no livro do Levíticos 19,2: “O Senhor falou a Moisés: fala a toda a comunidade dos israelitas e dize-lhes: sede santos, porque eu, o Senhor, sou santo”; em outro lugar na Bíblia podemos comprovar essa exigência divina nos lábios de São Pedro: “Antes, como é Santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo o seu proceder” (1Pd 1,15). O ministério da santificação de um povo deve, para o bispo, antes de tudo, começar pela própria busca da santidade. Deve ser ele o primeiro a celebrar diligentemente e com respeito a sagrada liturgia; nutrir uma genuína espiritualidade por meio da Palavra de Deus, os sacramentos e a caridade; fomentar em si mesmo a virtude de religião; testemunhar a fé; dedicar-se às formas de piedade (principalmente as de sua diocese); enfim, foi escolhido do meio dos homens e está constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados (conforme o Decreto Conciliar Christus Dominus, sobre o múnus pastoral dos bispos na Igreja). Essa função santificadora está unida essencialmente ao aspecto do culto divino (liturgia), pois constitui “a fonte e ápice da vida cristã” (segundo o Catecismo da Igreja). Assim, não é difícil entender que, sacramentalmente falando, a Eucaristia (ou o Santo Sacrifício da Missa) é o caminho indispensável para crescer na vida da graça e chegar à perfeição: “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Assim sendo, o bispo deve em sua diocese motivar constantemente o povo à vida espiritual e de santidade não somente por meio dos sacramentos, mas também tendo em vista a oração e a piedade popular; a leitura, estudo, meditação e prática da Palavra de Deus; o exercício da caridade; o conhecimento e crescimento nas virtudes; a devoção à Nossa Senhora etc. Diante disso, o bispo não deve poupar esforços em fomentar no seu povo o progresso na vida sobrenatural, no tocante a alcançar a santidade e a união mística com Deus, a participação nos mistérios de amor em que todos são convidados e, por fim, caminhar, mesmo em meio às estradas escorregadias de nossa humanidade, em direção à vontade de Deus. Portanto, se santificar faz parte de seu ministério, seja a sua diocese um lugar onde os fieis saibam contemplar a Deus e tenham, em seu pastor, um excelente diretor espiritual.

Além de ensinar e santificar, o bispo tem o encargo de governar a sua diocese. Expressões como “governar”, “governo”, “governador” nos lembram essas personalidades político-sociais que ocupam cargos públicos por meio de votos voluntários dentro de um regime institucional que damos o nome de “democracia”. Não se trata desse tipo de regência que, às mentes mais atentas, podem até demonstrar, pelas atitudes, uma certa contradição à tarefa que foram necessariamente escolhidos. À primeira vista poderia soar estranho um bispo “governar” uma diocese, pois o colocaria no mesmo nível dos que falamos acima, e foi Nosso Senhor quem nos fez saber a distinção dizendo que “os que são considerados chefes das nações, as dominam, e os seus grandes impõem sua autoridade” (Mc 10, 42). Seria preferível dizer que o bispo “administra” a diocese, ou “pastoreia” o seu rebanho, ou ainda “cuida como um pai” da sua família diocesana. Seriam termos mais brandos e animadores. Mas temos de saber que a Igreja é hierárquica em sua liderança e “superintendência” (só para lembrar o significado da palavra “bispo”). Assim, o governo de um bispo em uma diocese traz todos os elementos do que poderíamos entender sobre “administração”, “organização” e “liderança”, mas com a sutil diferença de que ele é um “servidor” do povo, ou seja, assume a postura de Cristo que disse ao seus discípulos: “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 43-45). Eis o sentido hierárquico de governo na Igreja (e em uma diocese): aquele que é o primeiro é, antes, o último; o que deve ser servido é, antes de todos, o que serve; o que é considerado maior é, na verdade, o menor. Nesse sentido, o governo de um bispo em uma diocese não equivale a uma tirania ou realeza, mas se configura como um verdadeiro pastoreio humilde à modo de Cristo, Bom Pastor. Ou seja, governar é o mesmo que cuidar, apascentar, ensinar, santificar, zelar, amar a sua diocese. E se for necessário “dar a vida em resgate” dela! Lembrando, assim, que na antiguidade o primeiro a liderar o seu exército nas batalhas era o que governava. Mas não podemos esquecer também que, em virtude do seu ofício que lhe foi confiado, “o bispo está investido de poder jurídico objetivo, destinado a exprimir em atos de poder pelos quais realiza o ministério de governo recebido no sacramento” (como diz a Exortação Apostólica Pastores Gregis de João Paulo II). Em outras palavras, os fieis se submetem a esse poder de governar com fé e humildade, pois ao bispo foi entregue essa jurisdição, esse encargo, essa missão. Há competências próprias de um bispo em uma diocese que somente ele pode começar e terminar, decidir ou atribuir, realizar ou não realizar conforme o seu justo e prudente juízo e discernimento tendo em vista, sempre, o bem de sua Igreja Particular. Vale recordar ainda que no governo de uma diocese o bispo possui a sua sede própria que chamamos de “Cúria diocesana” (são organismos e pessoas que colaboram com o bispo na direção pastoral, administrativa, econômica e judicial na/da diocese). Enfim, se em seu ministério está contido a arte de governar, seja o bispo um bom servidor e líder de seu povo e este seja um rebanho obediente e satisfeito com quem o governa.

Ao chegar ao fim desse artigo, gostaríamos apenas de voltar à pergunta inicial “Qual é a missão do bispo em uma diocese?” e saber que um povo educado, santo e bem governado é a excelência de qualquer bispo que deseje servir bem ao Senhor e à sua Igreja. Muitos outros detalhes dessa missão poderíamos aqui aprofundar, mas fugiria aos nossos objetivos. Porém, o que aqui foi mostrado pode nos dar uma boa fundamentação para conhecer melhor o serviço do bispo em uma diocese. Portanto, é importante termos a consciência de que não se trata de uma missão fácil, mas ao contrário, ela exige muito esforço, virtudes e espiritualidade por parte de quem é enviado como bispo a uma diocese. E pensando nisso, nosso próximo artigo falará exatamente disso e tentaremos responder à pergunta: “Que tipo de espiritualidade tem que ter um bispo?”. Até breve!

Pe. Edvaldo Celestino de Melo

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Quem é o bispo? https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/quem-e-o-bispo/ Fri, 07 Aug 2020 12:07:56 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=58897 Antes de tudo, uma pequena nota explicativa. Nossa dileta Diocese de Uruaçu, no dia 17 de junho desse ano, recebeu a excelente notícia (Boa Nova!), vinda dos lábios e autorização do Papa Francisco, da nomeação ao episcopado do Padre Giovani Carlos Caldas Barroca, cujo mesmo, a partir de setembro, virá para pastorear essa Igreja Particular. Por isso, nesse mês de agosto, dedicado inteiramente à meditação, reflexão e oração pelas vocações, queremos, como filhos e filhas desse Deus amoroso e misericordioso, render graças por nos ter atendido e enviado nosso próximo bispo, após mais de um ano de espera e cantando o refrão famoso: “Enviai, Senhor, muitos operários para a vossa messe…”. Enfim, nossas preces bateram às portas do Coração de Deus e Ele nos atendeu.

Voltemos ao nosso tema. O artigo começa com uma pergunta: “Quem é o bispo?”. Quem é que nunca teve a curiosidade de um dia, seja em casa, na família, na catequese, nos círculos de amigos em um grupo de oração ou em uma reunião de pastoral, ou mesmo dentro de um contexto litúrgico da Santa Missa de se fazer esse questionamento? É inevitável não querer saber quem é esse homem que usa uma espécie de “chapéu grande e bicudo” (mitra), como um dia me disse uma criança na catequese de primeira comunhão, e entra nas Igrejas segurando uma haste (que chamamos de báculo) em formato de cruz. Realmente nos chama a atenção esse homem que, numa celebração crismal, aparece em nossa paróquia e preside a celebração tecendo reflexões sobre os dons do Espírito Santo e exortando o povo a se lembrar de sua própria confirmação recebida em um dia parecido. Sem sombra de dúvidas, a figura do bispo prende a nossa mente no sentido em desejar saber quem ele é. Eis o objetivo desse artigo.

Perguntar “o que é” alguma coisa nos faz refletir sobre a sua natureza, a sua constituição, a sua origem. A palavra “bispo” se origina da língua grega (episkopos), e significa literalmente “superintendente”, ou seja, é aquele que supervisiona, administra, lidera. Nesse sentido, começamos a entender que o bispo em uma diocese é aquele que tem o encargo de organizar e administrar toda a Igreja (ou diocese) que lhe foi confiada. E essa organização e administração envolvem todo um universo de responsabilidades pastorais, espirituais, administrativas, econômicas etc.

A pergunta a respeito da constituição ou origem do “bispo” pode ser respondida trazendo elementos da catequese da Igreja sobre os fundamentos da nossa fé: a Bíblia, a Tradição e o Magistério.

Recorremos, primeiro, às Sagradas Escrituras para verificar sua constituição e o que de fato deve o bispo levar em consideração quando é chamado a exercer o seu ministério (serviço) episcopal. No Novo Testamento encontramos algumas passagens onde não somente o termo “bispo” está presente, mas também o seu significado e emprego. No livro dos Atos dos Apóstolos (At 20,28) os bispos são instruídos e exortados ao “cuidado” de si mesmos e do rebanho confiado, pois foram constituídos “pastores” pelo Espírito Santo e às custas do doloroso sacrifício de Cristo. Em outro lugar (1 Tm 3,2), o bispo é encarregado de um ministério de “vigilância”, isto é, nas palavras de São Paulo ele deve ser irreprovável, fiel, sóbrio, modesto, cortês, hospitaleiro, bom mestre, austero, amável, pacífico, desinteressado. Todas essas virtudes, segundo o texto sagrado, são dignas de crédito àquele que aspira ou é indicado ou nomeado a tão excelsa posição e missão na Igreja. Em outra parte (Fl 1,1), encontramos os bispos recebendo o tratamento de “consagrados”, isto é, são homens dedicados exclusivamente ao trabalho daquilo que é sagrado, santo e incorruptível, com a finalidade irrepreensível à “edificação do Corpo de Cristo” (Ef 4,12) que é a sua Igreja. Podemos ainda encontrar outras referências à origem do episcopado, suas funções, qualidades e distinções em relação aos “presbíteros” e “diáconos” em textos como Tt 1,7; Rm 12,8; 1 Ts 5,12; 1 Tm 5,17; Ef 4,11; e outros.

Não somente a Bíblia nos traz informações sobre a identidade dos bispos, mas de igual modo a grande Tradição da Igreja. E quando falamos de “tradição”, queremos enfatizar o sentido de “passar adiante”, “transmitir às futuras gerações” e, no tocante a esse artigo, a Igreja perpetua o significado e missão do “episcopado” no tempo. Um documento do primeiro século intitulado “Didaqué” (ensino) e o escritor eclesiástico Clemente de Alexandria já nos indicavam que o episcopado deve ser exercido de uma maneira “colegial”, ou seja, uno e indiviso na mesma fraternidade junto à Pedro (Papa), para realizar o mandato de Cristo de anunciar o Evangelho e de guiar pastoralmente a Igreja, a fim de que ela cresça em todo o mundo e, embora na diversidade de tempo e lugar (por isso católica e universal), dê continuidade à sua natureza de comunidade apostólica. Assim sendo, o episcopado não é um serviço individualizante, antissocial e em tons egoístas, mas se insere dentro de um “colégio” (como o grupo dos Doze Apóstolos), constituindo assim o chamado “afeto colegial ou colegialidade afetiva” (como diz a Exortação Apostólica Pastores Gregis de João Paulo II).

Um outro expoente importante da tradição é Inácio de Antioquia, e seus ensinamentos estão contidos em suas conhecidas “cartas” dirigidas às comunidades. Esse santo e mártir nos ensina, dentre muitas reflexões sobre a identidade do bispo, que a Igreja deve ter respeito, obediência e submissão a ele, pois, em suas próprias palavras, escreve: “nada deve ser pensado ou realizado sem o bispo”; “é preciso obedecer sem nenhuma hipocrisia”; “sei que o bispo, para servir à comunidade, não obteve o ministério por si mesmo, nem pelos homens, mas pelo amor de Deus e do Senhor Jesus Cristo”; e ainda uma de suas meditações mais belas sobre a figura do bispo é esta quando ele diz que “onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica”. Em suas palavras podemos vislumbrar a sua própria vida, pois também era bispo, liderava comunidades, exortava à unidade da Igreja, combatia as ideias contrárias à fé, tinha consciência de seu chamado e tarefa junto ao povo, e foi o primeiro a chamar a Igreja de “católica” tendo em vista a amplitude universal da salvação e a abrangência geográfica da Igreja em todo o mundo. Muitos outros grandes nomes da tradição eclesial poderiam entrar aqui nessa reflexão, mas estes referenciais acima nos ajudam a compreender melhor quem é o bispo e a sua identidade.

Quanto ao Magistério da Igreja, dentre as inúmeras bases teológicas da origem episcopal, ficaremos apenas com o seu “fundamento trinitário”. De maneira ligeira, mas compreensiva, o bispo é visto como uma imagem da Trindade, ou seja, ele é constituído “Pai” de uma comunidade, exerce a paternidade, a autoridade, a bondade, o amor e dispensador da vida em meio ao povo; por outro lado, é imagem do “Filho” no sentido que é pastor, esposo, mestre e pontífice da Igreja; finalmente, o bispo é imagem do “Espírito Santo”, pois possui a “plenitude do Espírito” que o habilita a confirmar os fieis no batismo e a testemunhar os dons recebidos em favor da Igreja.

Portanto, há ainda muitos detalhes a serem meticulosamente estudados sobre a identidade do bispo, no entanto, por se tratar de um artigo catequético e informativo para nossa formação, pudemos compreender um pouco mais sobre a figura do epíscopo, sua origem e constituição. A pergunta “Quem é o bispo?” não pode ser confundida com a pergunta “Quem é um bispo?”, pois, em nossa época, por causa da diversidade religiosa tão marcadamente presente e atuante e, também, pelo fato de as mesmas possuírem outras percepções teológicas sobre o termo “bispo”, tais denominações (ou comunidades) religiosas diferem-se essencial, doutrinal, pastoral e até biblicamente do que compreende a nossa Igreja Católica.

Em síntese, se Deus nos enviou, por meio de sua bondade e nossas orações, Monsenhor Giovani como bispo para nossa Diocese de Uruaçu, então já sabemos, por meio desse artigo, as origens de sua nomenclatura (“bispo”), mas ainda nos resta saber de sua vocação ou chamado (“O que ele vem fazer aqui?”), que será o tema de nosso próximo capítulo (ou artigo).

Pe. Edvaldo Celestino de Melo

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Pe. Edvaldo Celestino de Melo https://old.diocesedeuruacu.com.br/padres/diocesano/pe-edvaldo-celestino-de-melo/ Sun, 24 Jun 2018 01:51:22 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=54267

  • Função: Pároco e e membro do Colégio de Consultores
  • Paróquia: Nossa Senhora Aparecida
  • Cidade: Minaçu-GO
  • Nascimento: 23/06/1980
  • Ordenação: 03/07/2009
  • E-mail: edvaldocmelo@hotmail.com

 

 

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