Doutrina Social - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Sat, 28 Sep 2024 04:04:15 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Doutrina Social - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 Papa: civilizar o mercado na perspectiva de uma ética amiga do ser humano https://old.diocesedeuruacu.com.br/noticias/papa-civilizar-o-mercado-na-perspectiva-de-uma-etica-amiga-do-ser-humano/ Fri, 20 Oct 2017 13:00:24 +0000 http://teste.toqueto.com/papa-civilizar-o-mercado-na-perspectiva-de-uma-etica-amiga-do-ser-humano.html O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta sexta-feira (20/10), na Sala Clementina, no Vaticano, os membros da Pontifícia Academia das Ciências Sociais que participam de um encontro promovido pelo organismo.

Instituída por São João Paulo II, com o objetivo de promover o estudo e o progresso das ciências sociais, econômicas, políticas e jurídicas, e oferecer à Igreja elementos a serem usados no estudo e no desenvolvimento da doutrina social, a Academia tem também a tarefa de refletir sobre a aplicação dessa doutrina na sociedade atual.

“O aumento endêmico e sistêmico das desigualdades e da exploração do Planeta, e o trabalho que não dignifica a pessoa humana são as duas causas específicas que alimentam a exclusão e as periferias existenciais”, frisou o Papa em seu discurso.

“A desigualdade e a exploração não são uma fatalidade e nem uma constante histórica. Não são uma fatalidade porque dependem, além dos vários comportamentos individuais, das regras econômicas que uma sociedade se dá. O lucro prevalece como finalidade e a democracia se torna uma plutocracia na qual aumentam as desigualdades e também a exploração do Planeta.” 

Em relação à segunda causa de exclusão social, o Papa chamou a atenção para que no mundo do trabalho existam “pessoas abertas, empreendedoras, capazes de relações fraternas”, evidenciando uma necessidade fundamental: 

“Desvincular-se das pressões de lobistas públicos e privados que defendem interesses setoriais. Também é necessário superar as formas de preguiça espiritual. Ação política deve ser colocada a serviço da pessoa humana, do bem comum e do respeito pela natureza.”

“Valores fundamentais como a democracia, a justiça, a liberdade, a família e a criação” não podem ser sacrificadas no “altar da eficiência”. “Devemos mirar a civilização do mercado, na perspectiva de uma ética amiga do ser humano e seu ambiente.”

Segundo o Papa,  é preciso repensar a figura e o papel do Estado-nação no novo contexto da globalização:

“O Estado não pode conceber-se como único e exclusivo detentor do bem comum, não permitindo a corpos intermediários da sociedade civil de expressarem plenamente seu pleno potencial. Esta seria uma violação do princípio de subsidiariedade que, junto com o da solidariedade, forma uma coluna da doutrina social da Igreja. O desafio aqui é o de como vincular os direitos individuais ao bem comum”.

Enfim, o Papa citou as palavras do escritor francês Charles Péguy a propósito do papel específico da sociedade civil e da virtude da esperança: “Como uma irmã pequena está no meio das outras duas virtudes, fé e caridade, segurando-as pela mão e puxando-as para frente. Parece-me ser esta a posição da sociedade civil: puxar para frente o Estado e o mercado a fim de que repensem sua razão de ser e seu modo de agir.”

Por Rádio Vaticano

]]>
49114
A dimensão política da caridade, um grande desafio pastoral https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-dimensao-politica-da-caridade-um-grande-desafio-pastoral/ Thu, 28 Sep 2017 09:03:12 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=48726 No centro da vida cristã está a contemplação do rosto do Senhor a partir dos pobres e o empenho em favor do Reino de Deus contra toda forma de idolatria. Por isso, a especificidade do “ethos” cristão não está propriamente em seu conteúdo, pois todo cristão deve fazer o que fazem todos os homens de bem, mas na referência a Jesus de
Nazaré.

Partindo de sua vida, que foi sempre doação incondicional pelo Reino, Jesus quis deixar um sinal distintivo para os seus seguidores. Sendo assim, resumiu toda a Lei em um único mandamento, a “agape”, que seria então o diferencial para seus discípulos (cf. Jo 15,12-14). Esse “novo mandamento” caracterizaria a vida cristã e seria o sinal pelo qual seus seguidores seriam reconhecidos. Isso é muito importante, de tal modo que a Igreja não pode descurar-se desse  serviço, assim como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra.

Caridade: compromisso da fé

A palavra “caridade”, entendida univocamente como “amor”, traduz a expressão grega “agape”, associada na tradição latina a “carus” (= caro, importante, estimado), que por sua vez se relaciona com o vocábulo grego “charis”, graça, dom e foi traduzido por “caridade”. Outras duas expressões são utilizadas na língua grega para significar o amor: “eros” e “philia”, significando o amor sensitivo e de amizade, respectivamente.

A novidade que se expressa no Novo Testamento, significativa para a fé cristã, é a marginalização dessas duas expressões e a utilização da palavra “agape” para significar o amor cristão, a ponto da Eucaristia ser chamada pelo mesmo nome.

Para a vida cristã, a caridade é um compromisso. Ao longo dos séculos, a fé foi se reduzindo à profissão de um conteúdo ortodoxo e sua “prática” tomou contornos litúrgicos e jurídicos. Ser uma pessoa de fé implicava em professar um conjunto de verdades e praticar o culto correspondente. Sua dimensão de experiência foi diminuída, bem como sua incidência na vida concreta também o foi. As consequências desse empobrecimento se fizeram sentir no terreno da caridade, que passou a ser compreendida como “sentimento”, ou então como obras pontuais e extraordinárias.

A esmola e a caridade

Dessa maneira, contrariamente ao ensino clássico, a caridade foi se tornando sinônimo de esmola, desvinculada da prática da justiça. Essa mentalidade se prolongou na prática eclesial e inspirou as “obras assistenciais”, que procuravam mitigar os efeitos maléficos deixados pela injustiça estrutural. Isso levou à acusação, especialmente da parte do marxismo, no bojo da revolução industrial, de que a caridade cristã era um meio de manutenção do “status quo”, sem nenhuma incidência sócio-transformadora.

Um grande desafio pastoral é, por isso, recuperar a dimensão política da caridade. Dessa maneira, estaremos voltando à senda indicada pelo Senhor e trilhada pelas primeiras comunidades cristãs, porque a “agape” é uma exigência evangélica, um mandamento deixado pelo Mestre a seus discípulos (cfr. Jo 15,12.17).

Em vista disso, resgatar a dimensão macropolítica da caridade, acentuando sua necessária ligação com a prática da justiça social e a transformação das estruturas injustas, configura-se certamente como o grande desafio pastoral de nosso tempo e um dos pontos de intersecção entre a Fé e a Política, colocando a caridade como princípio articulador do compromisso político. Afinal, a política é uma forma exigente de se viver a caridade cristã (Octogesima Adveniens 46).

Por Padre Antonio Aparecido Alves via Canção Nova (Padre Antonio Aparecido Alves é Mestre em Ciências Sociais com especialização em Doutrina Social da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e Doutor em Teologia pela PUC-Rio. Professor na Faculdade Católica de São José dos Campos e Pároco na Paróquia São Benedito do Alto da Ponte em São José dos Campos (SP). Para conhecer mais sobre Doutrina Social visite o Blog: www.caminhosevidas.com.br)

]]>
48726
O cuidado com a Criação como obra de misericórdia https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-cuidado-com-a-criacao-como-obra-de-misericordia/ Fri, 04 Aug 2017 06:28:20 +0000 http://teste.toqueto.com/o-cuidado-com-a-criacao-como-obra-de-misericordia.html No ano passado fomos convidados a viver o Ano da Misericórdia. Como se sabe, o Papa Francisco teve uma experiência forte da misericórdia ainda jovem, quando, ao participar da Missa na festa de São Mateus, ouviu a narração da vocação deste apóstolo.

Ao ser eleito Bispo, em 1992, escolheu como lema episcopal uma expressão da homilia de São Beda sobre a vocação de Mateus que diz: “Misericordiando atque eligendo”, isto é, “com misericórdia o olhou e escolheu”, lema que continuou em seu brasão pontifício.

Em sua Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia Misericordiae Vultus (MV) o Santo Padre, citando Santo Tomás de Aquino, enfatiza que Deus é todo-poderoso no perdão e na misericórdia (MV 6) e é assim que se manifesta seu poder. A misericórdia é uma qualidade da onipotência de Deus.

 

Redescobrir as obras de misericórdia

Foi um vivo desejo do Papa Francisco que os cristãos redescobrissem as sete obras de misericórdia corporais e as sete obras espirituais, para despertar a consciência adormecida diante de dramáticas situações de pobreza (MV 15).

No entanto, no dia 1º de setembro de 2016, em sua Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, o Pontífice acrescentou uma oitava obra a cada um destes elencos: “cuidar da criação”, porque, segundo ele, todas as obras convergem para o cuidado com a vida.

Nas obras de misericórdia corporais, esse cuidado se manifesta com pequenos gestos de respeito ao meio ambiente; nas obras espirituais, manifesta-se como um louvor ao Criador por todas as suas obras. Assim como São João Paulo II, que acrescentou um mistério ao Rosário, para responder à fé do povo, o Papa Francisco o fez com relação às obras de misericórdia, acrescentando mais uma, para responder aos desafios de nosso tempo.

 

A fé sem obras é estéril

Assevera o Papa Francisco que a prática das obras de misericórdia permite a todos nós aferirmos se vivemos ou não como discípulos de Jesus (MV 15). Afinal de contas, não nos será perguntado pelo número de comunhões que fizemos, de terço que rezamos ou adorações de que participamos, porque precisamos disto tudo para praticar aquilo que é o mais importante: as obras de misericórdia.

Sem elas, tudo o mais ficará ritualismo vazio e estéril, que não servirá para nada, pois a fé, sem obras, é morta em si mesma (Tg 2,17). Como adverte o Papa, não poderemos escapar das palavras do Senhor em base às quais seremos julgados, a saber: Eu tive fome…tive sede…estava nu…estive doente ou preso…fui estrangeiro (MV 15).

Não basta, no entanto, a prática assistencialista destas obras. Com relação ao social, diz-se que os cristãos são ótimos enfermeiros, isto é, atendem às consequências, mas péssimos médicos, quer dizer, não eliminam as causas. Sem deixar de preocupar-se com as necessidades mais imediatas e com as situações de emergência representadas pelas obras de misericórdia corporais, é necessário ter um horizonte maior, que se preocupe com a transformação das estruturas geradoras da miséria e da fome.

Isto implica, segundo o Papa Francisco, em um compromisso, tanto para transformar uma economia geradora de morte, quanto para realizar pequenos gestos de solidariedade com os mais sofredores (EG 53;188).

Enfim, devemos fazer um encontro com o rosto misericordioso de Deus, revelado em Jesus Cristo, para sermos sinal da misericórdia no mundo. Como diz o Papa, “não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito /…/ e no cinismo que destrói” (MV 15). Afinal, somente os misericordiosos alcançarão misericórdia (Mt 5,7).

__________________________________

Padre Antonio Aparecido Alves é Mestre em Ciências Sociais com especialização em Doutrina Social da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e Doutor em Teologia pela PUC-Rio. Professor na Faculdade Católica de São José dos Campos e Pároco na Paróquia São Benedito do Alto da Ponte em São José dos Campos (SP).

]]>
47664