Dom José Alberto Moura - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Tue, 20 Mar 2018 07:52:50 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Dom José Alberto Moura - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 Bendito o que vem https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/bendito-o-que-vem/ Tue, 20 Mar 2018 07:52:50 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51322 A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém mostra o rei pobre que vem apresentar uma nova ordem social. O Rei não vem para governar de cima para baixo, ou seja, não vem impor fardo pesado de impostos, de comando do poder para massacrar e tirar o sono dos sem nada. Ele quer fazer um reino diferente, em que a pessoa humana é o maior tesouro, que deve ser respeitado. O Rei vai julgar e condenar os sem misericórdia com o semelhante. Quem tem mais deve servir mais. Os possuidores de fortunas têm grande responsabilidade em contribuir com a maioria empobrecida. O maior diante de Deus não é o que possui mais e sim quem dá mais de si pelo bem do semelhante!

Os ramos jogados à passagem do Rei não podem ter efeito de homenagem ao Rei se não forem para cada um  comprometer-se com a nova mentalidade de ajudar a implantar um reinado da justiça, do entendimento, da superação da violência, da solidariedade e da paz. Só deve louvar aquele que vem com o novo reinado e quem estiver disposto a se despir do egoísmo, da atitude de se julgar superior aos outros, de deixar de ostentar vaidade e falta de compromisso com a promoção do bem comum.

O Rei pobre oferece sua vida para implantar nova ordem social, em que cada um dá de si pela promoção de quem é deserdado da vida digna. O profeta lembra sobre sua atitude: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba” (Isaías 50, 6). A petulância de quem se julga com o direito de escarnecer do Rei sofredor mostra a insanidade do ser humano que judia dos pequenos, pensando que ficará impune sua atitude diante do julgamento de Deus. Essa atitude continua a se efetivar com os poderosos que não deixam os pobres se erguerem de sua vida segregada e injustiçada. Jesus continua a sofrer vexames em inúmeras pessoas que não são atendidas adequadamente em suas necessidades mais elementares. Assim não sobra dinheiro para o atendimento da saúde, da educação, da segurança, do transporte e tantas outras carências de grandes parcelas da população. A fome ainda grassa um quarto da população terrestre, enquanto o desperdício de alimento  se verifica.

As guerras matam muito no planeta; talvez não mais que no Brasil, onde mais de sessenta mil pessoas são assassinadas  por ano e mais de cinquenta mil morrem no trânsito! O Filho de Deus quer entrar no coração de quem trabalha para superar as agressões à vida. Ele é o Deus da vida e não da morte. Veio para dar vida. Seu reinado é o da vida. Ele morreu na cruz para dizer-nos que também nós devemos dar a nossa para a promoção do reinado da vida no planeta. Nós o aclamamos bendito porque não veio tirar nada do que é nosso e sim dar-nos a base de sustentação da vida, que é o amor. Este nos faz doar-nos para a promoção de quem mais precisa de suporte para ter vida digna e de sentido!

A aclamar o Filho de Deus como nosso Rei comprometemo-nos em implantar os valores de sua pessoa e se seus ensinamentos  em nossa convivência. Assim teremos mais promoção do bem comum. Implantaremos mais solidariedade. Conforme o lema da Campanha da Fraternidade, reconhecemos que “somos todos irmãos”.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

]]>
51322
Entregar a vida https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/entregar-a-vida/ Fri, 16 Mar 2018 09:37:43 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51302 Há quem entregue a vida por causas pequenas, como a roleta russa, o exagero do consumo de drogas, a pressa em chegar ao destino desobedecendo às leis de trânsito, a violência e outros. No entanto, dar a própria vida para salvar vidas é fazer-se grande por grandes causas. O exemplo absoluto do sacrifício extremado de si é a doação total de Cristo pela humanidade.

Nenhum ser humano é capaz de transpor o abismo de si em relação ao infinito divino. Ninguém tem o poder, mesmo algum fundador de religião, de dar a vida eterna feliz para alguém. Só Deus o tem. O filho dele mostra que a salvação da humanidade se encontra na doação de si pelo bem do semelhante. Baseados na pessoa e na palavra dele, aceitamos tal desafio. Daí se origina a salvação da humanidade. Teremos, então, mais solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade. É a recomposição da possibilidade de vida digna no planeta, tão querida por Deus. Ele é o Senhor da vida e nos ajuda a tê-la de modo realizador para todos. Basta sermos obedientes e imitarmos a doação total do Filho de Deus!

Nosso maior aliado na caminhada terrena é o próprio Criador. Além do dom da vida, Ele nos favorece com graças especiais, como a inteligência e outras capacidades para vivermos colocando tudo a serviço de todos. Quando não o fazemos, embora acumulemos recursos culturais e materiais, tornamo-nos egoístas e estragamos os meios que deveriam ser de benefício comum. Todo tipo de violência, como a doméstica, as sociais, o uso de cargos públicos e da política para o benefício escuso de minorias privilegiadas, faz-nos prejudicar a todos e a nós mesmos. Há quem realize danos aos outros e não percebe que a vida vale não para se ter mais do que os outros, mas para mostrar a grandeza de caráter de quem dá de si para beneficiar a todos. Ninguém vai levar nada para a vida eterna, a não ser a própria personalidade marcada pela bondade, justiça e amor ou, ao contrário, a marca de quem não viveu como gente humana!

Quem se condiciona positivamente para realizar na presente vida os ditames divinos, terá sua marca, conforme diz o profeta: “Imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração” (Jeremias 31,33).  O próprio  Jesus vai à nossa frente, indicando o que fazer da vida para ela ser frutífera e promotora do bem. Ele afirma ser necessário o grão de trigo ser enterrado e morrer para brotar e da vida nova (Cf. João 12,24). Assim, quem morre para si em vista de produzir o bem, dando vida aos outros, encontra o sentido para a existência e se realiza justamente em comunicar o amor que beneficia sempre o semelhante. Hoje, para superarmos a violência produzida pelo egoísmo, precisamos nos converter para a alteridade, em que se pensa mais no bem comum. Para isso, precisamos despertar a consciência de todos  para serem grandes no caráter e mais solidários com os que sofrem por causa do mau uso dos encargos pessoais e sociais!

Por Dom José Alberto Moura- Arcebispo de Montes Claros (MG)

]]>
51302
Serpente e Cruz https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/serpente-e-cruz/ Wed, 07 Mar 2018 15:19:40 +0000 http://teste.toqueto.com/serpente-e-cruz.html Na travessia do deserto para a terra prometida os judeus foram surpreendidos pela picada de serpentes. Eles recorreram a Moisés para superarem a morte devido ao veneno daqueles répteis. Deus mandou que se fizesse uma serpente de bronze hasteada ao alto. Quem olhasse para ela ficaria curado. Da mesma forma Jesus foi elevado ao alto da cruz e ali morreu. Na comparação da serpente e da morte do Filho de Deus vemos a superação da morte pela ação divina. No entanto, no caso da cobra, a vida física foi salva. Com Jesus se deu a libertação de abrangência total. Ele veio regenerar o ser humano de todas as gerações. Seu sacrifício foi redentor. Ele se deixou sacrificar para demonstrar que o amor não tem limites. É doação total. Nele nós temos a oblação da humanidade inteira aceita por Deus. Olhando-o, pendente da cruz, ou seja, aceitando suas coordenadas de amor, estamos salvos, pois, nossa vida, e a de toda a humanidade só tem sentido e salvação quando vivida na doação total do amor.

Na cruz de Jesus está o segredo da vida de doação. Assumida com a interajuda de uns com os outros, temos a chave da revelação do tesouro escondido dentro de nós para solucionarmos os problemas da caminhada. Ajudando a carregar o peso dos problemas e dificuldades  do semelhante encontramos a razão de ser de nosso relacionamento de irmãos e irmãs. Jesus mostra isso sobejamente. Sua vida, feito um de nós, foi somente doação, ajuda ao erguimento dos caídos em seus sofrimentos e dificuldades.

Esse período quaresmal desemboca na realidade da ressurreição do Senhor. Caminhando com Ele, imitando-o e realizando o que nos ensina, temos a certeza de que não caminhamos em vão com nossa solidariedade em relação a quem precisa de nossa ajuda. Afinal, nossas renúncias de conforto exagerado e a doação de nosso tempo para servirmos quem não tem nenhum apoio para viver dignamente, serão recompensadas já na terra e, um dia, plenamente na eternidade. Se continuarmos a viver como pagãos, só buscando nossos interesses, fazemos guerras,  injustiças , deterioração do meio ambiente e todo tipo de insanidade, com desvantagem para todos.

Superamos os venenos das serpentes dos ódios e da falta de amor, com o olhar cheio de esperança para aquele que se deixou crucificar para que também nós nos despojemos de toda maldade e todo o egoísmo. Superamos todo tipo de violência e injustiça.

O evangelista lembra:  “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto assim é necessário que o Filho do homem seja levantado” (João3,14). Todos os que nele colocarem fé alcançarão a vida plena. Nossa fé nele vem corroborada justamente na sua superação da morte, através da qual Ele nos prova suficientemente sua natureza divina. Ele nos mostra que somente somos divinizados quando vivemos de forma profundamente humana com o semelhante.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

]]>
51169
Cristão leigos https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/cristao-leigos/ Thu, 23 Nov 2017 10:34:52 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49527 Hoje se pensa muito no poder a partir de quem tem muito dinheiro, liderança e autoridade ou domínio sobre os outros, meios de comando e vida cômoda.  Jesus veio nos provar o contrário. O poder que transforma, tem autoridade, mais influência e dá condição de vida realizada e realizadora é o de quem ama e dá de si para que os outros tenham melhores condições de vida humanizada, mesmo à custa do sacrifício de si. A vida simples e comprometida com o bem do semelhante, a partir dos mais fragilizados, é a que faz reinar a justiça, a misericórdia e a solidariedade para o cuidado  com a  dignidade humana e do planeta. Aí reina Deus. Esta é a vocação de quem segue os passos de Cristo Rei.

Os leigos e as leigas são chamados a mostrar na prática o reinado do Filho de Deus em qualquer situação de vida na família, no trabalho, na comunicação, na economia, na política e em toda a convivência entre as pessoas. Sua vocação no seguimento a Cristo é a de mostrar e implantar o reino na prática de servir e não o de se servir dos outros para se engrandecer. Mostram que a justiça do reino de Deus é a que salva o ser humano e constrói realmente a vida de qualidade humana em que todos se sentem e vivem como irmãos. Não é grande quem usa o poder em benefício próprio, mas sim quem mostra o poder de promover o bem comum através da doação de si, da humildade, da singeleza de vida, da valorização da pessoa acima de coisas e instrumentos materiais, físicos e de qualquer outra natureza.

Na comunidade religiosa assumem sua posição de responsabilidade com a causa da evangelização, saindo da pura manutenção da fé para fazê-la atuante, com sua participação ativa em suas atividades. Não são membros puramente passivos e sim ajudantes da ação missionária de levar a boa-nova de Cristo aos outros, principalmente aos afastados e pouco evangelizados.  Na família atuam na interrelação das pessoas com a união do amor humano entrelaçado com o divino. Ajudam a iluminar o caminho da promoção da cidadania para a convivência social mais humanizada. Seus membros se formam na escola do amor para ajudar a sociedade a ser um convívio mais justo e solidário, a ponto de abraçarem a causa da promoção do bem comum.

Este ano dedicado aos leigos, que se inicia neste domingo da festa  de Cristo Rei, a Igreja quer fortalecer a vocação e missão desses cristãos na comunidade eclesial, na família e na sociedade, como sujeitos da caminhada humana. Assim, assumam com toda a pujança seu papel transformador do convívio social, sendo a luz de Cristo para todos. São cristãos de primeira classe. A partir do batismo são convocados a exercer sua missão de discípulos missionários de Cristo. No interno da comunidade eclesial promovem a comunhão, a partilha e o equilíbrio na convivência com seus pares, com os religiosos e o clero, fazendo verdadeira comunhão de vida e missão, tendo o respeito às funções e vocações diferenciadas.

Não fossem os leigas e as leigas a missão da família cristã e da Igreja não daria os frutos queridos por Cristo. Por causa dele, que reina através de quem O segue, os leigos atuam para a promoção da vida plena para todos.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, MG

]]>
49527
Lâmpada da fé https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/lampada-da-fe/ Thu, 09 Nov 2017 08:06:20 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49424 A pessoa sábia organiza a vida de modo tal a encaminhar tudo dentro de um projeto de ações progressivas para conquistar a felicidade maior possível. Mas só pensando em ter cada vez mais coisas materiais, cultura, saber intelectual, prestígio e fama não dá base para a plena realização. O que é passageiro sozinho não sustenta a felicidade do ser humano, que tem sede do infinito. Essa somente é saciada no encontro com o Criador. Santo Agostinho lembra que a pessoa humana se satisfaz só quando se encontra com Deus. Ele mesmo teve experiência disso.

Quem é sábio tudo faz para o encontro com o divino. É capaz até de deixar de lado o projeto de colocar a finalidade da vida no que é transitório para buscar o Absoluto. A matéria e tudo o mais que é passageiro são utilizados apenas como instrumento para o sábio unir-se ao Criador na caminhada terrena. Assim realiza sua vontade para a construção de um convívio justo e solidário. Tudo, então, se torna como um trampolim para o infinito divino.

A sabedoria de quem entra na dinâmica divina é como a fé que transforma a vida para ela ser uma verdadeira luz. A pessoa passa, então, a enxergar o caminho que leva à vida plenamente realizada. Mas a luz é apenas instrumento para a pessoa ver por onde seguir no caminho de sentido para a existência (Cf. Sabedoria 6,12-16). Todos queremos a felicidade ilimitada. Mas ela não acontece aqui na terra. Por isso, almejamos o infinito, que só é alcançado no caminho de quem pode dá-lo. Por isso, o próprio Filho de Deus vem nos apresentar a possibilidade de alcançá-lo. Isso só é possível  caminhando com ele. É desafiador, mas possível. Ele mesmo diz que o obtém quem for capaz de dar a própria vida no colocar-se a serviço do semelhante, fazendo do convívio humano uma verdadeira relação de fraternidade, justiça e misericórdia. Depois da vida terrena, cheia de solidariedade e promoção do bem comum, seremos ressuscitados para a vida imorredoura (Cf.1 Tessalonicenses 4,13-18).

No entanto, o seguimento a Cristo não é simples teoria ou empolgação momentânea. Exige prudência para não nos deixarmos conduzir sofregamente, sem atenção, compromisso, vigilância e perseverança. Não podemos ser preguiçosos e lentos para realizar o projeto de Deus a nosso respeito. Sem sacrifício, esforço e vontade contínua para praticar a justiça, o dever e colocar em prática as orientações divinas não chegamos ao objetivo da caminhada. No Evangelho Jesus narra a parábola do casamento e das moças. Algumas dessas são atentas e vigilantes. Preparam-se para participar da festa. Outras não. Essas não ficaram vigilantes e chegaram atrasadas, não tendo podido participar da festa (Cf. Mateus 25,1-13). Nós também, se não nos comprometermos e não estivermos continuamente ligados com o projeto de Deus, realizando o que Ele nos pede, não seremos recompensados por não sermos fiéis na prática do amor e da justiça. Não podemos exigir de Deus o que não merecemos por falta de esforço em colocarmos em prática o amor ao semelhante.

Nossa fé não é apenas feita de ritos e enunciado de amor. É prática do que Deus nos indica para alcançarmos a vida plena feliz. Podemos até errar na tentativa de acertar. Mas não podemos errar na falta de compromisso de tentar  praticar o amor que Deus nos pede.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

]]>
49424
Carne e Espírito https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/carne-e-espirito/ Mon, 10 Jul 2017 10:07:39 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=47312 Somos uma só pessoa, composta de algo material e imaterial. Não se trata de separar o corpo da alma, como sendo composições  separáveis. Nem a morte física os separa, pois, nossa pessoa não morre e sim se transforma com a ação de Deus, que nos faz deixar o corpo corruptível e assumir o corpo não corruptível, fazendo com que nossas pessoas sejam preservadas inteiras com a ressurreição (Cf. 1 Coríntios  15,42-49).

Nosso desafio, nesse tempo da peregrinação terrena, é o de vivermos como pessoas que sabem trilhar o caminho com o objetivo de realizar o projeto de Deus. Assim  toda a nossa personalidade se articula com suas qualidades para atingir o objetivo da conquista da felicidade plena. Esta só se consegue quando se caminha utilizando os próprios talentos para tornar o convívio com o semelhante e a natureza eficaz para se implantar a vida de sentido e realização para todos. Então vai se viver conforme o espírito, como diz Paulo: “Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Romanos 8, 13). Para isso, é preciso contar com a ação divina, que nos faz canalizar os impulsos instintivos da carne para um bem maior. Deste modo não seremos arrastados pelos desejos do corpo e sim conjugá-lo-emos para a realização do ideal de vida conforme o projeto divino.  Jesus o fez de forma exemplar. Por isso, Ele se torna nosso modelo de doação de si pelo bem da humanidade, não usufruindo de vantagens na ordem física e material. Ele mostra que o corpo deve se submeter aos ditames do ideal de se viver para se servir e amar, promovendo o bem de todos, mesmo com o sacrifício de si.

Quem se sujeita à lei do amor, com a ação do Espírito Santo,  humaniza-se e ajuda a humanizar a convivência com o próximo. A carne se sujeita ao espírito, regido por Deus.

O apóstolo Paulo fala enfaticamente: “Vivam segundo o Espírito, e assim não farão mais o que os instintos egoístas desejam” (Gálatas 5,16). Ele especifica, em seguida,  o que realiza ações próprias do egoísmo, como: a fornicação, a libertinagem, a idolatria, as rivalidades, a inveja, as orgias, a bebedeira e outros. Ao contrário, quem vive segundo o Espírito pratica o amor, a paciência, a bondade, a fé, o domínio de si… É próprio de quem vive como pessoa íntegra unir, na própria personalidade, o que é inerente à natureza com seus instintos e o impulso para assumir a própria espiritualidade e imaterialidade. O espiritual une o instinto e o impulso para o transcendente, de modo a fazer com que a vida seja uma busca constante do bem natural unido ao sobrenatural. Corpo e alma trabalham intrinsecamente unidos de forma a não fazer o primeiro  afundar-se no puro animal e sim torná-lo amoldado ao que realiza a pessoa humana, marcada pelo amor divino.

Quem vive conforme o projeto de Deus assume a fé sobrenatural que o leva a confiar plenamente nele e sabe assumir também os limites e sacrifícios da vida com inteira confiança no que Jesus ensina: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mateus 11,28). De fato, quem se deixa conduzir pelo Espírito de Deus nada teme, sabendo que Ele o ajuda a vencer na vida e conquistar a própria realização, com o resultado de ter feito o melhor de  si e andar pelo caminho que conduz à maior ideal de vida.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, MG

]]>
47312
Superar o medo https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/superar-o-medo/ Mon, 26 Jun 2017 09:07:18 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=46969 Muitas vezes temos que assumir falhas e enfrentar dificuldades em várias circunstâncias da vida e por vários motivos. Isso nos traz sensação de insegurança. Ficamos perplexos e até não sabemos o que fazer. Há quem fuja de tomar decisão, compromisso ou responder a convites ou mesmo responsabilizar-se por atitudes ou falhas, partindo para válvulas de escape. Surgem daí atitudes irresponsáveis, não se assumindo obrigações de ofício ou responsabilidades devidas, como o pagamento de dívidas e outras vicissitudes.

A precaução e a defesa pessoal são próprias de quem se coloca em proteção de sua pessoa. Mas, a defesa pessoal deve ser proporcional aos valores vivenciados da ética e da responsabilidade moral perante os fatos e até os delitos, mesmo não sendo dolosos. A melhor forma de defesa é a que promove a verdade e a honra pessoal, que não pode estar sediada na falsidade. Mesmo com o receio da punição, quem tem altivez moral supera o medo e mostra a grandeza de caráter, sabendo rever-se para melhorar a própria conduta, com a humildade de assumir o passado com vontade de acertar melhor o próprio comportamento. Então se  convive com mais dignidade em relação aos outros. Trabalhar para diminuir a pena em relação aos erros não significa falsear a verdade dos mesmos. Até a ação advocatícia não pode ser a de inocentar quem é delituoso e sim de  proteger seus direitos e diminuir sua  pena dentro da ética e da lei.

Quem não teme nem falseia a verdade supera o medo do castigo com a atitude e coerência de se apresentar como pessoa de bem e de convivência na honestidade. A falta de penalização promove a delituosidade de modo progressivo. A correção da pena é pedagógica e necessária, mesmo para pequenos delitos.

Apesar de o medo ser próprio de quem vive o fator emocional humano, a fé ajuda até o equilíbrio emocional diante de fatores de risco e insegurança. O profeta Jeremias lembra que os perseguidores enganosos não terão vez diante de Deus, que “salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus” (Jeremias20,13). Mesmo se o ser humano não tem misericórdia, Deus, no entanto, mostra porque veio, assumindo nossa natureza humana, justamente para nos dar vida nova. Mesmo nas maiores falhas Ele mostra a necessidade de mudança. Basta assumirmos nossos erros, querendo colocar todo o esforço para superá-los. Assim Ele está disposto a nos perdoar. A parábola do filho pródigo é de grande ensinamento sobre isso.

O maior medo que devemos ter é o de quem  possa nos roubar o que nos leva ao objetivo maior da vida, que é a da salvação eterna. Mas a vida presente é muito importante para isso. Se quisermos misericórdia, temos também de ser misericordiosos e lutarmos para superar todo mecanismo de morte e agressão à vida. Quando damos de nós pela promoção da vida na convivência humana e com a natureza, superamos qualquer medo, pois ninguém vai nos roubar ou impedir a vida de doação, que é base para a consecução da vida eterna prometida por Aquele que ressuscitou dentro os mortos!

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo de Montes Claros (MG)

]]>
46969
Sair do túmulo https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/sair-do-tumulo/ Sun, 16 Apr 2017 09:41:47 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=45487 É próprio de cada criatura viva preservar-se e defender-se de tudo o que a tente levar para a sepultura. No entanto, os mecanismos de morte acontecem se cada um de nós não trabalhar para a preservação da vida de todos. O solo terrestre, com tudo o que ele tem em baixo ou em cima da superfície, está sendo ameaçado, arruinado ou destruído. Não vale o “só cada um por si”! Enquanto todos não estiverem dispostos a se ajudarem para a superação da destruição e não tiverem o cuidado com a vida de cada um (solo, minas d’água, biomas, vegetação, animais e seres humanos), todos são prejudicados.

Jesus deu-se totalmente pela causa abraçada de mudar o rumo da história do planeta e do ser humano. Não reservou sequer a última gota d’agua e do sangue jorrados do alto da cruz. Mostrou o que devemos fazer para preservar e desenvolver a vida na terra. Sua ressurreição nos garante a certeza de que não seguimos simplesmente um fundador de religião humano a mais. Entregou a vida na natureza humana, mas a ressuscitou porque tem também a natureza divina. Com Ele somos capazes de também dar de nós pelo bem da natureza e da vida humana. Mesmo que tenhamos infelizmente caído no “sepulcro” de nossos egoísmos, injustiças, degradação da terra e das relações com o semelhante, há esperança de ressurreição. Podemos e devemos mudar a mentalidade da ganância, da busca do ter a todo custo,  da concentração das riquezas nas mãos de poucos e consequentes injustiças sociais, da monocultura em diversas regiões, da destruição de grande parte das matas ciliares, das mineradoras que destroem e poluem, da falta de políticas públicas que não levam em conta a preservação do meio ambiente e a promoção de benefícios sociais principalmente às classes mais prejudicadas…

A solidariedade é uma das virtudes que marcam a vida de quem comunga com a Páscoa de Jesus. É possível corrigir a corrupção que domina negativamente boa parte da política. Esta deve ressuscitar para a vida nova de serviço ao povo e não de busca desenfreada de benefícios para si e poucos, através da prática do ilícito em prejuízo para o povo. Ele é o mandatário e não deve ser o escravo, sendo sepultado em sua dignidade.

Precisamos muito de testemunhas qualificadas, como os Apóstolos de Jesus, para anunciar e garantir a todos que Ele ressuscitou. Quem quer viver com Ele a própria ressurreição, deve aceitar a missão de dar de si para a ressurreição das inter-relações humanas promotoras de vida de sentido e dignidade a todos. Como é importante fazer a Páscoa de Jesus acontecer para todos! Nosso esforço de promover a vida nos deve defendê-la desde a concepção até sua morte natural. O aborto e todos os mecanismos de morte devem ser abolidos de nossa sociedade. Leis que os favoreçam devem ser rechaçadas por todos!

Pedro e João, avisados por Maria Madalena que Jesus não estava mais no túmulo, foram correndo para ver a sepultura e constataram que, de fato, o corpo do Mestre lá não estava mais. Eles acreditaram na ressurreição do Senhor (Cf. João 20,1-9), que apareceu depois a eles e aos demais discípulos.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo de Montes Claros (MG)

]]>
45487
Subir a montanha https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/subir-a-montanha/ Thu, 09 Mar 2017 08:48:12 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=44785 Abraão foi obediente a Deus e saiu de sua terra para ir a um lugar novo e distante. Desinstalou-se para cumprir missão importante, não só para estar em nova terra, mas para aí começar a instituir um novo povo, do qual nasceria o Salvador (Cf. Gênesis 12,11-4). Todo ser humano recebe também a missão divina de utilizar sua caminhada para fazer de seu contexto ambiental a produção de vida de sentido. Para isso, toda pessoa é instada a se desinstalar de seu egocentrismo para sair em busca de boa convivência com o semelhante e a natureza. Assim vai criar ambiente de promoção do bem de todos, respeitando os valores dos mesmos, até à custa de dar de si pelo bem comum.

A caminhada existencial é como um subir a montanha de um ideal de uso e conquista de valores que dignificam o ser de cada um. Vislumbra-se, então, uma meta a ser conquistada. Marcam-se os passos com o bem produzido, como o cuidado com a natureza e o cultivo das virtudes humanas.

Jesus convidou três discípulos para subirem a montanha com Ele. Aí se transfigurou, deixando-os perplexos, por verem o esplendor do Mestre, bem como Moisés e Elias falando com Ele (Cf. Mateus 17,1-9). A importância de fazer da vida uma subida da montanha com Cristo é focalizada na quaresma, em que nos preparamos para celebrar também a subida da sepultura de Cristo, que ressuscitou dos mortos. A Páscoa de Jesus é vivenciada em nosso batismo, quando subimos do mergulho da água para termos a vida nova do amor ou da graça de Deus. Na celebração da Eucaristia, fazemos justamente a revivescência da ressurreição de Cristo, aplicando para nós, aqui e agora, o que Ele fez na cruz e no voltar à vida, salvando-nos. Mas, de nossa parte, é preciso aceitar o desafio de querer também fazer o mesmo processo em nós, mesmo tendo que experimentar a cruz, o sacrifício e a renúncia ao egoísmo. Subimos a montanha que nos dá o esplendor da vida nova de ressuscitados com e como o Cristo.

A quaresma nos propicia a aceitar o desafio de Jesus, o de irmos com Ele para a conquista do ideal de vida de sentido. Assim, usamos de todo o nosso potencial para promovermos a vida do planeta, como imagem e semelhança de Deus, que cria e promove a vida para tudo e para todos. Saindo de nosso egoísmo subimos ao patamar do amor de Deus para o levarmos ao semelhante, na vida familiar harmoniosa e na convivência social.  Colaboramos com a promoção da vida e dignidade de todos, na cooperação com a política de real serviço ao bem comum.

Na prática do Evangelho somos estimulados a sair de nós mesmos, como diz o Papa Francisco, para sermos pessoas e Igreja “em saída” e vivermos como missionários que levam a Boa-nova de Jesus aos outros e promovem a vida plena para todos!

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, MG

]]>
44785
Justiça do Reino https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/justica-do-reino/ Thu, 09 Feb 2017 08:27:19 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=44296 No íntimo do ser humano há tendências para a prática do bem ou do mal. A noção do bem, solidificada com a vontade de se pautar por um caminho de busca de um ideal pautado por valores éticos, morais e religiosos, leva a pessoa a alcançar sua realização humana na busca e conquista deste ideal elevado. Ao contrário, se ela se deixar levar por saciar os desejos instintivos desenfreados e opostos àqueles da boa consciência, sua realização e felicidade se tornam efêmeras e de um vazio existencial. A felicidade do ser humano não tem consistência duradoura se não se basear no fundamento da justiça, que traz o equilíbrio da vontade humana pautada pela divina.

Deus não nos criou para a infelicidade, mas nos deixa a liberdade para optarmos ou não em realizar seu projeto de vida para nós. A consciência reta, formada na valorização da ética natural e na vivência dos valores apresentados pelo Criador, já inerentes à natureza e plenificado pela revelação do seu Filho vindo até nós de modo humano, leva-nos a praticar a justiça do Reino. Esta nos impulsiona a vivermos na retribuição do amor de Deus, que nos dá gratuitamente o dom da vida. Se desfizermos dessa justiça, desfazemos nossa realização humana. Pervertemos a consciência da retidão moral. Erramos,  injustiçamos  a nós mesmos, o semelhante, a família, o desenvolvimento de toda a ordem e não usamos nossos recursos para a promoção da vida, da dignidade humana e da justiça social. A Bíblia nos ensina: “Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir… (Deus) não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar” (Eclesiástico 15, 18.21).

Se todos ouvissem a proposta divina, já percebida na consciência bem formada e na revelação de Cristo, seríamos mais solidários, justos, compassivos e altruístas. Superaríamos a concentração de recursos exagerados nas mãos de poucos para promovermos mais justiça na terra. Seriam banidas a fome, as armas e as guerras. A formação com famílias melhor estruturadas e assistidas, a educação de melhor qualidade, a saúde melhor encaminhada e a segurança mais estruturada, todo tipo de benefício social seria mais democratizado. Aconteceria, de fato, a inclusão social mais justa e a cidadania haveria de modo extensivo a todos. Deus quer o bem de todos, mas respeita nossa vontade e ação para usarmos a inteligência e todos os recursos que Ele nos dá para fazermos nossa parte. Assim, faríamos deste planeta um lugar de verdadeira justiça em que reinem o amor e a fraternidade. Para isso, precisamos da sabedoria que não provém simplesmente de nossas capacidades humanas e sim da sabedoria de Deus, como lembra o apóstolo Paulo (Cf. 1 Coríntios 2,6-10).

A sabedoria divina nos é dada para sabermos obedecer ao Criador, na prática da justiça e da caridade. Quem as praticar e assim ensinar aos outros “será considerado grande no reino dos céus” (Mateus 5,19). Não se trata simplesmente de um ensinamento religioso, mas também autenticamente humano. Hoje precisamos demais de promover o que realmente nos humaniza, com o exercício das virtudes do altruísmo e da promoção do respeito à dignidade humana. Assim colaboramos com o bem comum e nos tornamos felizes porque damos de nós pelo bem do semelhante e de toda a sociedade. Afinal, marcamos presença de qualidade aqui na terra e nos realizamos porque usamos dos dons de Deus para amar e servir, mesmo à custa de nos sacrificarmos pela promoção da justiça humana permeada com a divina.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo de Montes Claros (MG)

]]>
44296