Dom Caetano Ferrari - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Fri, 09 Mar 2018 09:14:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Dom Caetano Ferrari - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 A Paz só pode acontecer em Deus https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-paz-so-pode-acontecer-em-deus/ Fri, 09 Mar 2018 09:14:51 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51185 A palavra forte da Quaresma é “conversão”. Vem de Jesus que disse: “Convertei-vos e crede do Evangelho” (Mc 1,15). Para acolhermos o Reino de Deus e a vida nova trazida por Jesus é absolutamente necessária a conversão com a mudança de vida. O Evangelho da santa Missa deste quarto domingo da Quaresma – Jo 3, 14-21 – é uma exposição clara de que diante Jesus Cristo morto e ressuscitado ninguém pode ficar indiferente, a conversão de vida é a opção mais correta como consequência da fé em Deus e da acolhida do dom de Deus que é o próprio Cristo. Esta provocação Jesus a fez a Nicodemos, “chefe dos judeus”. De que lado ele está? Confrontado com Cristo, ele não poderá se esquivar de decidir.

O Evangelho apresenta o final da conversa de Jesus com Nicodemos. Jesus está lhe dizendo: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”. O Filho do homem é identificado com Jesus Cristo. Que Ele seja levantado significa ao mesmo tempo a sua elevação na cruz e a sua exaltação na glória da ressurreição. João se serve destes termos de sentido cristão que a comunidade cristã usava na liturgia e na catequese, embora Nicodemos não os entendesse facilmente. No entanto, João prossegue contando que Jesus explicava a Nicodemos que “Deus amou tanto o mundo (os homens e mulheres), que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nEle crer, mas tenha a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo (aos homens e mulheres) para condená-los, mas para que todos sejam salvos por Ele. Quem nEle crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. Jesus argumentava desta forma e com estas palavras para desafiar Nicodemos a lançar os olhos da fé no Filho do homem quando fosse elevado na cruz e glorificado na ressurreição. E, assim sendo, motivá-lo a firmar convicção pessoal de que a elevação de Cristo na cruz é a mesma coisa que o dom do amor que Deus deu, ou seja, o seu Filho único que, também por amor, dará a sua vida para a salvação da humanidade. Seja por uma ou por outra a razão, doravante, necessária e indispensável será a fé em Jesus. Quem acreditar no Filho unigênito não será condenado, mas terá a vida eterna, pois Ele não será elevado para condenar ninguém, mas para salvar a todos que nEle crerem. A vida eterna não é a que começa depois da morte, mas é a vida divina ou a vida de Deus mesmo, a qual começa aqui e agora pela fé em Jesus Cristo.

Conclusão: A vida divina em nós, que é a vida de Deus, só pode acontecer em nós pela nossa vida de fé em Deus e de nossa acolhida ao dom de Deus dado por amor, que é o seu Filho unigênito, o qual também por amor deu a sua vida por nós. Em breves palavras, a vida divina vem a nós por intermédio da nossa fé em Deus e em Jesus Cristo, o seu Filho unigênito. Outra conclusão: Sem a vida divina em cada um de nós, jamais haverá a paz em nós, nos outros e no mundo.

Então, tudo começa com a acolhida da vida de Deus em nós, que é graça, presente de Deus. Como propõe a Campanha da Fraternidade a superação da violência e a construção da paz só começam pela conversão pessoal, com o nosso propósito firme e corajoso de lançar os olhos da fé em Cristo elevado na cruz e exaltado na ressurreição. Mais do que professar a fé numa verdade, no entanto, é importante que vivamos de acordo com esta verdade. E a verdade é esta: Aderir a Jesus pela fé, segui-Lo e imitá-Lo pela vida afora. Como dizem os teólogos, mais do que uma ortodoxia formal (doutrina pura) a fé é uma ortopráxis, é um agir segundo a verdade (cf. Jo 3,21; 1Jo 1,6-7).

Ao encerrar o diálogo com Nicodemos, Jesus lhe dizia que a vinda do Filho do homem e a sua exaltação na cruz são um julgamento para o mundo. No confronto com Ele, o mundo se divide entre os que aceitam a sua luz e os que a rejeitam. “Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus”, arrematou Jesus. Os que rejeitam a luz são condenados por sua própria opção, pois sabem que as suas obras não condizem com a verdade da fé em Deus e têm ódio de ver a sua vida de pecados exposta nesta luz. Neste ódio que os consome, por conseguinte, se condenam a si mesmos. Não é Cristo quem os condena, pois Ele não veio nem foi elevado na cruz para condenar ninguém, mas para salvar a todos, bastando que nEle creiam. Os que expõem a sua vida com as suas obras à luz de Deus, mostrando a boa vontade que tiveram e têm de viver conforme a vontade de Deus, entram desde já na comunhão da vida divina, ou seja, da vida em Deus mesmo. Esta é a verdade: Jesus Cristo ama e perdoa quem fez o mal, bate no peito e pede perdão. O Senhor é piedade e retidão, amor e verdade, justiça e misericórdia.

Unidos à Igreja, oremos em comunhão com as intenções da Campanha da Fraternidade, cujo tema é “Fraternidade e superação da violência”: Ó Pai, ensina-nos a ser vossos filhos e irmãos uns dos outros, como o é Jesus, o vosso Filho estimado e o nosso Irmão amado, que nos disse: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Derrama sobre nós o vosso Espírito Santo que nos converta e nos faça construtores de uma sociedade justa e sem violência. Amém.

Por Dom Caetano Ferrari – Diocese de Bauru

]]>
51185
Onde Deus mora? https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/onde-deus-mora/ Thu, 01 Mar 2018 15:49:58 +0000 http://teste.toqueto.com/onde-deus-mora.html No Evangelho da santa Missa deste terceiro domingo da Quaresma – Jo 2, 13-25 – São João relata a cena da ida de Jesus ao Templo, em Jerusalém, quando estava próxima a Páscoa, e de como Ele, vendo o comércio que ali se realizava, com vendedores de bois, ovelhas e pombas e cambistas, fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, com ovelhas e bois, e derrubou as mesas dos cambistas. E destaca o esconjuro de Jesus: “Tirai tudo isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”. A seguir, narrando a discussão de Jesus com os judeus, João põe em evidência a novidade dos tempos novos depois da vinda do Messias, o que Jesus pronunciou como sendo a base bíblica e teológica desta novidade. “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”, foi a resposta que Jesus deu aos judeus ao pedido do sinal de sua autoridade para agir assim. Naturalmente os judeus não entenderam a resposta, viram-na como um absurdo, pois eles lembraram que a construção do templo tinha levado 46 anos. Os discípulos só foram entender que Jesus se referia ao templo do seu corpo mais tarde depois de sua morte e ressurreição ao terceiro dia. Todos os exegetas afirmam que a ideia central do Evangelho de João, trabalhada por ele ao longo dos capítulos 1,19 a 4,54, visa demonstrar que os discípulos, inclusive Nicodemos e a Samaritana, tiveram as suas mais profundas aspirações de alma realizadas quando se encontraram com Jesus, o Messias, o revelador do Pai, e o aceitaram como o novo lugar de adoração do Pai “em espírito e em verdade” (Jo 4,22). Por isso, João, no início do seu Evangelho, diz que a glória de Deus, que antigamente se revelava somente no templo ou tabernáculo, em Jerusalém, agora a contemplamos em Jesus Cristo (cf. Jo 1,14).

Se Jesus é o lugar onde Deus mora, então Ele é o ponto de encontro com Deus. Não foi à toa que em outra oportunidade Ele assim se expressou: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Lemos em Apocalipse 14,6 que Jesus é o Evangelho ou a Boa Nova eterna anunciada a toda terra”, e em Hebreus 13,8-9 que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; Ele o será para sempre! Portanto, não vos deixeis extraviar por doutrinas ecléticas e estranhas”.  O Papa Francisco, na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho), inicia a sua mensagem afirmando que a alegria do Evangelho brota do encontro com Jesus. O encontro com Jesus provoca libertação de tudo o que é ruim, pecado, tristeza, vazio interior, isolamento, e faz renascer uma alegria sem cessar (EG, 1). E o Papa faz um incisivo convite: “Todos os cristãos, em qualquer lugar e situação que se encontrem, estão convidados a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de deixar encontrar por Ele, de procurá-Lo dia a dia, sem cessar” (EG, 3). Igualmente o documento de Aparecida, do Episcopado Latino-Americano, explica que, segundo a doutrina do discipulado, os cristãos precisam reavivar o encontro com Jesus. Diz que o que marca o discipulado é o encontro vivo, persuasivo e decisivo com Jesus (DAp, 290). E faz uma importante declaração que é ao mesmo tempo um imperativo categórico de comportamento missionário para todo discípulo com espírito: Jesus precisa ser encontrado, seguido, amado, adorado, para ser anunciado e comunicado (cf. 14). Pois o verdadeiro discipulado leva à missão que consiste, basicamente, em compartilhar com os outros a experiência do encontro com Jesus (cf. 287). O discípulo fascinado por Jesus não tem como calar a sua voz.

Se Jesus é o novo lugar do encontro com Deus, por que vamos à Igreja? Ora, exatamente para nos encontrar com Deus, porque é a casa da oração, segundo disse Jesus que não deve ser convertida em casa de negócios.  Vamos encontrar com Jesus, que nos leva ao Pai e nos dá o Espírito Santo. Por isso, não é correto que pessoas ao entrar na Igreja não vão, em primeiro lugar, lá na Capela do Santíssimo Sacramento da presença real de Jesus na Eucaristia. Lembro-me do modelo exemplar de Francisco de Assis que, inclusive, deixou uma belíssima oração. Pois toda vez que entrava em alguma Igreja, primeiro, ele se prostrava diante de Jesus no Sacrário e se não houvesse, então, diante do crucificado, e assim rezava: “Eu vos adoro santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas Igrejas que estão no mundo inteiro, e vos bendigo porque por vossa santa cruz remistes o mundo”. E, depois, a alma de Francisco se levantava às alturas e louvava a Deus com o Cântico das criaturas, a Nossa Senhora com orações e afetos especiais, pois tinha um amor indizível à Mãe de Jesus, aos Anjos e Arcanjos aos quais tinha profunda devoção. Incendiado pelo fogo do amor de Deus, Francisco saía da Igreja e não cansava de proclamar a toda gente, dizendo: “O amor não é amado”. E conclamava a todos a amar e servir ao bom Deus e a toda humana criatura.

O documento de Aparecida aponta outros lugares onde é possível o encontro com Jesus Cristo. Destaco dentre eles, por exemplo, três modos de encontrá-Lo. Podemos encontrar Jesus Cristo na Sagrada Escritura. O documento evoca a figura ilustre do primeiro tradutor da Bíblia para o latim (A Vulgata), São Jerônimo, que no século quinto já dizia que “Ignorar a Bíblia é ignorar a Cristo”. Por isso, chamando a atenção que a Igreja sempre procurou educar o povo na leitura e meditação da Palavra de Deus, frisa que agora mais do nunca é necessário fazê-lo (cf. DAp 247-249). Também é lugar privilegiado para o encontro com Jesus a Sagrada Liturgia da Igreja, sobretudo pela vida de oração e pelos Sacramentos. Põe em evidência a vivência dos Sacramentos, mediante os quais celebramos o mistério pascal e encontramos o alimento que nutre a vida nova em Cristo (idem, 250-256). Outro modo especial é encontrar Jesus nos “pobres, aflitos e enfermos” (cf. Mt 25,37-40). Diz o documento: “O encontro com Jesus Cristo através dos pobres é uma dimensão constitutiva de nossa fé em Jesus Cristo… A mesma união a Jesus Cristo é a que nos faz amigos dos pobres e solidários com seu destino” (DAp 257).

Por Dom Caetano Ferrari – Diocese de Bauru

]]>
51059
A espiritualidade da Quaresma https://old.diocesedeuruacu.com.br/sem-categoria/a-espiritualidade-da-quaresma/ Fri, 23 Feb 2018 16:34:42 +0000 http://teste.toqueto.com/a-espiritualidade-da-quaresma.html Embora quase esquecido, há, porém, um paradigma na teologia que não perdeu a sua validade, segundo pensa muita gente boa, inclusive modestamente eu. O esquema é este: À uma espiritualidade ou religiosidade vertical corresponde outra horizontal. Dizendo de outro modo, vertical é a relação pessoal com Deus, “Eu e Deus”, e a horizontal, a relação pessoal com os outros e o mundo, “Eu e os outros e o mundo”. Com outras expressões, diz-se vertical a que se refere à caridade-justiça de Deus ou para com Deus e a horizontal, à caridade-justiça social ou para com os outros. Como se pode perceber, é uma explicitação dos dois mandamentos da caridade: 1- “Amarás ao Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente”; 2- “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Aquele é o maior e o primeiro mandamento. Este é semelhante àquele, mas é o segundo mandamento, conforme Jesus explica em Mateus 22, 36-39. Que quero dizer com isto? Exatamente, chamar a atenção para frisar que embora as duas espiritualidades sejam semelhantes, no entanto, a vertical é a primeira, e a horizontal a segunda. Ou seja, os deveres para com Deus vêm em primeiro lugar e em segundo os para com o mundo da criação. Em outros termos, os direitos de Deus sobre cada um de nós precedem aos direitos que os outros e o mundo têm sobre nós. Os direitos de Deus e as obrigações que temos para com Deus expressam-se em tudo o que concerne à sua santa vontade e em suas leis. Basicamente, nossas obrigações consistem em conhecer a vontade de Deus para vivê-la, em observar os seus mandamentos e ensinamentos, em praticar as virtudes e as obras de misericórdia e em vencer as tentações e evitar todo pecado que é sempre uma ofensa feita a Deus pela desobediência à sua lei. Como dizemos que Deus é amor e fomos criados à sua imagem e semelhança, amar é tudo na vida, é, enfim, o absolutamente essencial. Por isso, o essencial na vida cristã é o primeiro mandamento: “Adorar a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas”. De tal maneira, com toda razão, a teologia nos diz que por causa do amor a Deus segue-se o amor aos outros e entre estes aos pobres e sofredores. Como sabemos, desde o relato de Caim e Abel, toda a Bíblia está marcada pelo amor de predileção de Deus pelos fracos e maltratados da história humana. O amor ao próximo, por conseguinte, é também essencial, mas é o segundo mandamento, o que decorre daquele amor primeiro de Deus, a quem por primeiro devemos amar. Pode-se dizer com toda certeza que amar assim como Deus nos ama e ama a sua criação deve ser a razão da nossa vida, é o que dará sentido à nossa vida, é o que nos possibilitará ser santos como o Pai do céu é santo. Em suma, é o que nos fará ser cristãos, ser discípulos de Jesus, isto é, seguir o modelo de quem se identificou com os seus “irmãos mais pequeninos” (Mt 25,40.45) e fez uma opção clara pelos excluídos do seu tempo.

Por que faço esta introdução na reflexão sobre a Quaresma? Porque hoje em dia, sobretudo, na sociedade afastada de Deus tudo virou horizontalidade. Nada ou pouco se fala de Deus. Veja, por exemplo, o projeto de intervenção federal na segurança no Rio e o anúncio da criação do Ministério da Segurança Pública, empreendidos pelo governo federal para o enfrentamento do grave problema da violência. A Campanha da Fraternidade trabalha o mesmo tema, que a Igreja desde o ano passado reconheceu-o como o maior problema da atualidade brasileira: a violência e a sua superação. É evidente que o Estado e a Igreja são instituições diferentes. Portanto, cada uma enfoca o tema a partir da sua identidade e peculiaridades.  No entanto, já que nossa nação é cristã é de se perguntar: os pressupostos básicos da nossa fé em Deus, da fraternidade humana fundada na paternidade do mesmo Deus, dos princípios filosóficos da ética cristã, dos valores morais, dos mandamentos de Deus, das leis divinas e naturais, presentes no projeto da Campanha da Fraternidade, fundamentam também, ao menos de longe, os referidos projetos de segurança do governo federal?

Pois bem, conforme a espiritualidade quaresmal, a conversão consiste em que, primeiramente, eu e você ou nós cristãos devemos voltar-nos para Deus e procurá-Lo com todo o coração como primeiro passo para podermos convocar toda a sociedade a se colocar também diante de Deus e a ouvir a sua voz convidando todos à conversão. Porquanto, como fica evidente, a conversão passa pela pessoa, deve começar com cada um de nós, depois pelos outros da comunidade e da sociedade. A conversão deve começar comigo e com você, prezado leitor. Nós precisamos voltar o coração para Deus pelos exercícios quaresmais da “oração, jejum e esmola”, e buscar a reconciliação mediante os sacramentos e a celebração pascal da paixão, morte e ressurreição do Senhor. A conversão que nos leva a mudar muita coisa em nossa vida é que renova em nós atitudes e comportamentos e que, por fim, devolve a paz ou a faz crescer em nossos corações. Por isso, a Igreja, mãe e mestra, nos ensina que somente homens e mulheres convertidos e pacificados poderão ser pacificadores e promover a justiça, a paz, a reconciliação e a fraternidade ao redor, na sociedade e no mundo. Em síntese, não haverá nunca mundo novo sem homens e mulheres novos.  A superação da violência passa pela conversão pessoal. Essa é a convocação primeira da Liturgia quaresmal para que a Campanha da Fraternidade possa ser eficaz e produzir resultados. Sem esta premissa também os projetos do governo federal para o enfrentamento da violência pouco ou nada hão de realizar.

Neste segundo domingo da Quaresma o Evangelho de Marcos 9, 2-10 relata a transfiguração de Jesus no Tabor. A glória e ressurreição de Jesus, depois de sua paixão e morte, ensinam que também a glória e a transfiguração futura do ser humano pecador passam pela penitência, conversão e mudança de vida.

Por Dom Caetano Ferrari – Diocese de Bauru

]]>
50965
O maior mandamento https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-maior-mandamento/ Fri, 27 Oct 2017 14:32:38 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49253 No Evangelho da santa missa do domingo passado, ouvimos Jesus discutindo com as autoridades judaicas sobre a questão do pagamento de imposto, se é lícito pagar imposto a César ou não. Jesus deixou uma resposta que até hoje é paradigmática: “Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus”. Na sequência do Evangelho lido na Liturgia de hoje São Mateus narra outro debate provocado pelos fariseus – Mt 22,34-40. Ouvindo dizer que Jesus fechara a boca dos saduceus, os fariseus decidiram, eles também, pôr Jesus à prova. Um deles lhe perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” Jesus respondeu unindo dois mandamentos, o primeiro que está no “Shemá Israel” (Dt 6,4ss): “amar a Deus acima de tudo”, e o segundo que está no Levítico 19: “amar ao próximo”. Jesus, então, assim, se expressou: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. E concluiu sua fala, dizendo: “Toda a lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

A pergunta era oportuna naquela época, quando Jesus sabia que todo judeu, a cada dia, de manhã e de tarde, devia proclamar o “Shemá (Escuta) Israel? A resposta é sim. É sempre oportuno, em primeiro lugar para que não se caia na rotina e na repetição mecânica de palavras que vão se tornando vazias de sentido, distantes do cotidiano, sem pegada para influenciar os comportamentos e para dar cor, sabor e valor à vida. Em segundo lugar, porque os próprios escribas falavam existir no judaísmo uns seiscentos e treze mandamentos como preceitos e proibições que se ajuntaram ao longo do tempo e que não vieram diretamente de Deus, mas foram criados por eles mesmos, e tudo isso era igualmente importante. E que, portanto, no meio de uma religião misturada confusamente com tantas normas e regras e leis e mandamentos, as pessoas simples acabavam perdidas, sem saber ao certo o que é o essencial da religião e qual o mandamento mais importante. Por isso, a pergunta era mais do que pertinente.

Também para nós hoje pode acontecer de igual modo a mesma coisa. Não é assim que todo domingo, na Missa, juntos, rezamos a oração do “Credo”, o resumo de nossa fé, mas depois, no dia a dia, mais de uma vez, nem bem nos lembramos do conteúdo daquilo em que acreditamos nem sabemos dar a razão da nossa fé quando provocados?

Não é a toa que hoje se ouve dizer com frequência que nós, católicos, precisamos voltar aos fundamentos da nossa fé católica, ao básico do nosso Catecismo, aos mandamentos de Deus, à Sagrada Escritura, ao Magistério da Igreja, aos Sacramentos, às verdades sobre Jesus, a Igreja e o ser humano, à oração, à liturgia, aos sacramentos, à devoção a Maria e aos Santos. É por isso que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) publicou, em 2007, um livro chamado “Sou Católico”, exatamente com a finalidade de nos lembrar os pontos essenciais da nossa fé católica e assim nos ajudar a viver a nossa fé. Esse livrinho, de fácil leitura, está disponível em qualquer livraria católica.

Para falar sobre o básico do básico, podemos nos lembrar de ao menos dois grandes santos. Primeiro, de Santo Agostinho, que resumiu toda a fé e moral no amor. São célebres estas suas palavras: “Ame e faça o que quiser”. Pode-se ver em Agostinho uma síntese da síntese de Jesus no Evangelho de hoje. Segundo, de Santa Teresa d’Ávila, que deixou estas palavras lapidares, resumo de sua experiência mística: “Que nada te perturbe. Que nada te apavore. Tudo passa. Só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus nada lhe falta. Só Deus basta”.

Veja como o nosso estimado Papa Francisco expressa a sua compreensão mais profunda de Deus. Segundo ele diz, “O nome de Deus é misericórdia”, e também, “A misericórdia é a ‘carteira de identidade’ de Deus”. São Francisco de Assis, inspirador do nosso Papa, em certa ocasião fez a seguinte oração: “Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós sois o Altíssimo Senhor, Criador do céu e da terra, e eu um simples vermezinho, ínfimo servo vosso”.  Por isso, ele gostava de, constantemente, pedir a Deus: “Dai-me uma fé íntegra, uma esperança firme, uma caridade perfeita! Concedei-me, meu Deus, que eu vos conheça muito, para poder agir sempre segundo os vossos ensinamentos e de acordo com a vossa santíssima vontade”.

Por Dom Caetano Ferrari – Bispo de Bauru

]]>
49253
A fonte de água viva: Jesus https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-fonte-de-agua-viva-jesus/ Fri, 17 Mar 2017 08:26:32 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=44953 Na Missa deste terceiro domingo da Quaresma é lido o Evangelho da Samaritana – Jo 4,5-42. Na Samaria, povo considerado herege pelos judeus, deu-se uma abundante colheita de convertidos à fé em Jesus. Foi assim, Jesus descia de Jerusalém à Galiléia pelo caminho mais curto, que normalmente era evitado pelos judeus por preconceito aos samaritanos, pois que passava pela Samaria. Na cidade de Sicar, aos pés do monte Garizin, ficava o poço de Jacó, no qual os samaritanos abasteciam-se de água boa. Ora, Jesus chegou ao poço pelo meio-dia e ali se sentou esperando que os apóstolos fossem à cidade buscar alguma coisa para comer. Naturalmente, Jesus estava com sede, mas devia esperar porque não tinha com que puxar a água do poço, que era fundo. Eis que uma samaritana se aproxima para pegar água. Embora no contexto daquele tempo fosse absolutamente estranho, Jesus pede à mulher: “Dá-me de beber”. A resposta da mulher não podia ser outra senão perguntar-lhe: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, uma mulher samaritana?” Mas foi assim desta maneira que Jesus criou uma excelente oportunidade para estabelecer um diálogo com uma mulher com quem nem deveria conversar. O diálogo tornou-se frutuoso, paradigmático, porque possibilitou questionar e romper preconceitos e, ao final da conversa, despertar naquela mulher uma fé espontânea, uma adesão livre a Jesus. Ela se sentiu cheia de alegria e, retirando-se, voltou à cidade e foi logo levar a notícia do que acontecera aos seus mais próximos que espalharam a novidade ao povo. 

Como foi a conversa de Jesus com a samaritana? Na conversa Jesus se revelou como “água viva” que jorra para a vida eterna. Quem beber dessa água nunca mais terá sede. Naquele que a beber se tornará uma fonte de igual água que jorra para a vida eterna. A mulher, então, pede a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem tenha de vir aqui para tirá-la”. Poder-se-ia dizer que a mulher com essa sua disposição abriu a guarda que mantinha a sua alma fechada. Então, Jesus se permitiu de tocá-la no mais profundo de si mesma e lhe pede: “Vai chamar teu marido e volta aqui”. Admirada, ela respondeu: “Eu não tenho marido”. Jesus sabia que ela já tivera cinco maridos e que com o atual nem era casada. Jesus, porém, a elogia porque foi sincera, verdadeira. A mulher reage, dizendo: “Senhor, vejo que és um profeta”. Então, ela lhe põe uma questão de fé que diferenciava judeus e samaritanos, sobre a questão do lugar onde se devia adorar a Deus, no monte Garizin como os samaritanos ou em Jerusalém como os judeus. Jesus lhe diz que está chegando a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém se adorará a Deus. Jesus não nega, ao contrário confirma que a salvação vem dos judeus, mas doravante os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, ou seja, não importa o lugar, cada fiel é o lugar e o templo em que se pode adorar ao Pai. O lugar primeiro de adoração a Deus é o próprio homem, que O adorará em espírito e em verdade. Os homens todos poderão adorar a Deus em espírito e em verdade onde se reunirem, não importa o lugar. Diz Jesus, “De fato, esses são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”. A mulher disse a Jesus: “Sei que o Messias vai chegar”. Jesus lhe revelou: “Sou Eu, que estou falando contigo”. Nesse instante, os discípulos chegaram, admiraram-se de ver Jesus conversando com a mulher, mas nada lhe perguntaram. E a mulher se retirou voltando à cidade.

Na cidade a mulher foi contando com quem ia se encontrando: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” Muitos samaritanos acreditaram na mulher, mas foram ao encontro dEle e pediram para que permanecesse com eles. Jesus acabou ficando por lá dois dias. E muitos creram em Jesus por causa da sua palavra e disseram à mulher: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”.

Jesus comentou com os discípulos a respeito dessa colheita de convertidos, citando o ditado que diz: “Um é o que semeia e outro o que colhe”. Assim sendo, “Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam, e vós entrastes no trabalho deles”. O importante é fazer a vontade de Deus, que é inclusive um alimento desconhecido por vocês, mas é o meu alimento preferencial, a saber: “fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. Foi por estar saciado com esse alimento, o pão do fazer a vontade do Pai, que Jesus inclusive nem provou dos alimentos que os discípulos trouxeram da cidade, não obstante eles tenham insistido: “Mestre, come”. Jesus não comeu do pão que mata a fome do corpo, porque já estava satisfeito na alma com o pão do Pai que acabara de comer. Realizando a obra do Pai, Jesus estabeleceu um diálogo enternecedor com uma mulher de vida complicada, ofereceu-lhe a beber água viva como dom de Deus, para que nunca mais tivesse sede e nela brotasse uma fonte de água que jorra para a vida eterna. Bebendo dessa água, a samaritana proclamou a sua fé em Jesus e tornou-se a sua testemunha, anunciando Jesus aos habitantes da cidade. 

Nós necessitamos saciar a nossa sede de vida plena e eterna na verdadeira fonte que é Jesus Cristo. A Quaresma é este tempo propício para pedirmos a Jesus: “Senhor, dá-nos dessa água, para que não tenhamos mais sede”.

Por Dom Caetano Ferrari – Diocese de Bauru

]]>
44953
Quaresma, preparação para a Páscoa https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/quaresma-preparacao-para-a-pascoa/ Fri, 03 Mar 2017 08:29:11 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=44673 Neste tempo que começa na Igreja, a Quaresma, que vai da Quarta-feira de Cinzas até Quinta-feira Santa pela manhã, somos chamados a viver em Cristo preparando-nos para a celebração da festa mais importante do ano, a Páscoa: a morte e ressurreição de Jesus e a nossa. Como a palavra Quaresma sugere são quarenta dias que recordam os quarenta anos em que o povo de Israel, atravessando o deserto depois da fuga do Egito, passou pela provação da e na fé, a fim de poder entrar na terra prometida. Recordam também os quarenta dias em que Jesus se retirou ao deserto para se dedicar à oração e à penitência do jejum, e ser tentado pelo diabo; uma preparação a que Jesus se submeteu como preparação para a sua vida apostólica que começava. Todos os grandes acontecimentos que são celebrados como festas, a festa da entrada na terra prometida, a festa do anúncio da chegada do Reino de Deus e sua justiça, as festas dos mistérios do Senhor, as festas de Nossa Senhora e dos Santos, foram previamente preparadas e são sempre renovadas na Liturgia da Igreja por tempos fortes de preparação (tríduos, novenas, Advento, Quaresma). A Igreja, ou seja, todos nós somos convidados a entrar generosamente nesse ambiente de preparação, que é tanto mais longo quanto mais importante é o evento a ser celebrado. A Páscoa, a maior festa, deve passar necessariamente por esta preparação de quarenta dias. 

A palavra chave na preparação de toda festa religiosa é a conversão. A Quaresma nos propõe a conversão de vida pela vivência dos exercícios espirituais da oração, jejum e caridade. Os textos bíblicos da Quarta-feira de Cinzas já nos colocavam no clima da Quaresma: “Voltai-vos para o Senhor, com todo o coração, com jejuns, lágrimas e gemidos… Reuni-vos todos em celebrações de culto e oração… Suplicai o perdão do Senhor… O Senhor é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia” (Joel 2,12-18). Paulo dizia: “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,2). No Evangelho, Jesus pedia : “Ficai atentos… Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita… Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa… Quando jejuares, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas… E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (Mt 6 1-6.16-18).   

Neste primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho é o das tentações de Jesus – Mt 4,1-11. O Espírito conduziu Jesus ao deserto para um recolhimento espiritual, onde Ele jejuou por quarenta dias e quarenta noites, estando em comunhão permanente de oração com o Pai. Findos os quais, Jesus estava com fome e o tentador aproximou-se de Jesus e, com astúcia, o provocou: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”. Jesus, porém, sem perder a calma, respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”. Então, o diabo levou Jesus para a parte mais alta do templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui para baixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a seu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!’”.  E o diabo O levou para um monte muito alto, e mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e sua glória e Lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Jesus lhe disse: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto”. Mateus conclui a passagem, registrando: Então, o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus”.       

No sentido evangélico as tentações em geral, e em particular as de Jesus, não significam solicitações para fazer o mal, mas devem ser entendidas como provas, provações, lutas a que o povo ou pessoas, no caso, o próprio Jesus deviam passar. Por essas provações as pessoas de fé comprovavam a sua fidelidade a Deus. Assim sendo, a Quaresma é um tempo de comprovação da nossa fidelidade a Deus. Nesses momentos de retiro espiritual, de mais oração, penitência, jejum, sacrifícios, como da Quaresma, é que o diabo vem nos tentar. Ele vem precisamente questionar a nossa fé, nossas convicções, nossa paciência, com todas as artimanhas que ele sabe muito bem manejar. Vale a pena observar que Jesus respondeu ao demo servindo-se da Palavra de Deus. Nas três tentações Jesus começou com esta expressão: “Está escrito na Palavra de Deus…” Diante da Palavra de Deus, o bicho feio não tinha como contrapor. Até que, enfim, desistiu, e, bufando enxofre queimado pelas ventas, se mandou.

À conversão quaresmal se conjugam outras palavras: provação, penitência, purificação, em resumo, “oração, jejum e caridade”. 

O gesto concreto da Quaresma deste ano vem proposto pela Campanha da Fraternidade 2017, cujo tema é “Biomas brasileiros e defesa da vida”, e cujo lema é “Cultivar e guardar a criação”. 

Venha participar na sua comunidade de Igreja das celebrações de preparação para a Páscoa, procurando seguir o modelo da vida de Jesus Cristo que passou quarenta dias em oração, jejum e penitência a fim de realizar vitoriosamente o combate contra o mal e o pecado e a implantação do Reino e Deus com a sua justiça. Se Jesus, o Filho de Deus e sem pecado, foi tentado, nós também o seremos. Mas, porque foi tentado e provado, Jesus pode nos ajudar nas tentações. É Ele quem nos ensinou na sua mais bela oração a pedir ao Pai: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém!”

Por Dom Caetano Ferrari – Diocese de Bauru

]]>
44673
A ricos e pobres, o Reino de Deus e sua Justiça https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-ricos-e-pobres-o-reino-de-deus-e-sua-justica/ Mon, 27 Feb 2017 10:27:45 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=44603 Ambientado no Sermão da Montanha (Bem-aventuranças), São Mateus reuniu “ditos” (lógion, lógia, na língua grega) de Jesus, isto é, ensinamentos superiores mediante os quais Ele veio para aperfeiçoar as leis da Antiga Aliança e não suprimi-las. Jesus usou como fórmula própria para enunciá-los, a expressão: “Foi dito aos antigos, Eu, porém, vos digo…”. Jesus toma as letras, isto é, o corpo físico das leis da Antiga Aliança, das quais Ele não veio subtrair nem um “j” nem uma “vírgula, mas as transforma e aperfeiçoa no Espírito com que selou a Nova Aliança por seu sangue derramado na cruz. Sobre Jesus de Nazaré, o Ungido de Javé, o Messias, repousou o Espírito do Senhor. Somente Jesus, o novo Moisés, é quem dá uma lei nova, que tem espírito e vida, fundada numa Justiça superior, na Caridade, no Amor, na Misericórdia. A novidade do Reino de Deus e da Justiça do Pai se assenta sobre esta lei nova, esta Justiça superior do Amor. No trecho evangélico da Missa de hoje – Mt 6,24-34 – Mateus registra este outro ensinamento de Jesus dito aos discípulos: “Ninguém pode servir a dois senhores… Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso Eu vos digo, não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa?”. Jesus usa as imagens  dos “pássaros do céu” e das “flores dos campos”, que respectivamente não semeiam nem tecem, mas Deus os alimenta e as veste, para que os discípulos pudessem compreender com toda nitidez o que Ele ensinava em parábolas. Os pagãos, segundo afirma Jesus, é que poderão ficar preocupados com o que comer, beber e vestir. Mas, não os discípulos. Além do mais, o Pai sabe de tudo o que os discípulos precisam. Jesus arremata seus esclarecimentos dando uma instrução em tom de  imperativo categórico: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Ele diz ainda: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas”. Quanto ao tema, o Apóstolo São Paulo disse: “Porquanto o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). E isso vale para todos, ricos e pobres. 

Jesus oferece o Reino de Deus e a Justiça do Pai a ricos e pobres. Jesus coloca diante de uns como dos outros a alternativa “Deus ou o dinheiro”. Talvez para os pobres seja mais fácil fazer a opção clara por Deus do que pelo deus “Mamon” (palavra semítica que significa dinheiro, riqueza), porque eles, de dinheiro real, pouco ou nada tenham. No entanto, é bem sabido que há avarentos que nada possuem, bem menos é claro do que os avarentos ricos. O perigo dos ricos é de substituírem o Deus verdadeiro pelo “demônio Mamon”, de elevarem o dinheiro e a sua posse no valor mais importante da sua vida, no fim último da sua existência, como o bem maior a desejar e procurar e a fonte de sua felicidade. Essa é a idolatria do dinheiro e da sua posse que arranca a pessoa da busca do Reino de Deus e de sua justiça. O perigo dos pobres, porém, pode estar nas preocupações exacerbadas com a luta pelo mínimo necessário à sobrevivência. Alguns, então, se revoltam contra Deus e todo mundo, outros se esquecem dEle, outros acabam numa resignação pessimista, num conformismo antievangélico de que essa seria a vontade de Deus ou esse o seu destino, não restando nada a se fazer.

Palavras como “fé e confiança em Deus”, “oração e trabalho”, “providência divina e solidariedade” devem ser bem conjugadas na correta compreensão dos significados e na perfeita articulação das atitudes e ações. Entre todos os valores superiores hierárquicos da vida o cristão precisa, em primeiro lugar, fazer a sua opção clara por Deus e em favor do seu Reino e da sua Justiça. À fé em Deus segue-se a confiança em Deus. A confiança em Deus, no entanto, não deve ser passiva, como se só bastasse crer, confiar e esperar. O ditado popular “Deus ajuda quem cedo madruga” expressa bem como o cristão deve enfrentar a vida, fazendo a sua parte. Depois, vem o valor da “oração e o trabalho. “Ora et labora” é um sábio princípio monástico. Oração e trabalho, espiritualidade e ação, mística e missão servem tanto na luta pessoal pela vida como na construção da sociedade e na obra pastoral da evangelização. “Sem mim nada podeis fazer”, disse Jesus. A oração é eixo que atravessa toda a vida, sustém a vida no Espírito e fecunda toda a ação. Mas não basta dizer “Senhor, Senhor se não se procurar pôr em prática a Palavra de Deus”, afirmou também Jesus. Portanto, “ora et labora”. Em seguida, vem “a providência divina e a solidariedade”. Jesus está dizendo: “Olhai os pássaros… Considerai as flores… Não vos preocupeis por vossa vida”. Ele conclui, contrapondo: “Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas de que precisais vos serão dadas de acréscimo”. A Justiça nova do Reino funda-se no mandamento novo da caridade, do amor, da misericórdia. Por isso, é exigência do Reino pôr em prática a caridade, a solidariedade com os outros, sobretudo com os pobres, e a misericórdia com pecadores e sofredores. 

Busquemos primeiramente o Reino de Deus, confiemos firmemente na Providência divina e partilhemos generosamente os dons, frutos da bênção e do trabalho, com os pobres e necessitados.

Por Dom Caetano Ferrari – Diocese de Bauru

]]>
44603