Dom Alberto Taveira Corrêa - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Sun, 27 Oct 2019 01:13:01 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Dom Alberto Taveira Corrêa - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 Lições do Sínodo aos bispos https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/licoes-do-sinodo-aos-bispos/ Sun, 27 Oct 2019 01:13:01 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=56983 Encerra-se neste domingo a Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia. Desde o primeiro Domingo de Outubro, Bispos dos vários países que compõem a Amazônia estão reunidos com o Papa Francisco, acompanhados de assessores e pessoas convidadas, refletindo sobre os desafios da Evangelização da região e em busca de caminhos para a contribuição da Igreja à Ecologia Integral. Trata-se de uma Assembleia de Pastores da Igreja, chamados pelo Senhor a conduzir o rebanho nos caminhos da história. Aos Bispos cabe, nestes últimos dias, votar um documento conclusivo, a ser entregue ao Santo Padre. As outras pessoas participantes ajudam muito com sua presença e suas ideias, mas aos sucessores dos Apóstolos reunidos em Roma está confiada a responsabilidade do texto final. “Ao mesmo tempo que ajuda o mundo e dele muito recebe, a Igreja tem em mira uma só coisa, a vinda do reino de Deus e a salvação de todo o gênero humano. Porquanto todo bem, que o Povo de Deus em sua peregrinação terrestre pode prestar à humanidade, decorre do fato de ser a Igreja o sacramento da salvação universal, manifestando e realizando ao mesmo tempo o mistério do amor de Deus para com os homens” (Gaudium et Spes 40.45).

Como é do conhecimento de todos, o Sínodo não é um Parlamento nem tem funções deliberativas. O texto da Declaração final, que pode ou não ser publicado nos próximos dias, é entregue ao Papa, a quem cabe uma possível Exortação Apostólica, com as devidas orientações pastorais. Seria temerário antecipar o seu conteúdo antes da votação a ser realizada nos próximos dias.

Desde o primeiro dia, o Papa tem ensinado muito. A primeira lição é a presença. Vê-lo assentado, tranquilo, escutando todas as intervenções, depois presente nos intervalos, alimentando-se junto conosco, conversando com simplicidade, deixando-se fotografar, edifica a todos. Sua postura é de grande humildade, cujo olhar revela uma imensa autoridade, sem autoritarismo. Atenção a tudo e todos, zelo de pastor, preocupação pela Igreja, para que ela leve a Boa Nova a todos os recantos do mundo, especialmente na Amazônia.

Aprendemos a conviver com um mundo que nos pressiona muito, através dos grandes meios de Comunicação e das Redes Sociais, com uma imensa diversidade de interpretações e julgamentos. Estamos expostos, dados como verdadeiro espetáculo. Há grupos e pessoas que têm criticado a Igreja, os Bispos e o Papa e, não estando dentro do ambiente sinodal, não sabem como convivemos e trabalhamos. Internamente, temos respirado a fraternidade, clima de oração, capacidade de escuta, respeito profundo pelas opiniões dos outros, busca do consenso, amor a Jesus Cristo, à Igreja e à verdade. Entretanto, sabemos que na preparação e na realização do Sínodo, foram muito mais as pessoas e comunidades que nos acompanharam com sua oração e apoio, o que nos fez ter a certeza de que Deus está no comando. A certa altura, o Papa Francisco insistiu com os participantes que sem o Espírito Santo não existe Sínodo! De fato, existiriam discussões e opiniões, mas não o “caminhar juntos”, significado da palavra Sínodo.

Como trabalhamos? No primeiro dia, a leitura dos relatórios iniciais, com os quais repercutimos um processo de escuta, realizado nos diversos países, com o qual muitas pessoas e grupos se manifestaram, com seu desejo de ajudar na caminhada da Igreja em nossos países. Em seguida, cada membro da Assembleia pôde manifestar seu parecer a respeito dos diversos assuntos. E ouvimos muita coisa a ser trabalhada com afinco. Durante o desenrolar dos trabalhos, várias vezes nos reunimos em grupos por línguas, quando pudemos estudar com atenção os grandes temas ligados à busca de novos caminhos para a Evangelização na Amazônia e a nossa contribuição para uma Ecologia Integral. Tratamos das grandes questões sociais, como a violência, o narcotráfico, os grandes projetos que incidem sobre as populações da Amazônia e ainda questões pastorais, como a participação na Eucaristia, a Catequese, a juventude e seu protagonismo eclesial, as vocações e o testemunho do Evangelho.

Tratamos de assuntos candentes, como os desafios socioambientais, vistos no ângulo que nos é próprio, a saber, as dimensões éticas e morais, sem qualquer parecer a respeito da responsabilidade territorial sobre a Amazônia, já que estamos todos convictos, junto com nossos países, da absoluta autonomia e independência de cada nação. Tratamos dos modos para ajudar nossa população, especialmente os indígenas e povos originários, no respeito à sua cultura e tradições, e não sejam considerados atrasados ou menos qualificados. Mais ainda, veio à tona a riqueza cultural secular de tantas populações tradicionais.

Aprendemos a escutar o clamor por maior presença da Igreja, o desejo da Eucaristia, coração de nossa vida cristã em toda a Amazônia. Era bonito ver que realmente, de todas as partes, vinha o clamor pela Eucaristia. Algumas pessoas e grupos, pelo mundo afora e em nossa Amazônia, insistiam em que nossos assuntos eram a ordenação de homens casados, provados pelo tempo e pela vida cristã, e um eventual ministério a ser confiado às mulheres. Se ouvimos muitos relatos de grande importância, o assunto da disciplina dos ministérios é agora confiado ao discernimento do Papa, que saberá definir os eventuais passos possíveis. Ficou sempre muito claro o respeito pelo celibato sacerdotal, que é a prática da Igreja Latina, ainda que existam homens casados e ordenados presbíteros católicos em outras áreas do mundo. Foi muito valorizado o ministério dos Diáconos Permanentes, o que já acontece em nossa Arquidiocese de Belém, que tem o maior número deles em toda a Amazônia.

Debruçamo-nos muito e com seriedade sobre a diversidade de culturas presentes na Amazônia e ainda um dos maiores desafios, a urbanização, pois a grande maioria de nossa população vive em grandes cidades, ou delas recebe influência significativa. E aprendemos muito dos exemplos de irmãos e irmãs, gente que pagou com a vida a Evangelização da Amazônia. Renovamos nosso compromisso com a verdade, pela organização da Igreja e dos Povos Amazônicos e pela defesa dos direitos humanos com ardor missionário.

Veio à tona o desejo de um organismo eclesial representativo das circunscrições eclesiásticas da Amazônia, para reforçar o caminho sinodal proposto pelo Papa. E assim aprendemos a valorizar o que pertence aos outros países e áreas da Amazônia. E todos nos entendemos e soubemos escutar-nos mutuamente, admirando a diversidade existente entre nós. Foi uma lição de Igreja e de missão, abrindo-nos cada vez mais para a dimensão missionária. Nos próximos dias e meses, muitas riquezas de reflexão e vida serão ainda comunicadas a todos, a fim de que se sintam participantes daquilo que vivemos. Deus seja louvado!

DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA
Arcebispo de Belém do Pará

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Rezar e trabalhar https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/rezar-e-trabalhar/ Wed, 24 Jul 2019 22:41:07 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=56190 O período da Igreja chamado Tempo Comum, no qual nos encontramos e vai até o final do Ano litúrgico, no qual a Liturgia Dominical é celebrada com os paramentos verdes, é propício para o aprofundamento das várias dimensões da vida cristã. “Ora et labora” – Ora e trabalha – é o lema que conduziu a vida de São Bento Abade, comemorado no dia onze de julho. E a Igreja nos oferece nas celebrações litúrgicas do final de semana, no décimo sexto domingo do Tempo Comum, o episódio da visita de Jesus à casa de Marta, irmã de Lázaro e Maria (Lc 10,38-42), precedido pelo magnífico texto da visita de três personagens misteriosos a Abraão e Sara, junto ao Carvalho de Mambré (Gn 18,1-10). Comentando este fato, a Carta aos Hebreus assim se expressa: “Perseverai no amor fraterno. Não descuideis da hospitalidade; pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber” (Hb 13,1-2). Muitas vezes a Sagrada Escritura nos abre à compreensão de aspectos muito práticos do seguimento do Senhor e seus desdobramentos, como acontece com aquela família de amigos de Jesus, uma casa onde Jesus certamente se sentia à vontade.

Marta, a serva disponível, cuja festa, aliás, é celebrada no dia vinte e nove de julho, enquanto não existe uma festa litúrgica para Maria de Betânia, está atarefada, no afã de preparar excelente refeição para Jesus e seus discípulos, fica incomodada com a atitude de sua irmã, assentada aos pés de Jesus como discípula. Não era comum que as mulheres se fizessem discípulas. Era tarefa dos homens, e elas certamente deveriam estar, quem sabe, na cozinha. Estar aos pés do mestre era até atitude escandalosa, em tempos em que um homem não podia falar publicamente com uma mulher e muito menos ensiná-la. E mais ainda, no culto das Sinagogas as mulheres ficavam em lugares secundários, separadas dos homens. Por isso Marta reclama. E o Senhor reconhece os esforços de Marta, sem repreendê-la por ser trabalhadora. E defende Maria, aquela que “escolheu a melhor parte”, a única necessária (Lc 10,42), que não vem a ser considerada preguiçosa, até porque certamente ajudava sua irmã em outras ocasiões. Jesus mostra que naquele momento chega a hora da escuta, do discipulado, agora aberto a todos! De fato, as duas irmãs, e Lázaro com elas, querem bem a Jesus e querem servi-lo, mas de forma distinta. Há um tempo para cada coisa, já ensinava o Eclesiastes! (Cf. Ecl 3,1-12).

Abraão serviu, mandou preparar lauta refeição e hospedou anjos de Deus! Marta serve, é santa, Maria é discípula e modelo, Lázaro entra no meio da história, e Jesus oferece a síntese preciosa, que pode iluminar os nossos caminhos. Nos Atos dos Apóstolos (Cf. At 6,1-6), as primeiras comunidades cristãs já encontraram o desafio de estabelecer o justo equilíbrio de duas dimensões da vida cristã. A atenção aos mais pobres suscitou um novo ministério, que está na origem da vocação dos que hoje chamamos diáconos. Aos Apóstolos, segundo o discernimento de Pedro, deveria caber a oração e a pregação da Palavra.

Concretamente, em nossa vida cristã cotidiana, de modo especial em nossos dias, o desafio se apresenta. Nesta semana, celebramos Nossa Senhora do Carmo, e a Arquidiocese de Belém se reuniu alegremente com as Monjas Carmelitas Descalças, no Carmelo Santa Teresinha, em Benevides. Ali, estas religiosas contemplativas representam um verdadeiro para-raios de oração para a Arquidiocese. Seu trabalho principal é a oração contínua pela Igreja. As pessoas que acorrem ao Carmelo ficam edificadas com a atualização das irmãs em todos os assuntos da Igreja e do mundo e como se tornam madrinhas de sacerdotes, seminaristas, leigos e leigas, pessoas que acreditam na força da oração. Elas expressam de modo digno e bonito a dimensão contemplativa da vida cristã, ainda que trabalhem, e muito, já que são sustentadas pelas atividades que ali realizam.

E o que dizer de tantos homens e mulheres enviados ao mundo para a pregação, o testemunho e a caridade? Como nos tem edificado a resposta ao convite à missão de leigos e leigas em nossa Arquidiocese de Belém, a prontidão para as visitas domiciliares, o engajamento nas atividades de evangelização, as semanas missionárias, os mutirões de evangelização. E não são poucas as pessoas que assumem o rosto da caridade cristã para serem presença no mundo. Além disso, há as pessoas que põem literalmente a mão na massa, nas edificações que se multiplicam na Igreja! Assim a Igreja é completa, reza e trabalha!

Mas como equilibrar estas duas dimensões na vida diária do cristão? Prioridade absoluta seja dada à Eucaristia Dominical, nossa Páscoa semanal. Fazer todo o possível para que não haja em nossa vida Domingo sem Missa! Depois, a oração diária. Rezar pela manhã e à noite, agradecer juntos a Deus, com a família, às refeições, dedicar-se à oração, como o Rosário e outras devoções existentes na Igreja. E a Palavra de Deus? Vale aprender e praticar a leitura orante da Palavra de Deus: Leitura, Meditação, Oração, Contemplação, Ação.

Outra proposta é a superação do julgamento! Não existe uma segunda ou terceira categoria de pessoas na Igreja, porque rezam ou trabalham de forma diferente daquele que cada um de nós pratica! O Espírito Santo sopra onde quer e como quer, suscitando dons, carismas e serviços diferentes, mas todos importantes. Ninguém deseje uma espécie de rolo compressor, querendo que todos vivam a mesma espiritualidade, a mesma prática de contato com a Palavra e os mesmos engajamentos. É bela a diversidade na Igreja! “Na Igreja, Deus estabeleceu, primeiro, os apóstolos; segundo, os profetas; terceiro, os que ensinam; depois, dons diversos: milagres, cura, beneficência, administração, diversidade de línguas. Acaso todos são apóstolos? Todos são profetas? Todos ensinam? Todos fazem milagres? Todos têm dons de cura? Todos falam em línguas? Todos as interpretam? Aspirai aos dons mais elevados. E vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior” (1 Cor 12, 28-31). E em seguida, São Paulo indicou a caridade, o amor de Deus derramado nos corações, como a estrada mestra com a qual a síntese da vida cristã se realiza.

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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O caminho da Luz nos nossos passos ressucitado https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-caminho-da-luz-nos-nossos-passos-ressucitado/ Fri, 30 Mar 2018 03:43:33 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51528 Durante a Quaresma acompanhamos os passos da Via Sacra, com as estações que nos fizeram seguir Jesus em sua estrada de imolação, até chegar ao Calvário e depois ser sepultado. No primeiro dia da semana, que veio a se chamar Domingo, dia do Senhor, a vitória sobre a morte, o pecado e as trevas se mostra patente, com a Ressurreição de Jesus. A Igreja tem aqui seu centro de referência mais importante, sinal de esperança para todas as gerações, até que volte o Senhor, no final dos tempos.

A partir da Ressurreição, podemos tocar na alegria a ser comunicada a todos, através dos encontros com o Ressuscitado, chamados de “Via lucis”, “Caminho da Luz” (Cf. “Celebrare la Via Crucis e la Via Lucis”, Elledici, 2003). Apraz-nos apresentá-los como mensagem pascal, em tempos de tanta confusão, quando as pessoas estão diante de encruzilhadas desafiantes e mesmo terríveis. É hora de oferecer ao nosso tempo as luzes pascais, pois a Ressurreição imprime na vida de cada cristão um novo ritmo de alegria. De fato, o Senhor ilumina nosso caminho! Desejamos percorrer as quatorze estações do caminho da luz!

Primeiro passo é a própria Ressurreição de Jesus. Sabemos que Cristo ressuscitado está vivo em nosso meio (Cf. Mt 18,1-7). Sabemos que sua vida de ressuscitado é a fonte de nossa esperança. Por isso vivemos na alegria! Senhor Jesus, vencedor do pecado e da morte, escuta nossa oração. Como fizeste forte a fé dos discípulos, concede-nos também a força para vencer as seduções do pecado!

Os discípulos encontram vazio o sepulcro. Uma sepultura não podia segurar o corpo de Jesus, destinado à ressurreição (Cf. Jo 20,1-10). Depois da tremenda prova, o Filho de Deus deveria chegar à glória. Senhor Jesus, que entregaste à Igreja a tarefa de anunciar ao mundo tua ressurreição, concede-nos a graça de viver como ressuscitados para encontrar-te um dia no eterno esplendor do Céu!

Maria Madalena é personagem da terceira estação! (Cf. Jo 20,11-18) Ela se tornou Apóstola dos Apóstolos, contando aquilo que o Senhor lhe disse, para que façamos o mesmo: “Eu vi o Senhor!” Nós te suplicamos, Senhor Jesus, a graça de procurar-te com fé todos os dias da vida e rever sempre o teu rosto!

Continuamos nossa estrada da luz com os discípulos de Emaús (Cf. Lc 24,13-19). A cada etapa da estrada podemos encontrar o Senhor e caminhar com ele, ou podemos ignorar sua presença e buscar falsas seguranças. Senhor Jesus, que és um facho de luz e de salvação, guia nossos passos no caminho justo, para alcançarmos contigo o reino da luz infinita!

Depois, Jesus se manifesta no partir do pão! (Cf. Lc 24,29-35) Pão da vida, que Jesus prometeu a todos. Devemos esperá-lo com ansiedade cada semana, para a Missa de Domingo! Concede-nos, Senhor, um grande amor pelo Pão Eucarístico e faze-nos dignos de alimentar-nos sempre com teu imenso dom!

Com os discípulos no Cenáculo, nosso novo passo! (Cf. Lc 24,36-49) De lá para cá, os ministros da Igreja nos recordam as palavras dos profetas e a história das promessas da vinda do Salvador, feitas pelo Pai. Recordam-nos as provas da Ressurreição! Cuida, Senhor, dos sacerdotes de tua Igreja, para que saibam falar a língua do amor e anunciar a tua salvação!

Novo fruto da Ressurreição é o poder de perdoar os pecados, um passo do caminho da luz (Cf. Jo 20,19-23). A cruz é o preço do pecado, a morte que nos trouxe a vida! Senhor, inspira-nos a confiança ilimitada em tua misericórdia, junto com o desejo profundo de combater o pecado em todas as suas formas!

Tomé é nosso companheiro na estação que se segue (Jo 20,24-29). Grande a paciência do Senhor e a sua bondade, pronto a dar explicações aos seus discípulos. Nós também temos necessidades delas! Senhor Jesus, infunde em nós a luz de tua mensagem, para que possamos sempre reconhecer-te!

À beira do lago, quem pede algo para comer é aquele que pode alimentar a todos (Cf. Jo 21,2-12). Com sua palavra e com o alimento que oferece, ele nos faz ministros da sua caridade, para ir ao encontro das crianças famintas, as famílias sem casa, os doentes e pobres sem sustento! Faze-nos, Senhor, sentir-te presente perto de nós, para que aprendamos a receber e doar o melhor de nós mesmos a todos!

Simão Pedro aprendeu e nos deixou a lição de que o passo mais importante é o amor (Cf. Jo 21,15-19). Amor a Deus e ao próximo! O amor vence a morte, é infundido em nossos corações, tudo vence e tudo suporta. Senhor Jesus, que trouxeste à terra o amor do Pai, que este mesmo amor abrase a tua Igreja e se espalhe pelo mundo inteiro!

Os discípulos receberam a missão de levar a boa nova ao mundo inteiro (Cf. Mt 28,16-20). É luz e alegria sermos chamados a compartilhar a missão de Jesus. De uma forma ou de outra, todos chegamos com a Igreja aos confins da terra. Senhor, a fé nos faça atentos à difusão do Evangelho, prontos a fazer a nossa parte na missão da Igreja!

Depois de alguns dias, Jesus sobre ao Céu (Cf. At 1, 6-11). Caminhamos na vida com a certeza dos frutos salvíficos da Ressurreição de Jesus. Jesus prometeu que prepararia um lugar para os seus. Sem esta certeza, suas promessas não valeriam. Jesus, quando foste elevado ao Céu, prometeste permanecer em nosso meio. Recorda-nos sempre a realidade de tua presença, para trabalhar na esperança de tua vinda!

No caminho dos primeiros discípulos e no caminho da Igreja, Maria está sempre presente (Cf. At 1,1-14). Com ela, aguardamos a força do Espírito Santo, Espírito de Sabedoria, de fortaleza e de piedade. Vem, Espírito Santo, dom de Cristo à Igreja. Com Maria pedimos que consoles os corações fatigados e envies tua luz sobre os que estão desencorajados pelo peso do pecado!

Começou o tempo do Espírito no Pentecostes, derramado sobre a Virgem Maria e os Apóstolos (At 2,1-13), operando a transformação dos corações, o chamado à missão, o propósito de vencer o pecado, a decisão de servir e amar a todos. O Espírito Santo é a vida da Igreja, mantendo nela o zelo e o ardor do anúncio do Reino de Deus! Nós te suplicamos, Deus onipotente, faze que nunca falte à tua Igreja e ao mundo a força renovadora do teu Espírito. Fortalece-nos na fé e na esperança, para caminharmos seguros no caminho da luz!

Santa Páscoa! Santo caminho da luz para todos!

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará

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Todos podem exercitar alguma função de liderança https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/todos-podem-exercitar-alguma-funcao-de-lideranca/ Wed, 14 Mar 2018 10:17:37 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51265 O Antigo Testamento conheceu e ofereceu ao Povo de Deus profetas, reis e sacerdotes, homens chamados a funções de liderança, com a responsabilidade de manter viva a esperança no cumprimento das promessas de Deus. No confronto com outras nações, não se pode dizer que o povo escolhido tenha encontrado pleno sucesso em suas empresas, sendo até considerado pequeno e frágil, diante dos poderes que com frequência o oprimiram. Faz parte de sua história a escravidão no Egito, o confronto com os Filisteus, o Exílio na Babilônia, perseguições, tudo o que se pode pensar em termos de crises de relacionamento com as nações. Além disso, não foram raras as crises internas, brigas pelo poder, infidelidades constantes, próprias de um povo de cabeça dura!

Mesmo assim, um “santo orgulho” sustentou a sua história, a certeza de ter sido escolhido como sinal para as nações, coragem para anunciar a fé num Deus único e verdadeiro, busca de fidelidade ao Senhor. Um profeta, Elias, tornou-se ponto de referência para este ministério, caracterizado pela capacidade de ler os acontecimentos à luz da vontade de Deus. Moisés, cuja presença sintetiza toda a lei dada por Deus ao seu povo, é também chamado profeta (Cf. Dt 18,15-20). Exerceu uma função de liderança, conduzindo-o pelas vicissitudes do deserto, malgrado todas as reações negativas daqueles que caminhavam em busca da terra prometida. Certo de que seus dias caminhavam para o ocaso, Moisés anunciou um novo profeta semelhante a ele, em cuja boca estariam plenamente as palavras do Senhor.

Jesus de Nazaré

O correr dos séculos manteve viva a esperança, passaram outros profetas, homens e mulheres tiveram funções importantes na caminhada do povo, mas tudo evoluiu para expectativa do Messias, aquele que realizaria todas as promessas, vindo com autoridade e força. A figura de Jesus de Nazaré, como no-lo apresenta o início do Evangelho de São Marcos (Cf. Mc 1, 14-28), encontra um povo admirado, estupefato diante de suas palavras e seu modo de agir. Anuncia a chegada do Reino de Deus, proclama a necessidade de conversão, mostra que nele os tempos se completaram. As páginas dos Evangelhos relatam prodígios e sinais, força diante dos elementos da natureza, cura das enfermidades e a morte, poder sobre a ação do demônio.

Na Sinagoga de Cafarnaum, Jesus é admirado pelos seus ensinamentos e pela decisão com que enfrenta o poder do maligno. Jesus é portador de uma doutrina nova, oferecida dom autoridade, diferente das desgastadas autoridades religiosas do tempo. O Evangelho de São Marcos é um roteiro para conhecer a identidade de Jesus. Já em suas primeiras páginas as pessoas se interrogam: “Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!” (Mc 1, 27). O tempo vai mostrar que seu poder tem uma fonte, o fato de ser filho de Deus. Será necessário que um soldado romano, um pagão, o proclame quando Jesus morre na Cruz (Cf. Mc 15,v19). “E sua fama se espalhou rapidamente por toda a região da Galileia” (Mc 1,v28).

Responsabilidades confiadas aos cristãos

As qualidades e as misérias humanas acompanharam também a história da Igreja. Quantas vezes apanhamos por aceitar compromissos inadequados com grupos e estruturas de poder! Quanto precisamos nos converter para escolher o serviço, no modelo do lava-pés! Todas as responsabilidades confiadas aos cristãos, ao longo da história da Igreja, deverão ter como ponto de referência o seu Senhor e Salvador. Vale sempre a pena, seja qual for a tarefa confiada a cada um de nós, fazer a pergunta a respeito do modo como Jesus enfrentaria cada uma das situações desafiadoras de cada época, inclusive a nossa!

E justamente a nossa época e em nosso país se espalha uma grave crise de lideranças em todas as áreas da sociedade. Basta observar as nuvens no horizonte quanto às eleições que se aproximam. Pessoas, grupos e partidos estão de tal modo corroídos que se cria um significativo impasse. Independente das correntes partidárias existentes, ainda sobrou alguém em que se possa confiar no espectro político? Mesmo quando se busca uma renovação radical, onde será possível apegar-se? E vale para outras áreas da vida social, num tempo em que as pessoas estudam mais, qualificam-se profissionalmente, mas são frágeis para assumir autênticas lideranças.

Bem comum

Algumas indicações podem ser úteis, na constituição de novos quadros para a sociedade e, também, para a Igreja. Um passo fundamental é a convicção clara a respeito dos princípios que norteiam o comportamento. Clareza de objetivos, conceitos bem trabalhados, coerência de vida, na qual se supera a tão comum esquizofrenia entre a fé e a vida. Conhecemos pessoas extremamente simples e ao mesmo tempo retilíneas em seu comportamento, nas quais o sim é sim e o não é não. Não mudam de opinião e nem mesmo de partido a cada momento.

Para tal coerência, faz-se necessário optar por uma escala de valores consistente e verdadeira. Para dar apenas um exemplo, é bom redescobrir uma referência tão decisiva quanto rara em nossos dias, a ideia do bem comum. Sem uma verdadeira conversão, na capacidade de priorizar o que constrói o bem de todos, não é possível levar adiante a sociedade. Os grupos de interesse existentes na sociedade hão de renunciar às suas escolhas diante do bem maior, o que corresponde aos valores da vida, a convivência sadia e equilibrada, a capacidade de perder para o outro ganhar.

Em que nível cada um de nós pode exercer liderança?

Uma liderança autêntica pede ainda a fidelidade à palavra dada. Quem dera os nossos políticos prometessem menos para fazer mais e adquirissem um senso de maior realismo, que os leve a priorizar o que edifica o bem dos mais pobres e não apenas obras de grande visibilidade. Seria muito bom verificar os governos, em todos os níveis, para ver a distância existente entre os projetos apresentados e a realidade posterior.

Em que nível cada um de nós pode exercer liderança? Cedo ou tarde, começando pelas funções de pais e mães, passando pelas escolas, até pelos times que praticam esportes, chegando à chefia ou responsabilidade numa área de trabalho, todos podem exercitar alguma função de liderança. Ou ainda, a liderança do bom exemplo e da boa companhia, o esforço para não escandalizar quem quer que seja, com nossas palavras e atitudes. Sempre aparecerá a ocasião para cada um responder, em primeira pessoa, ao chamado de Deus que o faz responsável pela vida da Igreja e do mundo. Aí também resplandeça “um ensinamento novo, dado com autoridade”.

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo da Arquidiocese de Belém (PA)

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Purificação https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/purificacao/ Tue, 06 Mar 2018 07:55:47 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51118 O povo de Deus foi privilegiado com a experiência da revelação amorosa de Deus, que o constituiu como sinal para os outros povos. A lei recebida no Sinai é o que se pode pensar de mais perfeito (Ex 20,1-7), na qual se estabelece de forma inigualável as relações com Deus e o trato das pessoas umas com as outras. Tudo se transformou em motivo de santo orgulho para as sucessivas gerações do povo escolhido, admirado pela sua fidelidade, mesmo sendo uma pequena nação diante de tantas outras, com as quais foi possível experimentar um confronto fecundo, instrumento de purificação e crescimento.

É que a lei oferecida por Deus, sendo excelente, viria a ser praticada por pessoas muito frágeis e limitadas, pelo que continuamente o Senhor lhes manda emissários portadores de chamadas à conversão e à volta para Deus. Não adiantava ter as normas fundamentais bordadas na própria roupa ou atadas com uma faixa em torno da cabeça. Era necessário trazê-las no coração e na prática cotidiana. E este povo era feito do mesmo barro que os seus vizinhos. E até hoje, em tempos da Boa Nova do Cristianismo, é necessário falar de conversão e entrar num caminho de purificação, pois não somos mais perfeitos do que os outros homens e mulheres de nosso tempo. Só que aprendemos a mergulhar no mar infinito da misericórdia de Deus, que nos reergue de nossos abismos profundos.

Um dos sinais importantes presença de Deus com seu povo foi o templo (Cf. Jo 2,13-15), vindo a ser considerado centro da vida religiosa. Lá se rezava sempre, e muitas pessoas peregrinavam, especialmente para a Páscoa judaica. No entanto, também este símbolo passou pelo desgaste quando ao seu uso pelo povo. Os profetas, como Jeremias, já denunciavam anteriormente as profanações do lugar sagrado: “Acaso esta casa consagrada ao meu nome tornou-se, a vosso ver, um esconderijo de ladrões?” (Jr 7,11). E Jesus, tomado do zelo que o devora interiormente, purifica o Templo, e tal gesto contribuirá para sua condenação à morte.

Ele chega de forma diferente, decepcionando os sonhos de poder de muitos de seus contemporâneos. Sua presença quer conduzir as pessoas do Templo edificado com tanto esforço ao novo Templo, o novo lugar que é ele mesmo, onde acontece o verdadeiro culto ao Pai do Céu. Jesus não destrói o Templo, antes o respeita profundamente, e com palavras duras e fortes que inaugurar um novo Templo e um novo Tempo!

É bom perguntar-nos se os vendilhões do Templo não existem ainda sob outras formas! Pode acontecer que também nós frequentemos o lugar sagrado apenas pelos nossos interesses individualistas, mesmo que seja a busca da salvação, sem descobri-lo como lugar de comunhão e gratuidade entre Deus e as pessoas que professam a fé! Deixemo-nos purificar! Nós cristãos professamos a fé no Cristo Morto e Ressuscitado. Com a fé, nossa vida tem uma meta a ser alcançada, impedindo-nos de sermos afogados pelos acontecimentos positivos ou negativos. Nosso olhar se volta para a plenitude do amor de Deus, acendendo continuamente a luz da esperança.

Com esta fé, passamos pelo mundo fazendo o bem, acreditando que é possível restaurar vidas e superar as muitas dilacerações existentes na sociedade. Para tanto, somos chamados a algumas atitudes e gestos. Para nós, a maldade não tem a última palavra em quem quer que seja. Olhamos para as pessoas e suas crises pessoais e descobrimos aquela fagulha, para não apagar a chama que fumega, pois no nome de Jesus as nações podem depositar a esperança (Cf. Mt 12,15-21; Is 42,1-4). No dia a dia, não desperdiçamos as oportunidades para tecer novos relacionamentos com as pessoas, aproveitando os eventuais laços que poderiam impedir a caminhada para compor redes de fraternidade. Onde quer que encontremos eventuais restos de edificações destruídas, recolheremos os pedaços para realizar a profecia: “Quando o invocares, o Senhor te atenderá, e ao clamares, ele responderá: Aqui estou! Se, pois, tirares do teu meio toda espécie de opressão, o dedo que acusa e a conversa maligna, se entregares ao faminto o que mais gostarias de comer, matando a fome de um humilhado, então a tua luz brilhará nas trevas, o teu escuro será igual ao meio-dia. O Senhor te guiará todos os dias e vai satisfazer teu apetite, até no meio do deserto. Ele dará a teu corpo nova vida, e tu serás um jardim bem irrigado, mina d’água que nunca deixa de correr. E a tua gente reconstruirá as ruínas que pareciam eternas, farás subir os alicerces que atravessaram gerações, serás chamado reparador e brechas, restaurador de caminhos, para que lá se possa morar” (Is 58, 9-12).

Deixemo-nos tocar pelo chicote de cordas de Jesus, permitindo que ele nos purifique. Caia a casca do orgulho e da vaidade, que nos engana para pensarmos ser mais perfeitos do que os outros. Seja derrubado o muro de defesa que nos cerca, para sabermos que somos, sim, vulneráveis e acolhidos por Deus por pura misericórdia. Permitamos que o Senhor, com a graça de seu Espírito Santo, penetre os meandros de nossa mentalidade egoísta. Aprendamos, com a graça da Quaresma que corre, a fazer um corajoso exame de consciência, com a luz dos mandamentos da Lei de Deus, para chegarmos humildes e sinceros, ao Sacramento da Penitência. Nossas Paróquias e Comunidades cristãs aproveitem para rever o cuidado com a Casa de Deus, que são as pessoas, feitas pelo Batismo templos do Espírito Santo, mas verifiquem também o uso que fazem de suas edificações destinadas ao culto divino.

Em vista de uma boa revisão de vida, abrindo-nos à purificação proposta pela Igreja na Quaresma, para “recordar e viver” aqui está o tesouro dos mandamentos, numa bem elaborada versão proposta pelo Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (433): “Eu sou o Senhor teu Deus! Primeiro: Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas. Segundo: Não invocar o santo nome de Deus em vão. Terceiro: Santificar os Domingos e festas de guarda. Quarto: Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores. Quinto: Não matar nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo. Sexto: Guardar castidade nas palavras e nas obras. Sétimo: Não furtar nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo. Oitavo: Não levantar falsos testemunhos nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo. Nono: Guardar castidade nos pensamentos e desejos. Décimo: Não cobiçar as coisas alheias. Estes dez mandamentos resumem-se em dois que são: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”.

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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Jovens impulsionados pelos desafios da nossa sociedade https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/jovens-impulsionados-pelos-desafios-da-nossa-sociedade/ Mon, 20 Nov 2017 11:03:44 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49471 Muitos jovens esperançosos, se aventuram em exames que lhes possibilitem o acesso à Universidade. Outros, ainda jovens, concluem seus cursos e buscam o lugar na sociedade, procurando encontrar trabalho e emprego. Pelas ruas, rostos carregados da sofreguidão e passos, muitas vezes, agitados de quem procura pagar suas dívidas, comprar uma casa, recolocar-se no mercado de trabalho, ansiedades, dificuldades financeiras ou as lutas pela própria saúde e da família. Nas curvas da vida, a morte de pessoas queridas, acidentes, crises no casamento e na convivência familiar, escândalos. Para todos nós, a insegurança gerada pela violência de cada dia ou pelos desacertos administrativos que percorrem, de alto a baixo, a prática política brasileira.

E como administrar (agora é conosco) esses e outros tantos desafios que se apresentam?

Nosso tempo traz consigo perigos a serem superados pelo cristão. De um lado, uma fuga das responsabilidades que a vida oferece. Mas, é também, um risco a mundanização: fazem as pessoas mergulharem de tal forma no seu dia a dia, que perdem o rumo e a esperança. O equilíbrio se chama vigilância (Cf. Mt 25,1-13), prontidão para enfrentar com serenidade e seriedade todos os desafios, sem esquecer o Senhor e suas promessas. Também reconhecer as muitas “visitas” do Senhor, certos de que ele virá. Prontos para acolher as demoras de Deus, sabedores de que ele é o Senhor da história. A seriedade do momento presente exige preparação, prontidão, envolvimento pessoal, responsabilidade. Um dia, o Senhor virá, para consumar as bodas com a humanidade. Poderão participar da festa, as pessoas que se encontrarem preparadas. Não podem faltar a dedicação; o óleo para manter acesa a lâmpada; e para que a fé, a esperança e o amor permaneçam acesas: fidelidade e perseverança. Vamos por passos.

O que buscar?

Não esquentar a cabeça, contar de um até dez, acalmar-se, alguns até recomendam um chá de camomila! São recomendações bem populares e práticas, a serem elevadas a um nível inigualável, quando as pessoas se abrem para aquela sabedoria que vem do alto, e essa é um dom do Espírito Santo, que nos possibilita descobrir o gosto que Deus pôs nos acontecimentos alegres ou tristes. A Palavra de Deus (Sb 6,12-16) aponta para a Sabedoria resplandecente e sempre viçosa! Madrugar por ela, contemplá-la por amá-la, meditar, exercitar-se na prudência. Acolher a sabedoria que é um dom do Espírito Santo, para viver nesta terra com os critérios que vêm do alto. Há que se procurar a sabedoria, desejá-la e amá-la. Como? Na oração, na leitura da Bíblia, na partilha de nossa vida cristã, no conselho de pessoas mais experimentadas nos caminhos de Deus, saber perguntar a respeito de Sua vontade! E Ele quer sempre alguma coisa de nós, mas sempre o bem e o que constrói a vida com dignidade!

Olhar ao nosso redor, identificar as pessoas que têm o mesmo sonho de fidelidade a Deus e anseiam pelo seu Reino, gente que ama a Igreja e quer percorrer um caminho diferente, para compartilhar experiências positivas de vivência do Evangelho. São muitos os grupos de cristãos comprometidos, nas Comunidades, Paróquias e Movimentos Eclesiais que significam verdadeiros oásis, nos quais é possível rezar juntos, alimentar-se da Palavra de Deus, encontrar companhias autênticas, socorrer os que se encontram fragilizados, estabelecer parcerias inteligentes com quem quer fazer o bem. Talvez essas pessoas não falem tanto, mas agem, utilizam critérios novos, são verdadeiros tesouros escondidos a serem descobertos e valorizados. São incontáveis aquelas que tenho encontrado e aprendido a valorizar.

Vigilantes e preparados

Vigilância significa também, a coragem para tomar posições corajosas, diante da mentira e das muitas ideologias correntes. Cada pessoa, no campo que lhe é próprio, pode e deve  se perguntar, se pode fazer algo mais para defender a verdade e viver os valores do Evangelho. É hora ainda, de apelar a muitos que agora se encontram em posições importantes na sociedade e na política, a fim de que, sejam coerentes com suas raízes cristãs e católicas. Vigilância significa lutar contra o torpor e a negligência, para alcançar a meta.

A conclusão de Jesus, ao final da parábola das dez virgens, cinco previdentes e cinco imprevidentes, serve para compreendermos o que o Senhor disse, ao contar uma história ambientada numa festa de casamento: “Vigiai, pois não sabeis o dia, nem a hora” (Mt 25,13). Deus pode vir a qualquer momento da nossa vida. Todos devemos estar preparados, como as jovens virgens prudentes. Precisamos estar prontos ao serviço a sermos oferecidos a Deus e ao próximo.

Dá para rezar e até cantar: “Vigia esperando aurora, qual noiva esperando o amor, é assim que o servo espera, a vinda do seu Senhor. Ao longe, um galo vai cantar seu canto, o sol no céu vai estender seu manto, na madrugada eu estarei desperto, que já vem perto o dia do Senhor. A minha voz vai acordar meu povo, louvando a Deus, que faz o mundo novo. Não vou ligar se a madrugada é fria, que um novo dia logo vai chegar. Se é noite escura, acendo a minha tocha, dentro do peito, o sol já desabrocha, filho da luz, não vou dormir: vigio! Ao mundo frio vou levar o amor!” (Padre Jonas Abib).

Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo da Arquidiocese de Belém (PA)

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O exercício do perdão https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-exercicio-do-perdao/ Fri, 15 Sep 2017 13:23:31 +0000 http://teste.toqueto.com/o-exercicio-do-perdao.html O rancor, a vingança, a denúncia agressiva, a delação e todo tipo de acusações, as guerras, a violência urbana e rural, tudo se espalha pela terra até os nossos dias. É impressionante como a maldade mostra suas garras, até em nome da defesa de valores morais e sociais, mas sempre usando as armas erradas que, ao pretenderem vencer o mal, destroem as pessoas, sua fama e dignidade. Parece que as lições do Evangelho, assim como outras magníficas indicações vindas inclusive de outras tradições religiosas encontram ouvido de mercador, aquele que não presta atenção em nada além dos próprios interesses, no coração da humanidade. Trata-se de uma luta renhida em que o egoísmo domina as relações entre as pessoas, as comunidades e as nações. Pensemos em nosso país e na verdadeira luta livre entre grupos e tendências, com a torcida de tantos que se alegram ao ver a queda dos adversários! Ao mesmo tempo, espalha-se um relaxamento moral, com afrouxamento das consciências e a inversão de uma adequada ordem de valores, capaz de organizar a convivência humana.

Não se trata de uma descrição pessimista da realidade, mas quer ser uma chamada de atenção a todos nós, esquecidos que estamos de alguns princípios básicos e restauradores dos laços entre as pessoas. Justamente neste período a Liturgia da Igreja oferece aos fiéis o discurso de Jesus a respeito da vida Comunitária (Mt 18, 1-35), estabelecendo os parâmetros para a convivência decorrente da nova Aliança, que se realiza em seu Mistério Pascal de Morte e Ressurreição.

Para ajudar nossa memória, já no final do primeiro século, os cristãos vindos do judaísmo, após o grande desastre da destruição de Jerusalém pelos romanos, tiveram vários problemas para a reconciliação entre pessoas da mesma raça na Síria e na Palestina, áreas que até hoje vivem focos de incompreensão e dificuldades para a convivência. O texto do Evangelho de São Mateus foi escrito com este pano de fundo, ajudando no processo de aproximação entre as pessoas, superando preconceitos e encaminhando a prática de um segredo próprio dos cristãos, o perdão.

Nosso amigo Simão Pedro apresenta a Jesus uma pergunta a respeito do perdão. Sete vezes já era muito, um número que significa perfeição. A resposta de Jesus mostra que não existe proporção entre o perdão que recebemos de Deus e o nosso perdão ao próximo. E Jesus conta a parábola do perdão sem limites! (Mt 18, 21-35)

Quando Jesus fala do rei, pensa no Pai do Céu. A dívida era incomensurável, absurda. O servo promete pagar, mas nunca seria capaz de recolher cento e sessenta e quatro toneladas de ouro. É verdade, olhando para Deus, nunca seremos capazes de acertar o nosso débito! Depois o mesmo servo não é capaz de perdoar uma ínfima dívida correspondente a trinta gramas de ouro. É como comparar um grão de areia com uma montanha! O contraste fala por si. A parábola continua, com a moral da história: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18,35). De fato, o único limite à gratuidade da misericórdia de Deus que nos perdoa sempre, é nossa recusa de perdoar os irmãos.

A avalanche de maldade e agressão que nos referimos pode e deve encontrar uma saída. A reconciliação entre pessoas e povos precisa urgentemente encontrar um lugar no coração humano. Começa com uma purificação interior, desarmamento moral de quem escolhe o caminho do bem e não a maldade. Só escolhendo Deus como Senhor de nossas vidas pode acontecer esta mudança, pois só Ele nos habilita, com sua graça, no caminho da reconciliação. Depois, faz-se necessário acreditar que existe o bem nas outras pessoas que agem ou pensam de modo diferente do nosso. Quem se considera dono da verdade e vê os outros como inimigos ou adversários não empreenderá o caminho da reconciliação e da paz. Em seguida, o perdão sem limites começa nos pequenos gestos de perdão e de superação de resistências e antipatias, que bloqueiam nosso contato com os outros. Se o perdão foi feito para a gente pedir, tomar a iniciativa, indo ao encontro dos outros, milhares de vezes, sempre. Pedir perdão desmonta toda cara feia, toda maldade enrustida no coração. Mas é fundamental saber dar este perdão aos outros, não se fechar nos próprios sentimentos feridos pela maldade reinante no coração dos outros e no nosso. Para perdoar sempre e sem limites, será necessário construir pontes entre os diferentes, feitas de gestos e palavras.

Há poucos dias, assim se expressou o Papa Francisco, na visita à Colômbia: “Jesus pede-nos para rezarmos juntos; que a nossa oração seja sinfônica, com matizes pessoais, acentuações diferentes, mas que se erga de maneira concorde num único grito. Estou certo de que hoje rezamos juntos pelo resgate daqueles que erraram e não pela sua destruição, pela justiça e não pela vingança, pela reparação na verdade e não no seu esquecimento. Rezamos para cumprir o lema desta visita: ‘Demos o primeiro passo’, e que este primeiro passo seja numa direção comum… Ele sempre nos pede para darmos um passo decidido e seguro rumo aos irmãos, renunciando à pretensão de sermos perdoados sem perdoar, de sermos amados sem amar. Dar um passo nesta direção, que é a do bem comum, da equidade, da justiça, do respeito pela natureza humana e as suas exigências. Só se ajudarmos a desatar os nós da violência, é que desmontaremos a complexa teia dos conflitos: é-nos pedido para darmos o passo do encontro com os irmãos, tendo a coragem duma correção que não quer expulsar mas integrar; é-nos pedido para sermos caridosamente firmes naquilo que não é negociável; em suma, a exigência é construir a paz ‘falando, não com a língua, mas com as mãos e as obras’ (São Pedro Claver), e juntos erguermos os olhos ao céu: Jesus Cristo é capaz de desatar aquilo que nos parecia impossível; Ele prometeu acompanhar-nos até ao fim dos tempos, e não deixará estéril um esforço tão grande” (Homilia do Papa Francisco em Cartagena, Colômbia).

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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A igreja e os tempos atuais https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-igreja-e-os-tempos-atuais/ Fri, 08 Sep 2017 09:38:21 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=48332 “A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (Cf. Mc 16,15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium 1). A atualidade das palavras da “Lumen Gentium” mostra a lucidez com que os padres conciliares, certamente conduzidos pelo Espírito Santo, abriram as portas da consciência eclesial, a fim de que, inserida num mundo altamente provocante e desafiador, a Igreja com ele dialogue, seja sinal de Deus e fermente com a força do Evangelho todas as realidades humanas.

Entretanto, uma questão pode ser colocada com pertinência a respeito da face da Igreja a ser apresentada à humanidade de hoje. Já não vivemos em época de cristandade, quem sabe, sonhada por muitos grupos e pessoas, a pensar numa sociedade totalmente submissa às normas do Evangelho, inclusive com o controle das estruturas sociais e políticas. O pluralismo reinante é provocante à nossa qualidade de testemunho, de forma a ouvir a todos, dialogar, compartilhar, estabelecer pontes, descobrir as sementes do Verbo de Deus que o Espírito Santo plantou em todas as partes e culturas. Não se trata de renunciar à nossa profissão de fé, até porque só pode dialogar verdadeiramente quem tem clareza a respeito de suas convicções e sabe lutar por elas, sem negar o direito dos outros a um modo diferente para enxergar a realidade. Há elementos novos, técnicas de comunicação surgidas em nosso tempo e que antes eram inimagináveis. A “aldeia global” de que se falava há alguns anos já se tornou menor ainda, para ser imensa. É a nossa casa! E nela há de tudo, sugerindo um processo de discernimento a ser assumido com muita lucidez.

A imagem do templo, quem sabe, a do mosteiro ou do convento, ou o lugar recolhido no qual não somos “incomodados”, ou a Igreja comprometida com os poderes do mundo, ou apenas com uma estrutura clerical, tudo isso entra em crise, se não nos abrimos para as perspectivas proféticas do Concílio Vaticano II, hoje atualizadas, com o magistério dos pontífices que magnífica e providencialmente têm conduzido a Igreja. Ouvimos o Papa Francisco falar de Igreja em saída, cultura do encontro, misericórdia, de Deus que não se cansa de perdoar! Somos chamados a ir ao encontro das chagas existentes nas famílias e na sociedade, mantendo-nos fiéis aos princípios do Evangelho e à doutrina moral da Igreja, mas debruçando-nos com compreensão e bondade sobre a vida concreta das pessoas, para ajudar o mundo a se elevar à dignidade por ele mesmo impensada, pois nascida do amor infinito da Santíssima Trindade.

Nosso Senhor, no belíssimo discurso a respeito da vida em Comunidade (Mt 18, 1-35), indica perfis de grande atualidade para a presença da Igreja em nosso tempo, chamada a ser sal, luz e fermento dos valores do Reino de Deus.

A face da Igreja a ser apresentada será sempre a da misericórdia e do perdão. O Senhor apresenta até um roteiro para a correção da pessoa que erra, e infelizmente, nem sempre somos fiéis a estes passos. Primeiro a correção em particular, a sós. Depois, a ajuda de duas ou três testemunhas, em seguida a Igreja, Comunidade de fé. Só então se pode dizer que a pessoa fica fora do relacionamento eclesial e, digamos com clareza, porque ela mesma se recusou, não lhe faltando todas as oportunidades. Há muitas pessoas sedentas de serem tratadas com tanta delicadeza e paciência!

A terra e o Céu estão unidos! Impressionante a condescendência divina, quando Jesus une o discernimento, o perdão ou sua recusa, nada menos do que a seres humanos, como são os apóstolos e seus sucessores. De um lado, a grandeza e o risco do próprio Cristo! De outro, a responsabilidade dos ministros do Perdão e das Comunidades chamadas a testemunhar a reconciliação!

E o Evangelho nos conduz a uma presença de Jesus realmente revolucionária. Ele está presente verdadeiramente entre aqueles que se reúnem em seu nome. Não tanto dois ou mais santos, ou justos, ou melhores do que os outros. A tônica está no “acordo”, decidir-se a estar unidos em seu nome, o que significa amar-se mutuamente, prontos a dar a vida uns pelos outros! Afinal de contas, em outro lugar o Senhor afirmou que “nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

Podem as pessoas levantar perguntas sobre a doutrina, outras vezes não aceitarão nossos ritos litúrgicos, farão mil perguntas sobre a pregação que lhes é oferecida, ficarão escandalizadas com a forma com que os bens da Igreja forem administrados ou com os erros e pecados dos cristãos. Entretanto, a força do amor recíproco, com a presença de Jesus em nosso meio, que depois se desdobra na oração que vem como fruto deste consenso da caridade, esta é, sem dúvida, uma face brilhante e resplandecente da Igreja a ser oferecida em nosso tempo. Ela será a porta para a compreensão de todas as outras realidades. De fato, Ele está no meio de nós!

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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Paternidade e vocação https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/paternidade-e-vocacao/ Mon, 14 Aug 2017 10:26:19 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=47882 “A mentalidade contemporânea, talvez mais do que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica, nunca antes verificado na história, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou, que parece não deixar espaço para a misericórdia. Assim, o mundo atual apresenta-se poderoso e débil, capaz do melhor e do pior; abre-se na sua frente o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio. Além disso, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças que suscitou, as quais tanto o podem esmagar como servir. A verdade revelada por Cristo a respeito de Deus ‘Pai das misericórdias’, permite-nos ‘vê-lo’ particularmente próximo do homem, sobretudo quando este sofre, quando é ameaçado no próprio coração da sua existência e da sua dignidade. Por este motivo, muitos homens e muitos ambientes, voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a misericórdia de Deus. São impelidos a fazê-lo certamente pelo próprio Cristo, o qual, mediante o seu Espírito, continua operante no íntimo dos corações humanos (Cf. Dives in Misericordia, 2 – São João Paulo II).

Frequentemente ainda se encontram vestígios de uma mentalidade pouco a pouco superada, que identificava o sexo masculino com a dureza, fechamento, agressividade. Por isso, muitas pessoas ainda repetem que coração, lágrimas, sentimentos, manifestações de afeto, tudo seria próprio do mundo feminino, tanto que “homem não chora”. Ao contrário, nossa fé cristã sempre acolheu a revelação de Deus como Pai, e Pai misericordioso, que se comove, vai ao encontro da ovelha perdida ou do filho extraviado. E Deus se parece com aquela mulher que busca a moeda perdida e faz festa ao encontrá-la. E no Céu, há imensa alegria por um só pecador que se converte! Céu é alegria, emoção, acolhimento, ternura.

Por ocasião do dia dos pais, proponho uma reflexão a respeito da vocação masculina à paternidade. Sim, vocação, chamado de Deus a ser discernido no correr da vida, lugar a ser descoberto na Igreja e na sociedade. O homem tem na sua configuração fisiológica e emocional o apelo à ação, saída de si, iniciativa, decisão e capacidade generativa. Tomar posse de tais características pede uma resposta da parte da pessoa que a recebeu como dom de Deus. E atrás dos dons concedidos, existe alguém que chama, convoca com liberdade criativa, concedendo as capacidades necessárias ao exercício de vocação.

Assim como em outras vocações, há que se responder e buscar o aprendizado necessário ao exercício da missão confiada. Ninguém nasce sabendo ser pai, e não se pode improvisar tal tarefa. O chamado pede responsabilidade, exige discernimento, para que o homem não seja um reprodutor qualquer, mas efetivamente pai. E aqui eu me reporto aos inúmeros pais de verdade que conheço, cujo diálogo com os filhos pode tornar-se a melhor escola para os que vierem assumir tal vocação. Faz-se necessário criar espaços de partilha de experiências. Contar com humor aliado à seriedade necessária em assuntos de tamanha importância pode ser mais decisivo do que muitas palestras ou aulas!

Neste sentido, nossas famílias poderiam recuperar as conversas em torno da mesa. Não se trata de reuniões formais, mas da capacidade de “puxar assunto”. Aproveito a oportunidade para sugerir menos celulares ou redes sociais em casa, mais conversas, mais olho no olho, escuta, partilha das lutas, sucessos e insucessos!

A vocação masculina à paternidade pode refletir a figura do Pai do Céu. Ele é criativo, fez tudo a partir de uma decisão de amor. Nós o professamos “Criador do céu e da terra”. No Eterno Pai, os homens se sintam convocados a inventar soluções para os problemas. Não se rendam diante dos obstáculos, mas enfrentem os desafios. “Falando baixinho”, só para os homens escutarem, há muitas mulheres que têm assumido funções que, por vocação, poderiam ser por eles exercidas, tornando-se assim modelos exemplares!

O Pai do Céu ensina presença e a responsabilidade. O Pai, que trabalha sempre, no dizer de seu Filho Jesus (Cf. Jo 5,17), assume a responsabilidade pela sua obra. E aqui surge a homenagem às horas de trabalho incansável, suor, cansaço, dedicação dos pais de família, figuras exuberantes que remetem ao Criador, no belíssimo hino da criação, expresso no Livro do Gênesis.

O exercício da paternidade traz consigo um imenso desafio, quando ao lado das mães, os pais descobrem que não geram filhos para si mesmos, mas para a Igreja e para a sociedade. Não são proprietários dos que por eles foram postos no mundo. Como sabem que os filhos são pessoas autônomas, muito cedo descobrem o mistério de sua liberdade! É que Deus não fez cópias, mas concedeu ao homem e à mulher a participação em sua obra. E desde o início, as primeiras páginas da Bíblia o mostraram. É com Deus que os pais aprendem a respeitar a individualidade de seus filhos, a riqueza dos dons diferentes que lhes foram concedidos, os caminhos a serem percorridos, não como cópias dos genitores, mas os filhos e filhas também tocados pelo amor que vem de Deus, com o qual precisam descobrir a grandeza da própria vocação.

A CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, propôs “Família, uma luz para a vida em sociedade”, como tema da Semana da Família de 2017. E a Semana da Família começa no dia dos pais, estendendo durante os dias que se seguem, uma série de reflexões e atividades, destinadas a valorizar a presença da família, correspondente ao projeto de Deus expresso na Sagrada Escritura e na Doutrina da Igreja, como dom precioso a todos os homens e mulheres e à sociedade.

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo de Belém do Pará

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Semear o bem https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/semear-o-bem/ Mon, 17 Jul 2017 10:28:47 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=47450 Certa feita, Jesus saiu de casa, onde se encontrava, em Cafarnaum, entrou numa barca, sentou-se para contar suas parábolas. Pode-se imaginar a beleza da paisagem! Nas margens do mesmo Lago, que chamavam de Mar da Galileia, havia chamado seus primeiros discípulos. Do outro lado, pode-se ver a terra dos pagãos. Água, multidão, terra, vizinhança dos pagãos, tudo contribui para que o tema do Reino de Deus seja anunciado, abrindo os horizontes aos seus discípulos de então e os que viriam, no correr dos séculos, entre os quais estamos nós. Podemos, então, encontrar o nosso lugar no meio da multidão, para escutar uma das mais belas parábolas do Evangelho, a história do Semeador. E, se somos discípulos, podemos apostar nas explicações dadas pelo Mestre, aplicando-as à nossa vida, sem deixar cair pela estrada nenhuma de suas palavras!

“Vós, portanto, ouvi o significado da parábola do semeador. A todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração; esse é o grão que foi semeado à beira do caminho.  O que foi semeado nas pedras é quem ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega tribulação ou perseguição por causa da palavra, ele desiste logo. O que foi semeado no meio dos espinhos é quem ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele fica sem fruto. O que foi semeado em terra boa é quem ouve a palavra e a entende; este produz fruto: um cem, outro sessenta e outro trinta” (Mt 13,18-23).

Ouvir, compreender e produzir fruto! Os primeiros escutam a Palavra e não a compreendem. Um segundo grupo ouviu com alegria, mas faltam raízes, de modo que, pelas dificuldades da vida e as perseguições, acabam desistindo. As preocupações do mundo e a ilusão da riqueza também podem impedir os frutos. Enfim, ouvir, compreender e produzir fruto é o grande desafio para o crescimento do Reino de Deus.

Jesus saiu de casa para as margens do lago. Sua cátedra é um barco, sua linguagem recolhe a simplicidade dos acontecimentos. Ele mesmo é o Semeador que sai pelo mundo a espalhar a boa semente do Reino de Deus. A nós foram oferecidas duas posições diante da parábola do Semeador: de um lado, somos estrada, terreno, caminho, espinhos, preocupações, terra boa. À nossa liberdade Deus entrega a grande responsabilidade de reagir de forma coerente. Por outra parte, como os discípulos da primeira hora, também a nós cabe “sair”, como o Senhor que sai de casa ou o Semeador que sai a espalhar suas sementes. Não nos é possível ficar acomodados, pensando que tudo já está feito e as estruturas do Reino de Deus e de sua Igreja são estáveis e prontas para todos os desafios. A parábola, se bem entendida, tem o condão para desacomodar todos os cristãos. Alguns passos emergem da luz da Parábola do Semeador!

Diante de todas as dificuldades, chamem-se elas pedras, preocupações do mundo, ilusão da riqueza, superficialidade, o primeiro apelo da parábola é acreditar na qualidade da semente lançada por Deus. Fora do amor e da bondade, Deus é absolutamente incapaz! Sim, Ele só sabe fazer o bem, só pode plantar boas coisas em nós a no mundo. Deus é bom, belo e verdadeiro! Não somos seus proprietários, mas filhos e filhas, tendo à disposição toda uma reserva do bem infinito, da qual podemos beber água pura!

Os discípulos de hoje podem e devem fazer perguntas ao Senhor! Ele não foge das inquietações que tomam conta de nosso coração. E sua Igreja, cuja vocação é anunciar a verdade inteira, deve estar pronta para o diálogo com tudo o que o próprio Espírito Santo suscita no coração dos seguidores de Jesus Cristo e na busca da verdade, presente em todos os corações humanos.

Se a boa semente é semeada, é óbvio perguntar-nos a respeito do acolhimento da Palavra semeada. É hora de corrigir com prontidão a inconstância diante das dificuldades, a negligência, a preguiça, as preocupações cotidianas e a ansiedade, que nos tira a paz.

Depois, a Igreja e cada cristão hão de se colocar diante do empenho da evangelização. Trata-se de saber comunicar de maneira nova e eficaz, com todos os meios lícitos e dignos, na linguagem adequada, com franqueza, coerência decorrente do testemunho autêntico. Precisamos de evangelizadores confiáveis e incansáveis, que não se deixem vencer pelos obstáculos. O Evangelho se espalhou primeiro num mundo pagão, e a Boa Nova se fez presente e atuante. O nosso mundo, eivado de relativismo e indiferentismo, pode ser vencido pela força do Senhor Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado, que envia sempre o seu Espírito Santo, para que tenhamos no coração o mesmo ardor dos primeiros discípulos e a coragem dos santos e dos mártires.

Entretanto, há um trabalho artesanal a ser assumido por todos os cristãos e cada um, feito de testemunho, presença, coragem. Trata-se de semear o bem, onde quer que estejamos. Dizer um bom dia com sinceridade, agradecer, sorrir para as pessoas, colocar em relevo o bem que as pessoas fazem, elogiar, saber corrigir com delicadeza e por causa de Deus.

Vale ainda observar que a avalanche de pessimismo reinante, quando não vemos uma luz no fundo do túnel de nossa realidade social e política, começar a recolher os “caquinhos” dos atos de amor e disposição para o serviço existentes em torno a nós, para colocar à disposição de Deus, que pode, e só Ele, construir um mosaico, uma verdadeira obra de arte, com tudo o que lhe oferecemos. Rezemos com a Igreja: Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que erram, para retomarem o bom caminho, dai a todos os que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo que é digno deste nome!

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo  de Belém do Pará

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