Dom Adelar Baruffi - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Tue, 07 Apr 2020 19:16:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Dom Adelar Baruffi - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 Ele vive e nos quer vivos https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/ele-vive-e-nos-quer-vivos/ Tue, 07 Apr 2020 19:16:59 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=58143 A ressurreição do Crucificado, que celebramos na liturgia da Páscoa, é a absoluta novidade do cristianismo. Aquele que foi injustamente condenado, morto como um maldito no madeiro, “desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos” (Is 53,3), Deus Pai o ressuscitou e Ele vive para sempre. “Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes” (At, 2,36). Vale dizer que não somente sua ressurreição é a grande novidade, mas exatamente porque foi aquele que fora crucificado, de tal modo que é apropriado olhar sempre para o Crucificado-Ressuscitado, inseparavelmente. No Mistério Pascal, Ele recapitula em si tudo o que existe, reconcilia a humanidade e o cosmos, pois nele Deus quis “reconciliar consigo todas as coisas” (Cl 1,20).

Qual nossa melhor atitude diante desta novidade absoluta? Alegria e gratidão diante de tão grande dom. Nós somos beneficiados por esta imensa graça e somos filhos de Deus pelo nosso batismo, acolhidos e perdoados. Somos ungidos para vivermos nele e portadores desta alegria da ressurreição como o sentido último de nossas vidas e de tudo o que fazemos. Às vezes, sentimos dificuldades de perceber e vivenciar sua presença constante no cotidiano, em meio a tantos sinais de morte e convites à indiferença. Não estamos órfãos e entregues à própria sorte. Alguém é por nós. E isto faz toda diferença. E mais, o Ressuscitado está no cotidiano: vai onde estão os apóstolos, acompanha seus desânimos e sua missão. Esta presença do Ressuscitado dá qualidade humana e evangélica a tudo o que fazemos, promete vida plena. Uma vida sem Deus é como uma árvore envelhecida, que aparentemente está bela e frondosa, mas sua seiva vai definhando e corroendo seu interior, comprometendo seus frutos. O Ressuscitado se contrapõe à “noite”, é “luz”.

A consequência principal na espiritualidade do nosso cotidiano é a certeza que somos suas testemunhas como Jesus pediu: “recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas” (At 1,8). O fim último de todo o viver é a vida plena em Deus. A vida não termina aqui, mas continua em Deus, pois como Cristo ressuscitou, nós também haveremos de ressuscitar. Jesus Cristo ressuscitou como “primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,20). A ressurreição do Crucificado nos ensina a manter nossos “corações ao alto”. Este anúncio é deveras essencial e fundamental hoje, na sociedade cada vez mais secularizada.

Enfim, a espiritualidade pascal não é sinônimo de euforia, mas remete nosso olhar para a cruz e, junto com ela, o sofrimento de tantos irmãos. Sabemos que o sofrimento está na vida humana, mas para quem crê, no Crucificado temos um sinal de esperança. Ao ressuscitar o Filho, Deus Pai confirma toda a vida e ação de Jesus. Sua humanidade é modelo para nossa vida sempre. Ao ressuscitar o Filho, Deus confirma sua vida, suas palavras, sua misericórdia. A ressurreição deu um atestado de credibilidade, que o evangelho vivido e anunciado pelo Nazareno é verdadeiro. Mesmo que, muitas vezes, suas palavras foram duras (cf. Jo 6,61), elas são fonte de vida. Nele se tornou visível a nós o caminho de uma humanidade feliz pela proximidade com cada pessoa, sobretudo com os sofredores. Por isso, a Páscoa não é somente um tempo isolado do ano, mas um modo de viver com Cristo, com sua presença, com sua esperança, todos os dias de nossa vida. A Páscoa anuncia o Cristo vivo sempre. Somos portadores desta vida nova, da luz da esperança aos sofredores de hoje.

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

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Ressuscitou e está sempre conosco https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/ressuscitou-e-esta-sempre-conosco/ Mon, 22 Apr 2019 19:44:09 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=54573 O sentimento da orfandade, da solidão e do abandono expressos por Jesus, o homem das dores, no alto da cruz, continua a ecoar em tantas situações humanas de sofrimento: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46). Pedem de nós uma solidariedade e uma proximidade misericordiosa. Seria esta a condição humana, condenado a sofrer? É isto o que está no coração de Deus? Fica Ele meramente assistindo impassível o desenrolar das maldades? Não, há uma resposta definitiva: o Crucificado é o Ressuscitado. Ele vive. Ele está sempre conosco. A luz da ressurreição de Cristo e o sopro de vida do seu Espírito são infinitamente maiores do que qualquer violência e mal humanos. Por isso, o contraponto do grito de dor na cruz é a presença do Ressuscitado diante do Pai, como canta a antífona do domingo de Páscoa: “Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo” e as palavras do Ressuscitado quando se apresenta aos seus: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Ele está vivo diante do Pai e conosco!

A certeza da presença do Crucificado como o Ressuscitado, vivo, é fonte de esperança. O ser humano nunca está sozinho. Ele não somente deixou um exemplo para toda humanidade, mas ao assumir a condição humana recapitulou em si toda a criação. Ao celebrarmos a Páscoa do Senhor, reafirmamos a certeza que no nosso cotidiano, com suas alegrias e dramas, temos uma companhia. Se abrirmos os olhos da fé, reconheceremos sua presença. Ele se interessa por nós. Aos seus discípulos, medrosos, diz: “Por que estais preocupados e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (Lc 24,39).

Mas, também, ao ressuscitar o Filho, Deus confirma sua vida, suas palavras, sua misericórdia. A ressurreição deu um atestado de credibilidade, que o evangelho vivido e anunciado pelo Nazareno é verdadeiro. Mesmo que, muitas vezes, suas palavras foram duras (cf. Jo 6,61), elas são fonte de vida. Nele se tornou visível a nós o caminho de uma humanidade feliz. Por isso, São João, anuncia: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam da Palavra da Vida, […] isto que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,1-3). Esta vida nova em Cristo, com sua companhia, é a certeza que carregamos conosco para não sucumbirmos diante de um caminho com tantas provações. Afinal, Jesus nos mostrou que o seu seguimento se dá na “cruz de cada dia” (Mt 16,24) e na fidelidade diante das provações.

A experiência cristã da Páscoa, que na Vigília Pascal é cantada como “noite da alegria verdadeira” (Exultet), nos qualifica como testemunhas do Ressuscitado. Logo que o Ressuscitado aparece, após confirmar a fé dos discípulos, envia-os em missão. A vida de ressuscitados com Cristo, pelo nosso batismo, não é ainda a consumação de todas as coisas em Deus. Somos portadores desta vida nova, da luz da esperança aos sofredores de hoje. Levemos a luz do Ressuscitado a todas as trevas do pecado, da exploração das crianças, dos migrantes, dos que não encontram um sentido para viver, da violência que mata mais que uma guerra em nosso país! Esta é nossa missão. Mas não estamos sozinhos, pois o Ressuscitado disse: “Ele vai à vossa frente na Galileia; lá o vereis como vos disse” (Mc 15,7).

Desejo a todos os diocesanos que a luz da Ressurreição de Cristo reanime nossa fé e esperança, infunda alegria em todas as famílias e confirme nosso testemunho cristão. Feliz e abençoada Páscoa do Crucificado-Ressuscitado.

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

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Deus infinito e próximo https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/deus-infinito-e-proximo/ Thu, 24 May 2018 01:39:35 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=52458 Deus, em quem cremos, é Santíssima Trindade, Pai e Filho e Espírito Santo. Uno e Trino. É o mistério central de nossa fé. Mas como traduzir em linguagem humana este grande mistério de nossa fé? Os caminhos que a Teologia, a Espiritualidade e a Pastoral seguiram foram diversos. Por ser grande e infinito podemos imaginá-lo como inacessível ou,por ser tão próximo, o tornamos “explicável” e o reduzimos à nossa pobre compreensão humana.

Deus é sempre maior! Ele extrapola nossa linguagem humana. Ele é o Transcendente, dizemos. Nunca pode ser enquadrado e contido por uma doutrina. Se pudermos dizer algo dele é porque “aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1,9)” (DV 2). É por sua vontade que sai do silêncio para se comunicar. Em nossa vida cristã, sem dúvidas, podemos “experimentar” a presença de Deus, seu amor, sua misericórdia, sua salvação, sua bondade, sua constante providência, etc..Mas, também, Ele é o Totalmente Outro, que mora numa luz inacessível (1Tm 6,16). Por isso é mistério. Dizia Santo Agostinho: “Por mais altos que sejam os voos do pensamento, Deus está ainda para além. Se compreendeste, não é Deus. Se imaginaste compreender, compreendeste não Deus, mas apenas uma representação de Deus. Se tens a impressão de tê-lo quase compreendido, então foste enganado por tua reflexão” (Sermão 52, n. 16: PL 38, 360).

Mas nossa fé cristã nos ensina um caminho para nos aproximarmos de Deus: Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Verbo Encarnado. “Mediante esta revelação, portanto o Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), levado por Seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15), e com eles se entretém (cf. Br 3,38) para os convidar à comunhão consigo e nela os receber” (DV 2). Jesus Cristo é O Caminho que mostra-nos a face de Deus. “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9), disse Jesus a Felipe. Em Jesus, Deus se abaixa, se faz um de nós, sem deixar de ser Deus. Ele nos visitou e nos visita constantemente. Por isso, temos acesso a Ele. O critério central para saber se a imagem que temos de Deus é cristã passa pela vida e ensinamento de Jesus Cristo, nos evangelhos e na Tradição da Igreja. Por isto, é falsa a ideia de que Deus é o mesmo para todas as tradições religiosas. Isto porque embora seja sempre o único, a compreensão que as diferentes religiões, filosofias e doutrinas têm se diferenciam. A liberdade religiosa e o respeito pelas opções de cada um pedem que compreendamos os diferentes modos como cada tradição o concebe, pois as consequências no nosso cotidiano são grandes. Por exemplo, se levamos a sério que Deus é misericórdia, como nos ensinam os evangelhos, temos que aceitar sua graça e a salvação que Ele nos oferece. Consequentemente, devemos conduzir nosso agir nos critérios da misericórdia com nossos irmãos, como resposta de gratidão a Deus e nunca em benefício próprio.

Nele nos movemos e existimos» (At 17,28). Estamos sempre ligados a Ele, como os ramos ao tronco (cf. Jo 15, 1-8). Nós somos imagem de Deus, que é Amor. Se, pelo nosso batismo, vivemos nele e d´Ele, vivemos pelo amor para amar. “O ser humano traz em seu “genoma” o vestígio profundo da Trindade, de Deus-Amor” (Bento XVI, 07/06/2009). Nesta dinâmica do amor de Deus é que somos envolvidos, antes mesmo de nosso nascimento, e acompanhados em toda nossa vida (cf. Mt 28, 20). Neste amor trinitário encontramos o fundamento de nossa existência e a razão de nosso agir. Portanto, somente quem sabe amar pode compreender e dizer algo de Deus, infinito e tão próximo.

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

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Cristo, nossa Páscoa e nossa Paz https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/cristo-nossa-pascoa-e-nossa-paz/ Wed, 28 Mar 2018 08:42:16 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=51470 A violência cria um muro de separação entre “nós” e “os outros”. Será isto o que Deus quer para a humanidade? Claro que não! “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), disse Jesus. A grande notícia que celebramos no tríduo pascal (Paixão-Morte-Ressurreição de Jesus Cristo) é que Ele “quis criar em si mesmo um homem novo, estabelecendo a paz” (Ef 2,15). Sim, “Cristo é a nossa paz” (Ef 2,14). São Paulo explica que esta paz é fruto da cruz de Jesus Cristo: “Quis reconciliá-los (judeus e pagãos) com Deus num só corpo, por meio da cruz; foi nela que Cristo matou o ódio” (Ef 2,16). A cruz de Cristo é fonte de paz para a humanidade, pois nela o ódio foi morto! Jesus nos ensinou, por todo seu sofrimento inocente, que o único remédio para superar o ódio é o amor.Anunciamos a esperança de um modo de viver diferente, pois em Cristo o bem é infinitamente maior do que o mal, por mais terrível que se apresente. A Páscoa nos convoca a vivermos como pessoas novas, reconciliadas, pacificadas e pacificadoras.

Nos dias da Semana Santa, sobretudo na Sexta-feira da Paixão, mais uma vez, os católicos ouvem os relatos da violência que se desencadeou sobre o inocente, o “Servo Sofredor” (cf. Is 52,13-53,12).Neste último Cântico do Servo Sofredor, Isaías profetizou o que aconteceria a Jesus. Parece uma descrição da cena da crucificação: “Ele não tinha nem aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo” (Is 53,2). Jesus foi condenado e crucificado como nocivo para o povo. “Ela (a Luz) veio para a sua casa, mas os seus não a receberam” (Jo 1,11). A humanidade de ontem e de hoje tem dificuldade de acolher o inocente e justo. Este é o verdadeiro pecado, não acolher aquele que nos salva, que nos traz a paz. Na sua Paixão, sobre ele se abateunossas maldades. Maspelas suas chagas fomos salvos (cf. Is 53,5). Aceita estar nas mãos dos perseguidores. Não responde à violência, nem com a violência e nem com palavras. Fica em silêncio. É entregue de mão em mão, mas livremente faz sua entrega interior. Renuncia à defesa, ao direito de dizer “eu sou inocente” e mostrar a injustiça da sua paixão. Renuncia recorrer a Deus. Não pede a Deus para intervir. Silencia. Não escolhe o caminho da violência (cf. Is 53,7). Uma ovelha mansa. Como o Profeta Jeremias parece dizer: “A ti confio minha causa” (Jr 20,20). Somente um grande silêncio. Será que o mal, a violência, a injustiça, o pecado e a opressão haverão de triunfar sempre?

Mas “o meu servo vai ter sucesso” (Is 52,13). “Por meio dele, o projeto do Senhor triunfará. Pelas amarguras sofridas, ele verá a luz. […] O meu servo justo devolverá a muitos a verdadeira justiça, pois carregou o crime deles” (Is53,10.11). Sua entrega fiel e unicamente vivida no amor, recebeu do Pai a confirmação na sua Ressurreição. Ele introduziu na humanidade uma “luz”, a reconciliação com Deus, pelo perdão redentor, e a possibilidade da reconciliação como caminho de fraternidade. “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa notícia, que anuncia a salvação” (Is 52,7).

Toda vez que somos promotores da paz, permitimos que a força do Ressuscitado, que vive entre nós, triunfe e Ele continue, nos difíceis dias de hoje, a reconciliar, perdoar e pacificar. O Senhor Ressuscitado diz a todos nós, como aos seus discípulos: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Feliz e Abençoada Páscoa a todos. Cristo, nossa Páscoa, é a nossa paz!

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

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A família e seus desafios https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-familia-e-seus-desafios/ Wed, 06 Dec 2017 08:04:56 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49806 Em várias oportunidades, nos encontros pastorais, surge de pais e mães uma pergunta que me inquieta: diante de todas as mudanças que estamos assistindo na realidade familiar, como será a família de amanhã? Que sociedade e humanidade estamos construindo? Compreendo que, mais do que a resposta, trata-se da seriedade desta pergunta, diante da qual não podemos ficar indiferentes. É inquestionável que a instituição família, como outras instituições que serviram de base sólida para a formação humana, espiritual e social, estão em crise. A crise, porém,deve ser uma provação, para construir novas sínteses e avançar.Apresento dois pontos que merecem destaque ao lermos a situação atual da família.

O primeiro é o esvaziamento da base antropológica da família. Os recentes fatos ligados a exposições em museus, telenovelas e posicionamentos públicos de alguns artistas, bem como alguns conteúdos escolares, são manifestações da conhecida ideologia do gênero. Com razão, a maioria da sociedade brasileira desaprova estas posturas. Esta ideologia “nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher. Ela apresenta uma sociedade sem diferenças de sexo, esvaziando a base antropológica da família. Esta ideologia induz a projetos educativos e orientações legais que promovem uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. A identidade humana é entregue a uma opção individualista, também variável no tempo. […] Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos onipotentes” (Papa Francisco, AmorisLaetitia, n. 56). Cada pessoa, independente de sua orientação sexual, deve ser respeitada e acolhida na dignidade de criatura e imagem de Deus. Porém, outra realidade é pretender ensinar ou induzir as crianças de que elas podem escolher seu sexo. Esta é, certamente, “uma grande maldade”, fruto de uma “colonização ideológica”, no dizer do Papa.

O segundo desafio é a falta de solidez no pacto conjugal. As expressões que indicam esta situação são: “até quando houver amor” ou “até quando der certo”. Compreende-se que a sociedade líquida já não preza pelo que é permanente, fiel, eterno, por toda a vida, com doação total de si. Ligada a esta liquidez humana está a diminuição drástica da procura pelo sacramento do matrimônio. Aqui, especificamente para nós católicos, além da influência de uma cultura do descartável, revela-se uma falha na iniciação cristã. Sim, trata-se de uma questão de evangelização, diz respeito à fé. Afinal, as pessoas hoje não se sentem obrigadas a seguir “tradições”. Só procura o sacramento quem encontra seu sentido. Iniciar a família a partir do sacramento do matrimônio leva a compreender que o casal nunca estará sozinho, mas “toda a vida em comum dos esposos, toda a rede de relações que hão de tecer entre si, com os seus filhos e com o mundo, estará impregnada e robustecida pela graça do sacramento que brota do mistério da Encarnação e da Páscoa” (AmorisLaetitia, n. 54). Ao casarem-se, os esposos cristãos são um para o outro o “sinal” do amor de Deus.

Enfim, estas preocupações que envolvem a vida humana e familiar merecem nosso aprofundamento, discernimento e olhar crítico. Não deixemos que nos roubem a família!

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta (RS)

 
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O dom de si https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-dom-de-si/ Tue, 07 Nov 2017 15:34:21 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49412 Qual o segredo de uma vocação acertada e uma vida feliz? A capacidade de doar-se. O dom de si, como resposta aos apelos de Deus, o movimento de saída em direção ao outro, a superação do narcisismo e do desejo compulsivo de autorrealização, está na base de qualquer vocação. Em nossa cultura, profundamente marcada pelo individualismo, “é preciso verificar quanto as escolhas sejam ditadas pela busca da própria autorrealização narcisista e quanto ao invés incluam a disponibilidade para viver a própria existência na lógica do dom generoso de si” (Sínodo dos Bispos, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, Documento preparatório, p. 35). Com certeza, um dos elementos que pesam na escassez de vocações sacerdotais e religiosas, bem como na dificuldade de muitos casais na vida matrimonial, é este excessivo voltar-se sobre si mesmo, que torna incapaz de ver com os olhos do outro, colocar-se no seu lugar, ir além dos seus interesses.

Foi Jesus quem disse: “Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (Jo 12,24). A lógica da felicidade humana não é possuir e conquistar (postos, cargos, fama, dinheiro…), mas é um processo de saída, de descentrar-se para correr o risco de viver grandes ideais. Somente se a pessoa renunciar a pautar sua vida a partir de suas necessidades conseguirá acolher o projeto de Deus à vida familiar, ao sacerdócio, à vida consagrada e até numa profissão, em vista do bem comum. A autorrealização, querida por Deus para todos, não é algo que se busca diretamente. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado” (Mt 6,33). A generosidade na entrega é base para a felicidade.

A Sagrada Escritura está cheia de exemplos de pessoas que, acolhendo a proposta divina, se puseram a caminho. O primeiro caso típico é Abrão. Deus lhe diz “sai” e ele se move. “Vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12,1). Ainda não a conhecia, mas parte, arrisca-se, confia. O clássico exemplo é dos dois discípulos que ouviram de Jesus “Vinde e vede” (Jo 1,39). Jesus os convida a percorrer um caminho, sem ter tudo claro. Graças a esta coragem de ir e ver, os discípulos puderam ouvir sua Palavra, acompanhar seus gestos e serem seus amigos.

A entrega livre e generosa de si pede um percurso de discernimento. Parte de uma experiência de encantamento por Jesus Cristo, sua pessoa, seu Evangelho e seu projeto. Neste encontro, sempre renovado, são despertados os grandes ideais pelos quais vale a pena a doação total. Pedro diz a Jesus: “eu darei a minha vida por ti” (Jo 13,37). A fé é um elemento fundamental no discernimento vocacional. “A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir um grande chamado – a vocação ao amor – e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque seu fundamento encontra-se na fidelidade de Deus, que é mais forte do que a nossa fragilidade” (LumenFidei n. 53). O discernimento é iluminado pela Palavra de Deus. Na escuta do Espírito Santo, no diálogo com a Palavra e com as provocações da realidade deixa-se Deus falar à consciência, “onde ele está a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade” (GS 16).

O dom generoso de si faz a vida ser feliz.

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta (RS)

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Lições do Dia de Finados https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/licoes-do-dia-de-finados/ Wed, 01 Nov 2017 08:33:12 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=49310 O dia 02 de novembro, no qual comemoramos o Dia de Finados, é marcado por um rito especial: a visita aos túmulos onde foram depositados os restos mortais daqueles que fizeram parte de nossa vida e a oração por eles. O cemitério é o lugar onde os opostos convivem: o lugar é de silêncio, mas nos fala muito; tudo recorda a morte, mas, não de menos, a vida terrena e a vida eterna. A visita ao cemitério, ao mesmo tempo, fala dos que já partiram, de nós mesmos e também de Deus.

Em primeiro lugar é dia de memórias. Muitas vezes ainda é uma recordação dolorida, quando o luto ainda não foi integrado e a dor da separação ainda não foi curada. Então, cada túmulo é o ponto humano de conexão com tantas histórias, lugares, ensinamentos, alegrias e cruzes, que ainda permanecem vivas. Eles permanecem vivos na memória. Nossa oração por eles e as flores que depositamos são manifestações de nossa gratidão a Deus e a eles. Que importante ter uma memória agradecida por aqueles que nos antecederam. Continuamente, nos recordam que a história não iniciou quando nós nascemos. Eles nos precederam e nos ensinaram a viver. Por isso, alguém só morre quando ninguém se lembra mais dele.

Mas o silêncio dos que já partiram nos fala muito e fala também sobre nós, sobre nossa condição humana. Com certeza, a morte é a realidade humana que mais devemos tematizar e refletir. Nós sempre vivenciamos a morte dos outros. Mas a verdade inquestionável de nossa morte é o ponto a partir da qual lemos toda nossa vida. Embora para um mundo que preza por uma vida de fruição ilimitada a perspectiva da morte é propositalmente esquecida, no entanto, ela é certa. Aqui acabam todas as divisões sociais. A morte nos torna todos iguais. Recorda-nos a relatividade da vida terrena e a definitividade de cada dia, cada escolha, cada ato, visto que, como nos diz a Escritura, “todo homem está destinado a morrer uma só vez” (Hb 9,27). Mas, também, se formos sinceros, revela nossa mesquinhez e põe por terra todo orgulho e as pretensões humanas, como disse Jesus: “Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” (Lc 12,20). Recordar da morte nos torna humildes e responsáveis.

Enfim, o Dia de Finados nos fala de Deus, de sua misericórdia e de seu infinito amor que a todos atrai a si, no seu Filho Jesus. No seu Filho, Deus vence a morte definitivamente, quando ressuscitou-o. Na visão cristã, morremos para viver. O que nos aguarda não é o fim de tudo, nem o nada, nem um retorno à natureza, mas os braços acolhedores de Deus Pai, que nos quer consigo. É a vida eterna, estar definitivamente com Ele.Com a morte deixamos “a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor” (2Cor 5,8); “se com Ele morremos, com Ele vivemos” (2 Tm 1, 22). Disse Jesus: “hei de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também” (Jo 14, 3).

Portanto, ao recordarmos nossos queridos que já partiram, iluminados pela morte-ressurreição de Cristo, abre-se para nosso viver a esperança. O sentido para o presente vem do futuro, da promessa da vida eterna. O cristão é portador de esperança. Vale a pena ser justo, ético, caridoso, fazer o bem e viver cada dia intensamente.

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

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As lições de Aparecida https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/as-licoes-de-aparecida/ Wed, 11 Oct 2017 08:42:50 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=48955 No dia 12 de outubro o povo católico do Brasil reverencia nossa padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Este ano, com uma motivação especial, pois conclui-se o Ano Nacional Mariano, que recorda os 300 anos da devoção à Mãe Aparecida. Nossa Diocese, embora tenha como principal devoção mariana Nossa Senhora de Fátima, juntamente com todas as dioceses do Brasil, peregrinou com uma réplica da imagem da Aparecida, recebida pelo Santuário Nacional, por todas as mais de 600 comunidades que juntas formam nossa Igreja Particular. Esta missão foi confiada aos jovens das paróquias e foi um impulso na evangelização.

Quero relembrar alguns pensamentos da belíssima mensagem deixada pelo Papa Francisco aos bispos do Brasil, na Jornada Mundial da Juventude, dia 27 de julho de 2013, no Rio de Janeiro. De fato, “a Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida; não a pode esquecer”, disse o Santo Padre.

A Mãe.Em primeiro lugar, nos recorda que “em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe”. Sentimo-nos amados por ela. Em Aparecida, Maria não pronunciou palavras, mas pede para termos tempo para estar na sua companhia e contemplá-la, pois ela nos fala de Deus, da Igreja e de cada um de nós.

A pobreza. Aparecida revela a realidade do povo brasileiro de ontem e de hoje: a pobreza e os meios pobres para viver. Os pescadores são pobres. “Os homens partem sempre das suas carências, mesmo hoje.Possuem um barco frágil, inadequado; têm redes decadentes, talvez mesmo danificadas, insuficientes.Primeiro, há a labuta, talvez o cansaço, pela pesca, mas o resultado é escasso: um falimento, um insucesso. Apesar dos esforços, as redes estão vazias.”

A surpresa de Deus. Como em Aparecida, Deus nos surpreende sempre. “Ele chegou de surpresa, quem sabe quando já não o esperávamos. A paciência dos que esperam por Ele é sempre posta à prova. E Deus chegou de uma maneira nova, porque Deus é surpresa: uma imagem de barro frágil, escurecida pelas águas do rio, envelhecida também pelo tempo. Deus entra sempre nas vestes da pequenez.”

Instrumento de unidade. “O Brasil colonial estava dividido pelo muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta com a face negra, primeiro dividida, mas depois unida, nas mãos dos pescadores. […] Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer. A Igreja não pode descurar esta lição: ser instrumento de reconciliação.”

Acolhida em casa. “Depois, os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para albergar o mistério. Talvez nós tenhamos reduzido a nossa exposição do mistério a uma explicação racional; no povo, pelo contrário, o mistério entra pelo coração. Na casa dos pobres, Deus encontra sempre lugar. […] Deus faz-se levar para casa. Ele desperta no homem o desejo de guardá-lo em sua própria vida, na própria casa, em seu coração.”

 Os meios pobres. “As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, contudo, Deus quer se manifestar justamente através dos nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele que está agindo.”

Parabéns a todas as crianças pela passagem do vosso dia! Nossa Senhora Aparecida, olha para nosso povo brasileiro!

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

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O crescimento espiritual https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-crescimento-espiritual/ Fri, 29 Sep 2017 09:39:59 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=48758 Iniciação à vida cristã significa ser iniciado no modo de viver de Cristo, em conformidade com Ele. Trata-se de um caminho, que tem conteúdos específicos e uma meta: “Até que Cristo esteja formado em vocês” (Gl 4,19). Paulo indica que o caminho deve levar “ao estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude” (Ef 4,13). Um caminho que tende à maturidade do amor.

Mais importante do que atingir a meta, se trata de compreender que a partir do encontro com Jesus Cristo, sempre renovado, nos colocamos a caminho. É uma busca contínua e diária de crescimento, superando toda forma superficial e epidérmica da fé. Ninguém pode se considerar pronto, já maduro na fé, mas “enraizados nele e edificados sobre ele” (Cl 2,7), abre-se um horizonte que empenha toda a existência. “Continuo correndo para conquistá-lo, porque eu também fui conquistado por Jesus Cristo” (Fl 3, 12), diz Paulo, a partir de sua experiência pessoal.A consciência sentida de pertencer a Cristo move-nos a buscar, a “correr” para “conhecer a Cristo” (Fl 3,10). É típico de Paulo o termo “forma”, que significa o “sentir interior”. Nas ações, nos pensamentos e nos sentimentos de Paulo transparece a santidade, a “forma interior” de Jesus Cristo.

Por isso, Paulo fala de lançar-se em direção à meta (cf. Fl 3,14) “para tornar-me semelhante a ele em sua morte, a fim de alcançar, se possívela ressurreição dos mortos” (Fl 3,11). A santidade deve ser buscada com ousadia, com determinação. Precisamos ser capazes de sonhar o máximo. Não podemos nos contentar com adesões parciais e seletivas dos ensinamentos do Evangelho. A fé cristã não é um caminho separado da vida, mas engloba toda nossa existência no nível pessoal, comunitário e social. O ressuscitado que já está conosco, pelo batismo, pede, como em Paulo, para crescer sempre mais.

Importante ressaltar que este caminho não é uma mera introspecção, mas sempre um diálogo. O recolhimento interior facilita o encontro com o Ressuscitado. Isto porque a fé é resposta a Deus que vem constantemente ao nosso encontro. Neste diálogo, sempre renovado pelo encontro com a Palavra, a Eucaristia e a comunidade, o protagonista não é o fiel, mas o Espírito Santo. Não se trata de uma conquista pessoal, realizada por meio da luta interior para viver as virtudes, mas da abertura humilde à ação do Espírito Santo. Ele é o escultor que vai nos moldando à imagem do Filho, para sermos conformes a Ele. Este processo de conversão permanente encontra um auxílio importante numa comunidade de fé e, especificamente, num irmão de caminhada com quem partilhamos o projeto de vida, um orientador espiritual.

Porém, a prova definitiva da maturidade da fé é a capacidade de amar, pois “se vocês tiverem amor uns aos outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35). A capacidade de estabelecer relações fraternas, solidárias e misericordiosas são características essenciais de uma pessoa com fé madura.

Enfim, as famílias, as comunidades e a sociedade atual esperam dos batizados um compromisso verdadeiro com a fé que professamos. Somente assim, seremos “sal da terra” e “luz do mundo”.

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta (RS)

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A fé em tempos de superficialidade https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/a-fe-em-tempos-de-superficialidade/ Wed, 13 Sep 2017 10:04:58 +0000 http://teste.toqueto.com/?p=48411 Ao convidar seus discípulos para o seguimento, Jesus lhes disse: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,23-24). A fé cristã, compreendida como discipulado missionário de Jesus Cristo, concebe a vida com grandes ideais pelos quais vale a pena total doação. Porém, o modo corrente de viver não prima por esta profundidade e totalidade, mas apresenta-se marcado pela superficialidade.

As modernas tecnologias possibilitam que tenhamos muitas informações, mas pouco aprofundamento. Lê-se pouco, prefere-se imagens. No máximo, alguns pequenos textos. Tudo já vem pronto. É só procurar. Vale o útil e imediato. Temos dificuldade de viver a espera das etapas da vida. Uma característica desta superficialidade é o bombardeio de solicitações de consumo a que somos submetidos todos os dias. A lógica do consumo desenfreado deixa a pessoa eternamente insatisfeita, sempre à procura de novidades. Na ilusão de querer ter tudo o que deseja, não consegue dar a devida importância a cada coisa, a cada momento. Os tentáculos deste modo de viver superficial atinge também a fé. No nível religioso se manifesta na busca e consumo simultâneo de muitas expressões de fé, sem peso na consciência, colocando-as todas juntas e não se firmando em nenhuma delas. Também no catolicismo, basta alguém anunciar uma novidade, uma cura, um show, um lugar em que se proclamam milagres, para que haja uma grande concentração de pessoas. Com certeza, nem todas são expressões da fé cristã.

A vida cristã, porém, se constrói num caminho, na continuidade, nos processos, no empenho cotidiano para ser fiel e fazer o bem, na repetição das mesmas verdades fundamentais do Evangelho. Ela toca o profundo da pessoa humana, envolvida e acolhida por um amor incondicional de Deus, manifestado no Filho Jesus Cristo.Diante da certeza do Deus vivo, o cristão faz uma entrega de si, como resposta de gratidão a Deus que manifesta sua bondade. Nunca pode ser um comércio, uma troca de favores.Vai além da própria razão, para buscar identificar o nível dos “sentimentos”, como nos pede S. Paulo: “Tende em vós os mesmo sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fl 2,5).Também extrapola o nível pessoal, pois somente se realiza nas relações interpessoais, que se configuram a partir do encontro com Jesus Cristo. É comunitária e move a ir ao encontro para construir fraternidade.

Assim, como nos diz nosso Papa Francisco: “Os jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (LumenFidei, n. 53).

Com certeza, a fé cristã é “um caminho para superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados” (Laudato Si, n. 226). O olhar da fé nos faz viver com serenidade, dando atenção a cada pessoa, coisa eatividade. Cada momento é um dom divino, que deve ser vivido intensamente. Aceitemos o convite de Jesus: “olhai as aves do céu” […] “olhai os lírios do campo” (Mt 6, 26.28).

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta (RS)

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