Diác. Roberto César Braga - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br Site oficial da Diocese de Uruaçu - GO Tue, 25 Jan 2022 16:02:11 +0000 pt-BR hourly 1 https://old.diocesedeuruacu.com.br/wp-content/uploads/2018/12/cropped-favicon-32x32.png Diác. Roberto César Braga - Diocese de Uruaçu https://old.diocesedeuruacu.com.br 32 32 170539269 Falando de justiça no mundo moderno: as bases teóricas e orientações práticas https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/falando-de-justica-no-mundo-moderno-as-bases-teoricas-e-orientacoes-praticas/ Mon, 24 Jan 2022 15:02:48 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=62675 Na sua exortação apostólica, Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco reflete nos n. 77-79 sobre a sede e a fome como realidades inerentes ao ser vivo. Essas necessidades primárias, aponta o Pontífice, estão ligadas ao instinto natural de sobrevivência, apesar de existirem pessoas que com igual intensidade aspiram a justiça.

Consideramos que buscar a justiça, cristãmente falando, é o mesmo que buscar a santidade. Jesus nos ensina com palavras e obras a vivenciá-la em todas as suas complexas nuances, a fim de evitar os interesses mesquinhos e as armadilhas da vida corrupta. Desse modo, o homem justo é aquele que vive na verdade e em harmonia com o seu próximo e com Deus.

Existe um ordenamento no universo a que todos os que o integram estão sujeitos. Esse ordenamento corresponde à lei eterna, por meio da qual tudo ocupa o seu devido lugar e está orientado para o bem; da lei natural inscrita na natureza do sujeito; da lei divina que procede da revelação de Deus; da lei positiva, que constitui um conjunto de postulados que regulam a convivência humana em sociedade. Quando alguma dessas leis é transgredida, desajusta-se os pesos que equilibram a vida e uma desordem é originada com efeitos bastante ruins. É nesse momento que percebemos o nascimento das injustiças.

Consideramos que buscar a justiça, cristãmente falando, é o mesmo que buscar a santidade. Jesus nos ensina com palavras e obras a vivenciá-la em todas as suas complexas nuances

Como base no que expomos acima podemos afirmar: o injusto é o que foge da lei, o ganancioso e o desigual. Quando alguém quer o que é do outro, é uma pessoa ambiciosa e egoísta, e se ela emprega meios para tirar o que não é seu, torna-se injusta. Em contraposição, o justo é generoso, vive de acordo com a lei e preza pela igualdade. Quando medimos suas ações dentro da comunidade, percebemos o quanto elas engradecem os seus componentes.

Tendo estabelecido esses pressupostos, podemos traçar algumas vias pastorais para a prática da justiça evangélica no mundo moderno. Avançaremos nosso estudo seguindo as reflexões da II Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos ocorrida em 1971, que gerou o documento intitulado “A justiça no Mundo”.

O primeiro passo para a prática das bem-aventuranças é o reconhecimento de que o homem é dotado de uma dignidade própria, em virtude da sua imagem e semelhança com o seu criador (A justiça no mundo, n. 36-38). Numa sociedade moderna, com componentes justos, verdadeiramente preocupados com todos que a integram, procura-se manter sempre o respeito e a dignidade. As leis desse agrupamento, organizada pelos seus representantes políticos, devem, necessariamente, transparecer a moral e os valores fundamentais necessários para o crescimento do grupo. Quando se opta pela valorização do “ser” em vez do “ter”, dificilmente alguma ação empreendida será injusta. Portanto, é nesse ponto que podemos falar da atuação eclesial no meio social em vista da implantação do Reino de Justiça e Paz.

Num segundo momento, a Igreja desenvolveria a prática da justiça testemunhando as verdades últimas que recebeu do próprio Deus. Nesse sentido, busca com todo ânimo a conversão do homem pecador, o estabelecimento da fraternidade, e como consequência, a prática da caridade e do direito (A justiça no mundo, n. 39-41). A exigente tarefa dada aos cristãos por Jesus – evangelizar e resgatar do pecado –, deve atingir, em última instância, cada relação tecida entre um e outro indivíduo que compõe a sociedade.

Por último, ressaltamos a necessidade de uma verdadeira educação para a justiça (A justiça no mundo, n. 49). Importa ensinar nas pastorais, movimentos, os jovens e as crianças, a unidade e a solidariedade para com o próximo. Partindo de um método educativo que fomente na consciência o desejo de viver uma retidão e coerência de vida, deve-se inculcar no fiel a necessidade de dar a Deus e aos irmãos aquilo que lhes é devido (CIC § 1807). A Deus devemos nosso coração indiviso e fiel, aos homens, nosso agir honesto, honrado e sério.

Diác. Roberto César Braga
Diocese de Uruaçu

 

Referências bibliográficas:

Fracisco, Papa. Galdete et exsultate. 1ª Ed. Editora Paulus, 2018.
A justiça no mundo. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_19711130_giustizia_po.html. Acesso em 22/01/2022.
Catecismo da Igreja Católica. 1ª ed. São Paulo: Edição típica Vaticana, Loyola, 2000.

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O Evangelho de São Mateus e o sermão de Jesus na montanha https://old.diocesedeuruacu.com.br/artigos/o-evangelho-de-sao-mateus-e-o-sermao-de-jesus-na-montanha/ Tue, 21 Sep 2021 16:05:28 +0000 https://diocesedeuruacu.com.br/?p=61182 Prezados irmãos e irmãs, leitores do nosso site, a Tradição cristã concede o primeiro lugar entre os Evangelhos canônicos ao texto atribuído a São Mateus. No dia de hoje, que celebramos a sua festa, queremos discorrer sobre essa figura muito importante para a nossa fé e aprofundar parte da sua obra.

“O nome Mateus é segundo a etimologia hebraica equivalente às formas Matatias, Matias, da mesma língua, ao nome grego Teodoro, à designação latina Adeodato, que significa dom de Deus” (BETTENCOURT, 1960, pg. 90). Esse personagem notável da bíblia era cobrador de impostos, depois foi integrado ao grupo dos doze apóstolos. Passando pela cidade de Carfananum, Jesus o chama, e nos narra o texto sagrado que tendo ouvido o chamado “levantou-se e o seguiu” (Mt 9,9). Após a ressurreição, obedecendo ao mandato missional do Senhor, “ide e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19), viveu as últimas instâncias da caridade e tornou-se mártir ao derramar seu sangue na Etiópia.

Algumas evidências literárias apontam que a escrita do seu Evangelho tinha como objetivo alcançar os judeus da Palestina. Sto. Irineu, Orígenes, Eusébio, São Jerônimo e Papias de Hierápolis afirmam que esse texto foi escrito em aramaico, bastante comum entre os hebreus após o exílio babilônico. O autor pressupõe que os seus leitores conheciam a língua aramaica e os próprios costumes judaicos e a geografia da Palestina, pois alude a esses tópicos sem maiores explicações (BETTENCOURT, 1960, pg. 92).

Nesta obra, “a figura do Cristo se salienta sobre o fundo do Antigo Testamento, fazendo as vezes do novo Moisés a promulgar a Lei perfeita disposta em cinco grandes sermões monumentais” (BETTENCOURT, 1960, pg. 87), daí esse Evangelho ser chamado de Novo Pentateuco. Entre esses sermões, nos deteremos hoje naquele feito na montanha, que encontramos nos capítulos 5, 6 e 7.

O texto nos mostra logo de início Jesus ensinando em cima do monte. O monte é o púlpito de Nosso Senhor, é onde Ele se detém para ensinar com autoridade. Esta elevação deixa entrever Jesus que se revela como mestre e que ensina seus companheiros. O monte é o auditório onde Jesus prega as verdades eternas.

Um dado importante dessa prédica é a menção às bem-aventuranças. Elas nos impulsionam em direção ao nosso fim último e proporcionam uma felicidade mais perfeita. Resultam na conquista da santidade e no encontro com Deus. É bem-aventurado, segundo o Senhor, os pobres de espírito, os mansos, os que choram (pois serão consolados), os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os promotores da paz e os que são perseguidos por causa da justiça (Mt 5,3-12).

Vemos como o sermão vai se desenvolvendo numa série de declarações magistrais, que estabelecem a base do novo tempo inaugurado por Jesus. O discípulo de Cristo é chamado a agir em relação ao próximo com generosidade, retidão, simplicidade, sinceridade e amabilidade (Mt 5,21-26). Deve evitar ser severo com arrogância (Mt 7,1-5), e ser bem desconfiado de si mesmo. Em suma, temos sempre que procurar imitar nosso Pai que está no céu (B. ORCHARD; E. F. SUTCLIFFE, 1957, pp. 359-360). A ideia da Paternidade Divina perpassa todo o discurso. Somos chamados por Cristo a viver no amor filial. É o próprio Cristo quem coloca a palavra “Pai” em nossas bocas quando nos ensina a rezar (Mt 6,9).
Portanto, toda a nova moral, o caminho de conversão que Jesus aponta nesse texto, tem como fonte principal o amor. O amor pode exigir mais que o temor pode mandar. Antes, erámos orientados pela lei somente, que incutia em nossos corações o temor e o medo das punições para os que a transgredissem. Agora, com a chegada da plenitude dos tempos, somos libertados pelo amor gratuito de Deus manifestado através de Cristo. Isso não significa que a lei se tornou uma realidade descartável. O que Jesus quer nos mostrar é que a lei em si mesma não pode penetrar de maneira suficiente o coração do homem. Somente com a caridade, a lei chega a sua plena perfeição.

Exatamente por isso, nós, homens cristãos de verdadeira fé, estamos ligados ao anúncio da verdade. O batismo implica um compromisso real com a pessoa divina de Jesus Cristo e com o Reino dos Céus. Seremos livres quando estivermos totalmente voltados para Deus. Seremos justos quando submetermos as leis que regem nossa sociedade ao escrutínio da fé e do amor.

Diác. Roberto César Braga
Diocese de Uruaçu

 

Referências:

BETTENCOURT, Estevão. Para entender os Evangelhos. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1960.
B. ORCHARD; E. F. SUTCLIFFE; R. C. FULLER; R. RUSSEL. Verbum Dei. 1ª Ed. Barcelona: Editorial Herder, 1957.

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